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GOSPEL

Encarar a morte desperta sabedoria, escreve jornalista e advogado Chico Araújo

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em

Por Chico Araújo

Eclesiastes, também conhecido como Qohelet (“o Pregador” ou “o Mestre da Assembleia”), pertence à literatura sapiencial do Antigo Testamento. Escrito provavelmente entre o final do século III a.C. e o início do século II a.C., no período helenístico, o livro reflete o diálogo tenso entre a tradição judaica e o pensamento grego, especialmente o ceticismo e o estoicismo. Embora a tradição atribua sua autoria ao rei Salomão, os estudiosos veem nele um sábio anônimo que adotou a persona salomônica para dar autoridade à sua reflexão.
O Pregador escreveu os versículos de Eclesiastes 7, 2-4 com o propósito claro de confrontar a superficialidade humana e despertar uma sabedoria prática enraizada na consciência da mortalidade. “É melhor ir à casa onde há luto do que à casa onde há banquete, pois a morte é o destino de todos os homens, e os vivos devem tomar isso a sério” (Ecl 7, 2). Prossegue afirmando que “a tristeza é melhor do que o riso, porque com a tristeza o rosto se torna melhor” e que “o coração dos sábios está na casa onde há luto, mas o coração dos tolos está na casa onde há prazer” (Ecl 7, 3-4). Em uma época de rápidas transformações culturais, incerteza política e questionamento de valores tradicionais, ele denuncia a vaidade de tudo o que existe “debaixo do sol” e propõe o confronto com a morte como o caminho mais seguro para a maturidade espiritual e ética. Seu objetivo não é promover tristeza perpétua, mas corrigir a tendência humana de fugir da finitude por meio do prazer efêmero, demonstrando que a casa do luto oferece uma lição mais profunda que a casa do banquete.
Essa perspectiva ecoa na ontologia de Martin Heidegger, que em Ser e Tempo afirma: “a morte é a possibilidade da impossibilidade mais própria, incondicionada e insuperável do Dasein”. Ao antecipar a própria finitude, o ser humano liberta-se da existência inautêntica e assume uma vida resoluta. Sigmund Freud observa em Luto e Melancolia que “no luto, o mundo se torna pobre e vazio”, enquanto Viktor Frankl complementa: “quando não se pode mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”. O luto saudável permite o desligamento gradual e o reinvestimento libidinal na vida, transformando a perda em oportunidade de sentido.
Émile Durkheim via nos ritos funerários um mecanismo essencial de coesão coletiva que reforça a consciência social contra a anomia. Arnold van Gennep descreve os funerais como ritos de passagem por excelência, cujo momento liminar suspende as estruturas cotidianas e permite a profunda redefinição da existência.
Nos dias atuais, em uma sociedade hiperconectada, hedonista e marcada pela negação sistemática da morte, meditar sobre esse escrito de Eclesiastes ganha urgência particular. Vivemos imersos em uma cultura de distração constante — redes sociais, entretenimento sob demanda e consumismo acelerado — que funciona como uma “casa do banquete” coletiva, onde a finitude é escondida, medicalizada ou romantizada. A morte, quando irrompe (em pandemias, guerras ou crises climáticas), é rapidamente suprimida para não interromper o fluxo de prazer e produtividade. A Terror Management Theory (TMT), desenvolvida por Jeff Greenberg, Tom Pyszczynski e Sheldon Solomon a partir das ideias de Ernest Becker em A Negação da Morte, explica que a consciência da mortalidade (“mortality salience”) gera ansiedade profunda, levando as pessoas a reforçar autoestima, visões de mundo culturais e legados simbólicos como defesas contra o terror do aniquilamento. Contudo, quando enfrentada de forma meditativa e não evasiva, como propõe o Pregador, essa consciência produz efeitos transformadores: maior gratidão, redefinição de prioridades, comportamentos prosociais, redução do materialismo superficial e uma vida mais autêntica e resiliente.
Em um mundo onde o FOMO (Fear Of Missing Out, o medo de ficar de fora das experiências alheias), o burnout e a crise de sentido são epidêmicos, o convite à casa do luto atua como antídoto poderoso. Desperta humildade diante da brevidade, incentiva relações profundas e constrói um propósito que transcende o efêmero. A meditação sobre essa sabedoria não nos torna mórbidos, mas nos liberta para viver com maior clareza, compaixão e urgência ética.
Kierkegaard sintetiza essa sabedoria ao dizer: “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente”. O Pregador, ao nos conduzir à casa do luto, nos convida exatamente a isso: olhar para a finitude que nos iguala a fim de avançar com maior clareza, propósito e gratidão. Nessa consciência da brevidade reside o convite constante à sabedoria — viver não para acumular alegrias passageiras, mas para construir uma existência que, mesmo finita, ressoe com profundidade e transcendência.

*Advogado, jornalista e teólogo. Autor de Quando Convivi com os Ratos (2024), Sombras do Poder (2025) e Memórias de Um Repórter (2025), pela Editora Social.

 

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