RAIMUNDO FERREIRA
Professor aposentado pela UFAC, colunista do AcreNews, relembra, em crônica, quando saía na madrugada para cortar seringa

LEMBRANÇAS DA SELVA
Neste momento presente em minha memória, posso visualizar uma paisagem antiga, porém com detalhes muito nítidos, que me fazem reviver com bastante precisão um passado não muito distante, no interior da selva amazônica, trabalhando com extrativismo vegetal na produção da borracha natural, nos seringais nativos da Amazônia.
Vejo-me caminhando pelos varadouros que ligavam uma colocação (moradia do seringueiro) à outra e também ao barracão do aviamento. Recordo-me de quando acordava às duas horas da madrugada para iniciar a tarefa de sangrar as seringueiras (Hevea brasiliensis). Adentrava os caminhos da estrada de seringa, denominados “pernas” — direita e esquerda — com uma luminária a querosene na cabeça, chamada “poronga”.
Lá íamos nós, eu e meu pai, caminhando por trilhas estreitas, atentos aos perigos noturnos da selva, vencendo obstáculos naturais, cruzando igarapés e grotas por pontes de madeira roliça, as populares “pinguelas”, equilibrando-nos em corrimões improvisados. Por esses caminhos tortuosos e desafiadores, percorríamos longas distâncias, zigzagueando em meio à densa floresta nativa.
Ao raiar do dia, como acontece em todo amanhecer no interior da natureza selvagem, éramos agraciados pela musicalidade dos animais saudando o novo dia. Ainda posso recordar, com bastante precisão, o ronco rouco dos macacos guaribas ou capelães, como os nativos os chamam; o alarido, às vezes ensurdecedor, de papagaios, curicas, jandaias, maracanãs, araras e periquitos na farra do café da manhã na copa das árvores frutíferas. A tudo isso se misturava o cântico compassado, em repetição contínua, dos macacos zog-zog.
Essa sinfonia mais linear era contrastada pelo rasgo estridente e assustador do jacu, ao qual se juntava a animada fanfarra das aracoãs.
Nesse ambiente de harmonia e sons característicos da selva, o dia seguia com a interação habitual na caminhada, enfrentando arbustos, raízes expostas, sapopembas sobressaindo dos troncos das grandes árvores como paredes naturais, folhagens e resíduos acumulados no solo — verdadeiros tapetes marrons —, espinhos afiados, formigas de várias espécies, aranhas (aracnídeos) e até cobras, venenosas ou não, camufladas entre os arbustos, prontas para surpreender caso percebessem a presença humana como ameaça.
A floresta é encantadora e bela; no entanto, requer conhecimento, domínio e cuidados para que se possa usufruir de suas belezas e conviver com certa tranquilidade nesse ambiente.
A caminhada pela mata bruta — refiro-me à época dos seringais nativos da Amazônia —, além da paisagem típica da floresta tropical, com árvores frondosas e cipós exuberantes que uniam impressionantemente as copas, proporcionava encontros inesperados com animais silvestres, como antas, veados, bandos de porcos-do-mato (catitus), onças, gatos-maracajás, iraras, mambira, tamanduás, gambás (mucuras), cotias, bandos de quatis, guaxinins, raposas, cachorros-do-mato, quatipurus (caxinguelês), entre outros.
Havia também uma grande variedade de macacos: capelães, pregos, cairaras, parauacus, zog-zog, dicheiros, soinhos, bigodeiros, entre outros.
E uma diversidade imensa de aves: inhambus — azul, galinha, macucau, preta e sururina —, mutuns, jacus, jacamins, cujubins, aracoãs, juritis, pombos selvagens, urus, papagaios, araras, curicas, jandaias, maracanãs, periquitos, gavião-real (harpia), gaviões-toatás, saracuras (siricoras-do-brejo), jaçanãs, galinhas-d’água (azulonas), uirapurus e uma infinidade de passarinhos.
Ainda me lembro de quando me sentava em um banco à margem do igarapé Caipora, ao entardecer, observando a atuação paciente de um socó, espreitando uma piaba para o jantar. Bem próximo dali, um martim-pescador, empoleirado em um galho fino, utilizava a mesma tática: permanecia imóvel na espreita de um pequeno peixe e, ao localizá-lo e calcular corretamente o ataque, descia como uma flecha, mergulhava na água e apanhava seu jantar, voltando ao poleiro para degustá-lo com tranquilidade.
Quando a noite chegava, na hora de dormir, éramos inevitavelmente envolvidos pela sinfonia intermitente dos grilos, dos sapos do brejo, pelos piados ritmados do bacurau e, eventualmente, pelo rasgo estridente e assombroso do urutau — que os nativos chamam de rasga-mortalha — cortando os céus da floresta.
Bons tempos, boas recordações. Somente quem experimentou de perto pode contar com propriedade.












