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BETH PASSOS

Crônica do Domingo | Beth Passos

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Algumas pessoas se preocupam tanto em aparecer e agradar, que acabam se perdendo de si mesmas. Quando as pessoas se deixam dominar pelo ego e a vaidade, acabam entregando a vida para uma viagem só de ida. Só na tela.

São tantas ilusões por espelhos escondidos atrás de cortinas de grandes mentiras, que com o passar do tempo perdem a noção da realidade. Já não conseguem viver com verdades. E há uma cobrança coletiva por trás. Na verdade, somos todos cobrados pelo sucesso alheio e incentivados a sermos iguais. Não podemos passear, comer, comprar, viajar, namorar sem postar. Quem curte nem imagina que, em algumas situações, nos bastidores de uma foto postada, existem pessoas com a alma ferida, tentando prestar contas de uma realidade forjada.

Tentar competir com o mundo é a melhor e mais rápida maneira de ser derrotado. Existe um enquadramento relacionado entre as redes sociais e sua fábrica de ilusões. Parece absurdo, mas, na maioria das vezes, só postamos aquilo que queremos que os outros vejam. Postamos aquilo que queremos ser (e muitas vezes não somos). A verdade nem sempre é mostrada. Poses e closes, filtros e mais background para se chegar na foto perfeita. Quantas são as vezes que em busca de aprovação de outras pessoas, pintamos um quadro totalmente disforme da realidade, igual a fotos de revista de moda. Nem sempre é o que parece. A busca doentia por “likes” transforma fulanos e fulanas em reféns de suas próprias mentiras.

A postagem dos outros se torna uma provocação e é preciso se mostrar melhor. Mudar a aparência não é mais suficiente, é preciso fingir outra vida. A sociedade se reconfigura quando se projeta uma imagem vitoriosa. Há uma aceitação maior. Há uma glorificação da figura do ser bonito, rico e perfeito e não se enquadrar nisso é dolorido para pessoas (em sua maioria) com a autoestima abalada demais ou elevada demais. Umas de um lado, outras de outro. Paradoxos difíceis de compreender. Um sonho de consumo que faz muitos se sentirem seguros(as), mesmo sabendo que não são bonitos(as) ou felizes.  Um sonho de consumo que faz muitos(as) se mostrarem alegres e bem-sucedidos quando tem vidas pessoais fracassadas. Um sonho de ser além do que as outras pessoas comuns aparentemente são porque as redes sociais dão esse poder.

Os perfis são tão perfeitos, as pessoas tão alegres, as fotos tão bonitas, as comidas tão gostosas, as selfies mais incríveis, as festas mais chiques, os amigos tão sorridentes, as famílias tão impecáveis, empregos poderosos, romances maravilhosos, viagens inesquecíveis, as roupas mais caras: A melhor vida possível! Depois desse prazer dos diversos likes, essas ações viciam e tendem a se repetir. Quando tudo isso é verdadeiro e realmente vivemos e temos essa vida, é bom demais expor as conquistas.

Ostentar sucesso e trabalhar o marketing pessoal, pode fazer parte, saudavelmente, do dia a dia do vaidoso. Quando é sem muitos exageros, melhor ainda. O perigo é quando muita parte do que é exibido não é real, é montado, disfarçado, é fake. Existe o risco de ser descoberto e o castelo cair, o prazer pode virar dor, a luxúria pode virar amargura, aplausos viram vaias, beleza vira vergonha e sorrisos viram choro.

É complicado pensar que atualmente os níveis de felicidade, realização e sucesso das pessoas são calculados pelo número de likes e coraçõezinhos em seu perfil. Cliques esses, muitas vezes feitos por pessoas que nem se conhecem.

Fica mais difícil saber que isso também nos atinge. Essa falsa prosperidade que muitas vezes encontramos na vida dos outros, nós tentamos concretizar na vida da gente também e nem sempre conseguimos. A vida não nos cobra perfeição, mas a sociedade sim, os amigos sim, a família sim e com isso projetamos uma imagem de vencedor para agradar. Esse limite entre o real e o virtual, nos traz para uma reflexão sobre o que fazemos e o quanto ficamos invejosos sobre o que os outros fazem melhor do que nós. É como se a felicidade interior só tivesse alguma serventia se as outras pessoas vissem e curtissem. Como se a felicidade alheia fosse algo para incitar inveja.

Muitas vezes a gente se sente assim, insuficiente. Sentimos inveja. Sentimos que não chegamos lá. Mas não queremos assumir e não pretendemos nos esconder. Mas, se você precisa mudar seu jeito e esconder suas verdades para caber no mundo, saiba que jamais essa superficialidade nos deixará mais feliz, nem mais aceito(a), nem mais bonito(a) ou bem-sucedido(a).

Não existe quem não precise de melhorias, sempre deve haver uma inspiração que nos guie aos acertos, mas é preciso repelir os erros, é preciso aceitar quem somos.

Beth Passos

Jornalista

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BETH PASSOS

Crônica do Domingo | Beth Passos

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No restaurante, olhou em volta e percebeu que sua mesa era a única livre de qualquer alimento de origem animal. Sentiu-se deslocado e desapontado.

Pensou em pedir que embalassem sua refeição para comer em casa, onde não precisaria testemunhar o que definiu como “coletivo da desconexão”.

“Mas já estou aqui, e acho que seria bobo fazer isso.” De repente, uma mulher aproximou-se, pediu licença e disse que achou bonito seu prato, a combinação de alimentos, e perguntou sobre o que estava comendo.

Ele explicou, ela agradeceu e saiu. Pouco a pouco, vieram um rapaz, uma idosa e uma adolescente. Antes que terminasse de comer entre pausas, já não sabia dizer quantas pessoas atendeu.

Voltou ao mesmo restaurante por semanas, meses, comendo devagar e levando à mesa pratos que atraíam atenção pela diferença, por não ter nada proveniente de animais – e que eram também exercício de criatividade.

Sua mesa destoava, era singular, e fazia todas as outras parecerem como se fossem uma só, porque, imersas em seus hábitos, as pessoas comiam o que foram criadas para comer e apreciar, sem muito ponderar.

Achavam que o prazer e a vontade subsistiam nas limitações de suas escolhas, de viciados paladares. “Animais, animais, animais.” Era o que via e dizia pra si mesmo no silêncio de uma percepção cotidiana e repetitiva. Mas era fácil entender por que sua mesa atraía olhares.

Se andasse por todo o restaurante, qualquer um perceberia que a diferença pode levar tanto à estranheza quanto ao reconhecimento de beleza. E entendia que a beleza é condutora de curiosidade, de um despertar de fruição, prazer.

E ali nada inspirava mais beleza e suas associações e motivações do que sua capacidade e interesse em mostrar que os frutos da terra levam grande vantagem sobre os frutos da violência. “Por que não fazer diferente?”

Sem precisar falar muito, apenas estar ali, à sua maneira, atraindo e moldando curiosidades, gerou mudança no restaurante. Um dia, olhou à sua volta, e já não viu mais partes de animais na maioria das mesas. “Não cheguei com intenção, mas ela chegou.”

Beth Passos

Jornalista

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