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POLÍTICA

Café, poder e conflito de interesses: a fazenda de Jorge Viana, presidente da Apex, na rota dos compradores internacionais

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Mesmo em um ano de turbulência no comércio internacional, o café brasileiro continua sendo uma engrenagem central da balança comercial. Em novembro, o país exportou 3,5 milhões de sacas de 60 quilos, uma queda de 26,7% em relação às 4,8 milhões vendidas no mesmo mês de 2024. Ainda assim, a receita subiu 8,9%, de US$ 1,4 bilhão para US$ 1,5 bilhão, impulsionada pela alta dos preços. Nem o tarifaço imposto por Donald Trump foi suficiente para tirar dos Estados Unidos o posto de principal comprador do café brasileiro.
Diante desse peso econômico, promover o produto no exterior é uma das atribuições centrais da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). No início de novembro, a agência levou ao Acre uma comitiva de nove compradores internacionais, vindos da América do Norte, Europa, África e Ásia, para conhecer a produção local.
O roteiro incluiu visitas a fazendas produtoras do robusta amazônico (Coffea canephora), variedade desenvolvida pela Embrapa e adaptada às condições da floresta. Mais encorpado e mais intenso que o tradicional arábica, o robusta vem sendo apresentado como uma alternativa competitiva no mercado global, combinando produtividade e discurso ambiental.
À frente da ApexBrasil desde o início do governo Lula, o acreano Jorge Viana — ex-prefeito de Rio Branco, ex-governador e ex-senador — acompanhou de perto a agenda. À imprensa local, exaltou o que chamou de “momento histórico” da cafeicultura do estado, baseado em “sustentabilidade e qualidade”. Também elogiou o “trabalho extraordinário” do presidente da CooperCafe, Jonas Lima, ex-deputado estadual pelo PT, partido de Viana. “Estamos construindo uma nova matriz econômica baseada em sustentabilidade e qualidade. Esse é apenas o começo”, declarou.
O discurso público, porém, deixou de fora um detalhe relevante: uma das propriedades visitadas pelos compradores foi a Colônia Floresta, em Senador Guiomard, a 25 quilômetros de Rio Branco — uma fazenda de robusta amazônico que pertence ao próprio Jorge Viana. Coube a ele guiar os visitantes pela área.
No site da ApexBrasil, a lista de fazendas visitadas não aparece. Mas Jonas Lima confirma que a propriedade do presidente da agência fez parte do roteiro. “Visitaram a fazenda do Jorge e de diversos outros produtores”, disse. Segundo ele, a cooperativa reúne hoje 182 produtores e deve chegar a 320 em março, sinal de um setor em rápida expansão.
A missão internacional, afirma Lima, já rendeu resultados comerciais. “Acabamos de vender dois contêineres para Dubai.” A CooperCafe participou ainda de mostruários do programa Exporta Mais Brasil e da Semana Internacional do Café, em Belo Horizonte — eventos promovidos pela ApexBrasil. A Colônia Floresta esteve presente ao lado de outros produtores acreanos.
A fazenda de Viana recebeu licença ambiental para cultivo no segundo semestre de 2023, antes de ele assumir a Apex. A área autorizada é de 20,44 hectares. Em maio de 2024, já no comando da agência, Viana promoveu uma cerimônia religiosa para marcar a primeira colheita da propriedade, com padre e pastor abençoando os grãos — um evento amplamente divulgado na imprensa local.
Procurada pela piauí, a ApexBrasil afirmou, em nota, que não houve favorecimento. Segundo a agência, Viana recebeu os importadores na Colônia Floresta apenas como “anfitrião institucional” e que nenhuma saca de café de sua fazenda foi vendida durante a visita. “Jorge Viana não exporta café, e sua produção não integra os negócios da ApexBrasil”, diz o comunicado.
A nota ainda sugere que a parada na fazenda do presidente ocorreu porque ela ficaria no caminho para outra propriedade exportadora e serviria para mostrar um exemplo de cultivo compatível com a floresta — tema central no discurso de Viana, que costuma afirmar que “o Acre se sustenta convivendo com a floresta”.
A explicação, contudo, não elimina a questão central: é apropriado que o chefe da agência encarregada de promover exportações receba compradores estrangeiros em sua própria fazenda, ainda que não feche negócios ali?
O café não é o único setor em que a atuação da ApexBrasil sob Viana levanta questionamentos. A agência também tem priorizado a proteína animal, com forte foco no Acre. Em 2025, firmou um convênio de R$ 82 milhões com o Banco da Amazônia para financiar produtores de aves e suínos do estado. Empresários do setor frigorífico relatam desconforto com o que veem como um tratamento privilegiado aos pecuaristas locais.
Desde que assumiu a Apex, Viana lembra que o Acre exportava apenas US$ 20 milhões em 2006. Em 2024, as exportações chegaram a R$ 87 milhões, e a projeção para 2025 é alcançar R$ 100 milhões — números que devem ser fechados justamente às vésperas da eleição em que ele disputa uma vaga no Senado.
Muita gente criticou o presidente da Apex bem como outro grupo muito ruidoso decidiu fazer a defesa do ex-governador: “Jorge Viana é um dos maiores incentivadores da produção de café no Acre e no Brasil. Esse tipo de material é sensacionalismo político total. O café brasileiro conhece e aprova o trabalho de JV na Apex”, disse o ativista Aarão Prado. “Esse país é puteiro a céu aberto”, contrapôs o leitor Kaiki Silva.
Os resultados econômicos são reais. O debate que permanece é se, por trás deles, a linha entre o interesse público e os interesses privados do presidente da ApexBrasil foi suficientemente respeitada.

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