POLÍTICA
Em artigo, ex-vereador João Marcos Luz diz que prevenir é proteger e questiona o papel dos pais diante do abuso infantil

Quando se fala em abuso sexual infantil, muita gente ainda imagina um estranho à espreita na rua. Os dados mostram outra realidade. Segundo estatísticas amplamente citadas por órgãos de proteção à infância, 93% das vítimas menores de 18 anos conheciam o agressor. Apenas 7% eram desconhecidos. Em cerca de um terço dos casos, o autor era membro da própria família.
Esses números mudam completamente a conversa. Muitas vezes, está no círculo de confiança. O perigo nem sempre vem de fora, mas é importante tomar cuidados necessários para evitar que a criança não seja exposta aos perigos do mundo real e virtual.
Recentemente, um caso envolvendo um profissional de prestígio preso pouco antes de um voo ganhou repercussão nacional. O episódio reforçou uma verdade incômoda: status, uniforme ou cargo não são garantias de caráter. Predadores podem ocupar posições respeitadas e agir por anos sob aparência irrepreensível.
Diante desse cenário, a prevenção começa dentro de casa.
A supervisão digital é parte central desse cuidado. Crianças e adolescentes passam horas em redes sociais, grupos de mensagens e jogos online que permitem conversas privadas. Muitos abusadores utilizam essas plataformas para criar vínculo gradual: começam com elogios, passam para confidências e, ao perceber fragilidade ou isolamento, avançam.
Isso não significa vigiar cada passo da criança como se fosse suspeita. Significa conhecer os ambientes que ela frequenta, revisar configurações de privacidade, orientar sobre não compartilhar imagens íntimas ou informações pessoais e, principalmente, manter diálogo constante. A regra precisa ser clara: qualquer pedido de segredo que cause desconforto deve ser contado imediatamente.
Outro ponto essencial é a educação preventiva adequada à idade. Crianças precisam aprender a reconhecer quando um toque faz parte do cuidado — como em situações de higiene ou atendimento médico — e quando ultrapassa limites. Também precisam saber que têm o direito de dizer não, inclusive para adultos conhecidos, e ter a certeza de que não serão punidas se relatarem algo que as deixou desconfortáveis.
Mudanças bruscas de comportamento também merecem atenção. Queda repentina no rendimento escolar, isolamento, medo de determinada pessoa, distúrbios de sono ou sexualização precoce podem ser sinais de alerta. Não são provas, mas indicativos de que algo precisa ser apurado com sensibilidade.
Há ainda um aspecto cultural que precisa ser enfrentado: a crença de que “na minha família isso não acontece”. Essa negação pode abrir espaço para abusadores que exploram justamente a confiança e o silêncio.
Prevenir também é responsabilidade coletiva. Abuso sexual infantil é crime grave, com consequências físicas e psicológicas que podem acompanhar a vítima por toda a vida. Denunciar é proteger não apenas uma criança, mas possíveis outras vítimas.
Preservar a infância não exige paranoia. Exige presença. Exige escuta. Exige adultos atentos, capazes de agir quando algo não parece certo.
A infância não pode depender só da sensação de que está tudo bem. É preciso adulto atento, conversa franca e atitude quando algo sai do lugar. Porque quando um limite é violado, não é a criança que deve se calar — é o agressor que precisa ser responsabilizado.
Deixem as nossas crianças em paz!













