Connect with us

Valterlucio Campelo

Bioeconomia e comportamento do consumidor: insights sobre o açaí amazônico

Publicado

em

Valterlucio Bessa Campelo

Em tempo de pós-COP30, discuto um tema que permeou o encontro de Belém, que é a bioeconomia e, nela, um indicador importantíssimo para a economia agrícola, com o qual trabalhei em estudos avançados de pós-graduação, que é a Disposição a Pagar – DAP, por determinado produto em função de suas características. No caso dos alimentos elas podem ser sensoriais (gosto, doçura, amargor), funções nutricionais, origem etc. Através da DAP é que se mede o prêmio (uma espécie de ágio) que o consumidor está disposto a pagar para adquiri-lo. Infelizmente, esse dado crucial para a avaliação da viabilidade de produtos bioeconômicos tem sido negligenciado.

No caso da bioeconomia a DAP é essencial e pode mesmo significar os seus limites de crescimento, se bem estudado. Simplifiquemos: quanto você está disposto a pagar por uma porção de açaí? Esta é a DAP. Quanto você está disposto a pagar a mais pela mesma porção de açaí, sabendo agora que ele é produzido na Amazônia? Se o consumidor disser que paga 20% a mais, este é o valor com o qual ele precifica a origem (Amazônia) e suas correlações estimadas pelo próprio consumidor (sociais, ambientais etc.). Neste texto faço uma rápida elaboração a partir de três estudos de DAP, tendo como alvo a vedete da bioeconomia na Amazônia, o açaí.

O açaí (Euterpe oleracea), fruto emblemático da Amazônia, tem se consolidado como um pilar da bioeconomia brasileira, impulsionado a partir do início dos anos 2000, por sua valorização global como “superalimento” rico em antioxidantes e nutrientes. No contexto da bioeconomia, que busca explorar recursos biológicos de forma sustentável, a disposição a pagar (DAP) pelos consumidores representa um indicador crucial para avaliar o potencial econômico de produtos amazônicos. Isso porque, agronomicamente replicados em outras regiões com o aporte correto de tecnologia e insumos, a maioria dos produtos são escaláveis e ameaçam a viabilidade de espécies e nichos amazônicos.

Com base nas conclusões de estudos recentes sobre a DAP pelo açaí amazônico, exploramos como esses achados iluminam paradoxos no consumo, implicações para cadeias de valor e desafios para uma bioeconomia inclusiva. Ao sintetizar evidências de pesquisas nos Estados Unidos e no Brasil, busca-se destacar como a origem amazônica influencia – ou não – o valor percebido, e como isso impacta a transição para modelos econômicos mais verdes.

Os estudos analisados revelam que, apesar do apelo narrativo da origem amazônica, fatores como atributos sensoriais, informação nutricional e barreiras econômicas frequentemente superam considerações sustentáveis na DAP. Isso sugere que a bioeconomia, para ser viável, corre o risco de commoditização, portanto, é importante investir em educação e certificações que alinhem consciência ambiental com ações concretas visando elevar a DAP. A seguir, detalhamos as conclusões principais de três estudos representativos, discutindo brevemente suas implicações.

Um primeiro estudo, conduzido nos Estados Unidos, investigou as preferências sensoriais e a DAP por produtos nutracêuticos à base de açaí, utilizando leilões não hipotéticos com uma amostra de 228 consumidores. As conclusões apontam para uma DAP média de US$ 3,45 por garrafa, com variações influenciadas principalmente pelo equilíbrio sensorial (como doçura e amargor) e pela informação sobre benefícios à saúde, como antioxidantes. Surpreendentemente, não houve prêmios significativos associados à origem amazônica, sustentabilidade ou certificações, indicando que a utilidade percebida é neutra ou decrescente para esses atributos. Os fatores que, de algum modo mexeram com a DAP foram a exposição sensorial prévia à informação nutricional, que aumentou a DAP em até US$ 0,45, enquanto hábitos como exercícios frequentes elevaram em US$ 0,54.

Essa conclusão demonstra que, em mercados importantes como o norte-americano, o apelo da origem amazônica é secundário em relação à experiência imediata do produto. Para a bioeconomia, isso é fatal. Sem um ágio adequado pela autenticidade, há risco de diluição do valor agregado, especialmente com a expansão do cultivo para regiões não nativas, onde a produção de monocultivos pode competir sem o “prêmio de origem”. No fim das contas, para o americano, não importa se o açaí é produzido de modo tradicional em Feijó, no Acre, ou em uma plantation em Quixadá, no Ceará.

