Como manter a esperança por um mundo de paz?

Pergunta que sitiou meus pensamentos por alguns anos enquanto observava atônito o som dissonante deste mundão de meu Deus. Mundão “véio” de porteira aberta.

Uma palavra trazia uma réstia de luz que não deixava ofuscar a visão dos meus sonhos:

“Criei a União do Vegetal para fazer uma paz no mundo”.

Já tinha o Acre como base avançada de meus estudos espirituais. Paulista vivenciando a realidade sob o prisma florestal. Seringal Novo Encanto, amigos encontrados e reencontrados, integração com a Natureza entre carapanãs, cabas e taxis, frequência do Mestre como um dial de rádio, superação de limites e novas palavras no velho dicionário.

Numa destas imersões, em 2010, o visgo da memória presa. Existia uma cidade nas entranhas da floresta onde a UDV estava transformando a sociedade. Indícios de uma paz anunciada. Jordão, nome inspirador. Sinônimo de vida nova.

Em outra viagem, em 2012, buscando uma mensagem de Chacrona em Feijó, mais uma confirmação da boa nova. Jordão já vibrava em minha memória.

Em maio de 2015, movido pelo querer e contando com auxílio de amigos, embarquei para Rio Branco. Depois, em um bimotor sacolejante, sobrevoando o oceano verde sem fim, chegamos ao pequeno aeroporto às margens do Rio Jordão.

Fui recebido como um filho retornando pra casa depois de muitos anos.

Irmandade pequena, aproximadamente 50 sócios na época. Hoje com quase 80. Crescimento exponencial. Prosperidade em forma de gente.

Fomos direto para um Preparo. A floresta nos presenteou com um Mariri que o vento colheu.

Irmandade receptiva, gente simples e cativante. Histórias de vida fortes e marcantes, “causos” divertidos típicos do Acre.

A Casa de Preparo, um primor, construída no lugar da antiga de palha, que o fogo reciclou. Pilares de concreto construídos com restos de cimento e tijolos descartados de construções recolhidos pela cidade em carrocinhas e moídos no martelo em mutirão. Princípio de sustentabilidade imposta pela geografia em um lugar para o qual o saco de cimento viaja por dias, às vezes semanas, de barco de Tarauacá até Jordão, tornando o preço inviável.

Batista, o Mestre Responsável pela Distribuição Autorizada de Vegetal, me cativou desde o início. Um batista na DAV no Rio Jordão. Só pode ser missão. Ainda brincam comigo: “Pede pra ele te batizar no rio”. Confesso que tive de resistir à vontade.

É policial militar numa cidade que já esteve nas estatísticas de região perigosa pela vizinhança com o Peru e por suas rotas de comércio insalubre. Um dado chama atenção. Do efetivo da cidade, dos nove militares, cinco bebem Vegetal. Soldados da paz?

Alguns sócios atuais ele conheceu na delegacia cumprindo reclusão. Fez um belo trabalho de orientação e aconselhamento. Levou para conhecer o Vegetal e hoje são cidadãos trabalhadores, universitários e com família estruturada. Exemplos de reabilitação e reintegração. Tive a honra de conhecer alguns deles.

Conheci o Weslley. O pequeno menino com sonhos gigantes. Estava com os meninos limpando o banheiro masculino recém-construído. Modelo de capricho. Perguntei se era escala. “Não. A gente escolheu fazer.” Eu estava com a bota melada de barro do caminho e eles falaram: “Pode entrar que depois a gente limpa de novo”. Tirei a bota e entrei de meia. O chão reluzia. A meia saiu do jeito que entrou de tão limpo que estava o chão. Detalhes que podem passar perigosamente despercebidos.

A água é misteriosa. Em uma enchente histórica do rio, em 2008, igualou a todos. A irmandade se mobilizou e ficou 2 dias e 2 noites resgatando os moradores dos alagados. Depois de atender a população foi cuidar do que restou do Núcleo. Nova reconstrução. Quando as águas baixaram, revelou-se o valor da irmandade. O prefeito da época, fundador e autoridade da cidade, e um dos socorridos, reconheceu o que estava florescendo após a fertilização pelo rio. Assumiu o compromisso de “auxiliar a União até o fim da vida”. São hoje reconhecidos pelo bem que fizeram.

O bem sabe é quem recebe mas também traz consequências. Desde então, quando tem algum trabalho que exige uma determinação diferenciada, procuram a União do Vegetal.

Um trabalhador se acidentou na floresta e alguém precisava resgatá-lo. Foram pedir para as pessoas da União pois nenhum outro se apresentou pra buscá-lo. Um dia de caminhada para ir e outro para voltar nas trilhas da floresta com o acidentado na rede.

Às vezes é preciso reconstruir uma casa de ribeirinho que o rio está para levar. Mais um mutirão e a casa é reconstruída alguns metros recuada. Apenas uma atividade de união. Motivo para um churrasco e muitas risadas.

Assim se cria um conceito. Hoje quando um jovem quer melhorar de vida, abandonar a vida de ilusão e trevas, procura a União pois sabe que com poucos dias terá uma casa, um trabalho e uma família. Quando chega um novato precisando, a irmandade faz mutirão e constrói uma moradia no fim de semana. Simples assim.

Na cidade, quando alguém precisa contratar um funcionário, procura na UDV pois sabe que são pessoas com mais responsabilidade. Com isso, hoje a União tem irmãos em todos os setores públicos na cidade, ou contratados ou por aprovação em concursos públicos. Domínio pela paz.

Um dono de bar foi perdendo os frequentadores para a União a ponto de mudar o bar para mercearia e venda de pães. Entre outros casos parecidos. Transformação pela consciência.

Em 2015 a Câmara Municipal aprovou projeto oficializando o dia 22 de julho como feriado municipal: Dia da Paz e Conciliação.

Na eleição municipal ano passado, foi eleito vereador o Conselheiro Marcelo. Segunda melhor votação na cidade. Reconhecimento social. O caminho é este.

Jordão. Um lugar a se conhecer. Só depende do querer.

*Adalberto Fassina Junior é integrante do Quadro de Mestres do Núcleo Rainha das Águas, em Caldas-MG, 3a Região.