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RAIMUNDO FERREIRA

Em sua primeira coluna de 2026, o professor Raimundo Ferreira de Souza escreve sobre o “Código de honra”

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 Raimundo Ferreira de Souza

Na nossa visão, não deve ser porque muitas condutas e atitudes sejam consideradas “fora de moda” que as pessoas devam abandoná-las ou deixar de praticá-las. A deferência e o respeito ao próximo, por exemplo, são valores atemporais — e jamais sairão de moda.
Reconhecemos que, em certos ambientes onde predominam comportamentos tidos como modernos, expressar posicionamentos considerados ultrapassados pode nos expor a críticas, reprimendas e até ao rótulo de retrógrados. Nesse contexto polarizado da atualidade, ainda podemos ser taxados de “lacradores” ou “falsos moralistas”.
Outro ponto que se destaca nessa seara da modernidade é a prática, quase generalizada, da lei do menor esforço. A maioria das pessoas parece movida pela ânsia de levar vantagem em qualquer situação, como se essas atitudes já estivessem naturalizadas no campo dos costumes. Assim, quem insiste em respeitar os direitos alheios e agir com honestidade, decência e justiça, além de ser chamado de “otário” ou “bobo”, acaba também rotulado como ingênuo.
A ansiedade em ultrapassar alguém na fila, por exemplo, passou a simbolizar, para muitos, uma espécie de conquista pessoal. Esse comportamento pode ser observado em transportes coletivos, embarques aéreos, agências bancárias e até nas interações cotidianas. Está se tornando quase cultural a ideia de que, para ser considerado “esperto”, é preciso manter o hábito de ganhar algo em cima do outro — seja por habilidade, distração, engano ou descuido alheio. Mesmo em situações simples, como receber troco a mais, poucos se manifestam para corrigir o erro, ainda que isso possa prejudicar alguém menos favorecido.
Em transações maiores, a lógica do “jeitinho” se intensifica: favorecer contatos, exigir reconhecimentos sem mérito, obter aprovações sem legitimidade, forçar atalhos e burlar regras para facilitar o próprio lado. Ou seja, ainda que não exista um manual de conduta oficial nesse universo de pessoas ávidas por se dar bem, a máxima implícita parece ser: “O mundo pertence aos espertos”, mesmo que, para isso, seja necessário atropelar os “normais”.
Sobre dignidade e honra, há um episódio fascinante registrado na história da Civilização Inca. Como sabemos, esse povo não conhecia a escrita e tampouco recebeu influência de educação formal ou técnica. Seus ensinamentos se apoiavam na fé em seus deuses, na observação das leis da natureza e no respeito às tradições. Ainda assim, a honra era o alicerce daquela civilização. Antes das guerras, realizavam rituais e firmavam regras entre os envolvidos — e essas normas eram rigorosamente cumpridas.
Em um desses episódios, um embaixador espanhol, em diálogo com um líder Inca, confessou que atacavam sem respeitar a cultura e as tradições daquele povo. Em seguida, aconselhou o líder a fazer o mesmo: adotar estratégias de espreita, emboscadas, ataques pela retaguarda e outros métodos de surpresa. O líder Inca respondeu:
“Eu quero esta terra para andar em pé sobre ela. Se for para conquistá-la rastejando sob ela, então não me interessa.”
A lição ecoa até hoje: esperteza sem honra pode trazer conquistas aparentes, mas destrói a dignidade. Uma sociedade que perde seu código de honra pode até avançar, mas já não caminha em pé.

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