Impressionante é o estudo brasileiro na região metropolitana de Belém, que examinou o paradoxo no consumo de açaí. Utilizando um questionário com 330 respondentes para correlacionar consciência ambiental (medida pelo Novo Indicador de Consciência Ambiental – NICOA, com média de 83,4%) e DAP por opções sustentáveis. As conclusões revelam uma correlação negativa forte (r = -0,88) entre alta consciência ambiental e DAP por açaí sustentável, com preferência moderada por certificações (r = 0,41) e forte por monoculturas (r = 0,80). Esse paradoxo indica uma certa dissonância cognitiva: embora os consumidores declarem valores ambientais elevados, barreiras como preço e praticidade impedem ações concretas, favorecendo opções mais acessíveis, mesmo que menos sustentáveis. Em resumo, os entrevistados pagariam mais por um produto vindo de monocultivos embora se enxerguem ambientalmente conscientes. Neste caso, poder-se-ia sugerir também uma avaliação quanto à segurança sanitária vegetal, considerando que os casos de infecção por doença de chagas já relatados tiveram muita repercussão.

Um terceiro estudo, realizado também no Brasil (especificamente no Pará), encontrou que, em termos de DAP, 17% dos respondentes estavam dispostos a pagar prêmios de 30% ou mais por atributos sustentáveis, 35% entre 20-30%, 44% de 1-5%, e 4% esperavam reduções. Esses prêmios variam por segmento, sendo maiores entre consumidores de alta renda e educação.

Comparando as conclusões, observa-se uma convergência: a DAP pelo açaí amazônico é moderada e influenciada mais por fatores sensoriais e nutricionais do que pela origem ou sustentabilidade, com paradoxos comportamentais no Brasil e ausência de ágio nos EUA. Isso expandido a outros produtos, praticamente põe em xeque a efetividade da bioeconomia.

A título de sugestão, diria que para uma bioeconomia sustentável, é essencial alinhar narrativas de origem com valor agregado real, investindo em segmentação de mercados e políticas que remunerem custos socioambientais. Recomenda-se pesquisas de DAP em outros mercados internacionais para identificar e explorar prêmios via fair trade, garantindo que o açaí amazônico beneficie comunidades locais sem comprometer ecossistemas

Outros estudos que precisam ser realizados dizem respeito ao Preço Hedônico Socioambiental – PHS. No contexto de produtos da sociobiodiversidade (como o açaí, cacau ou castanha), o conceito busca isolar e quantificar o prêmio de preço que o consumidor está disposto a pagar por atributos não físicos, como: ambiental (certificação, manejo florestal, taxa de desmatamento etc.); social (certificação Fair Trade – comércio justo, repartição de benefícios com comunidades tradicionais, uso de mão de obra familiar); origem (indicação geográfica (IG) que atesta a procedência e o método tradicional de produção).

Resumidamente, o preço hedônico socioambiental (PHS) é a ferramenta econômica que mensura a contribuição de valor dos fatores éticos e de sustentabilidade (como a inclusão social e a conservação florestal) para o preço final de um produto. Ele transforma o valor intangível (como a ética) em um componente quantificável do preço.

Sem estudos dessa natureza, que avaliem eficientemente a exploração de determinados produtos em mercados consumidores externos, e sem políticas públicas (sempre elas!) de subsídios, taxas, regulações e responsabilizações, informação e engajamento, ao invés de percorrer um itinerário de enriquecimento, inclusão e redução das desigualdades, facilmente a bioeconomia tomará o mesmo rumo de sua irmã, a “florestania”, ou seja, repousará no fundo do rio até que uma nova onda a ressuscite com outro nome atraente.

Valterlucio Bessa Campelo, escreve semanalmente nos sites AC24HORASDIÁRIO DO ACREACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro “Arquipélago do Breve” encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.

Continue lendo

EXPEDIENTE

O Portal Acrenews é uma publicação de Acrenews Comunicação e Publicidade

CNPJ: 40.304.331/0001-30

Gerente-administrativo: Larissa Cristiane

Contato: siteacrenews@gmail.com

Endereço: Avenida Epaminondas Jácome, 523, sala 07, centro, Rio Branco, Acre

Os artigos publicados não traduzem, necessariamente, a opinião deste jornal



Copyright © 2021 Acre News. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por STECON Soluções Tecnológicas