AVENTURA – Acompanhe o diário de viagem da administradora e jornalista Sabrina Gondim à Serra do Divisor

Bem distante da Capital, o Parque Nacional da Serra do Divisor é uma unidade de conservação brasileira de proteção integral da natureza localizada no estado do Acre, na fronteira com o Peru, com território distribuído pelos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Rodrigues Alves. É a quarta maior reserva do Brasil. A administração do parque está a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente.
O trajeto é destino inicial – Rio Branco – Cruzeiro do Sul – Mâncio Lima – barco até o parque. De Rio Branco à Cruzeiro do Sul pode ir de avião, ônibus ou carro particular, para Mâncio Lima, por via terrestre de ônibus ou lotação (táxi compartilhado) e daí segue por 10 horas em uma viagem de barco pelos rios Japiim e Moa até uma pousada na reservada. Eu me hospedei na Pousada do Miro, pousada mais antiga da região. Mas existem mais duas pousadas no parque, a Canindé e a da Dona Graça.
No local há poucos moradores, que preservam o parque e a história local, bem como o meio ambiente, os atrativos são as belas paisagens, as várias cachoeiras e os artesanatos nas aldeias indígenas, das etnias Nuquini e Nawa, os restaurantes são os das pousadas, além de várias trilhas que conduzem às cachoeiras, dentre elas o Buraco Central, aberto pela Petrobrás em busca de Petróleo, famoso por jorrar água morna do buraco com força que não permite você imergir na água.
O custo da viagem é em torno de R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais), considerando a viagem de Rio Branco até Cruzeiro do Sul por via terrestre, o barco, a hospedagem com alimentação e os guias para os passeios nas trilhas e cachoeiras.
O percurso não é tão tranquilo, já que os rios tem muito estreitamento e por muitos trechos é um riacho dentro da floresta, o que requer bastante habilidade dos barqueiros. A distância de 10h até a pousada em barco de pequeno porte e motor lento torna a viagem cansativa.
O caminho até a cachoeira Formosa, a mais desafiadora, é uma trilha de nível difícil, sendo percorrido em terra seca, lama e pedras cobertas por riachos e cachoeiras, sem falar nas árvores caídas ao longo do caminho, e falta de apoio para escaladas que em muitos momentos é bastante íngreme, o acesso é cheio de obstáculos.
Para concluir o percurso tranquilamente, é necessário usar vestimentas e calçados adequados. Caso contrário torna-se uma viagem cansativa e sofrida, que logo é compensada pelas belas paisagens ao fim do destino, quando encontramos a cachoeira e sua refrescante queda d’água, rodeada pela imensidão da floresta e suas belas e fortes árvores.
Essa experiência me permitiu tocar a alma e explicar uma porção de sentimentos que as palavras não dão conta.
Tive a sensação de que a força que eu buscava estava ali, bem próxima e acessível. Assim como as árvores antigas, fortes, vista a olhos nus na natureza, como um espelho meu.
Compreender que a natureza, que aparentemente é externa, faz parte de nós, nos permite transportar mentalmente toda a força das lindas árvores para dentro do nosso coração, como uma simbiose entre ser humano e natureza, a maior de todas as riquezas e fonte de todos os sentimentos.
Refleti sobre o quanto o nosso amor próprio precisa crescer e assim ganhei um prêmio: o abraço mais apertado e acolhedor desse mundo, o meu mesmo!
A vivência desse momento na mata fechada, fria e cheia de animais selvagens, peçonhentos e insetos, o perigo ali tão perto, o desafio da resistência para chegar ao destino, a opção de apenas seguir em frente e mostrar a capacidade de superação, me deu força e contentamento, o que quero que nunca mais vá embora, esse se tornou um dos melhores momentos de minha vida.
Tive várias conversas direta com Deus e com a natureza, a quem sempre respeitei.
Uma viagem cheia de significados, me sinto árvore da vida, forte e abençoada.
Eu passei cinco noites no parque, fiz diversas trilhas, visitei a Cachoeira do Amor (perto da pousada, aproximadamente 1h até lá. É bem bonita e muito refrescante, uma delícia após a caminhada);
Cachoeira do ar condicionado (quando você chega perto, sente um vento gelado. A queda dela é maravilhosa e forte. São uns 20 minutos de caminhada pra chegar);
O Buraco Central (formado devido as escavações feitas pela Petrobras em busca de petróleo na região lá pela década de 40, a perfuração de aproximadamente 200 metros, deu origem um olho d’água que nunca para de jorrar. Existe ainda a presença de enxofre, que dizem ser medicinal e pode deixar sua roupa e pele amareladas, por isso aconselho usar roupas escuras nessa visita) e;
A Cachoeira formosa, a mais desafiadora e íngreme, o caminho são cheios de obstáculos (São 12 km até um acampamento improvisado aonde pernoitei, é opcional o pernoite, aproximadamente 5 horas de trilha pra chegar até o acampamento e mais 3 km até a cachoeira, em meio a águas, pedras e árvores caídas pelo meio do caminho, aconselho usar legging e sapato pra trilha, sapatilhas impermeável e blusa de manga longa com proteção solar).
Atenção para um detalhe importante: Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica são os únicos bancos de Cruzeiro do Sul! Se seu banco é outro, saque dinheiro ainda em Rio Branco, pois no parque é tudo no dinheiro vivo (por motivos bem óbvios, lá só tem sinal de fumaça, ninguém trabalha com cartão).
Indico levar capa de chuva (em especial no inverno amazônico), sapato impermeável, repelente (muito importante!), chapéu, protetor solar, água mineral, snacks para lanchinhos rápidos, papel higiênico, primeiros socorros.
O lugar mais próximo aonde encontrará um “mercado” é Mâncio Lima, por isso leve o que julgar necessário, sem excesso, pois muito peso pode dificultar muito seu passeio.
E friso que essa é uma viagem para aventureiros. Você visitará lugares MARAVILHOSOS, mas estará no meio da floresta amazônica, onde a infra é complicada e estará com pessoas cujo convívio com todos os tipos de animais é algo bem normal para eles.
Obrigada ao Marcos Vicenti, organizador da expedição, aos fotógrafos Fagner Delgado e Pedro Devanir que captaram imagens com perfeição e sensibilidade, aos expedicionários que demonstraram amor e solidariedade uns para com os outros desde o primeiro dia, mesmo sendo desconhecidos de muitos.
Gratidão pela oportunidade de tão linda e inesquecível experiência.

Acre, janeiro de 2021
Sabrina Gondim

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