POLÍTICA
Em entrevista exclusiva, prefeito de Feijó revela tudo, inclusive a instalação da maior fábrica de Açaí do Brasil

Jorge Natal, especial para o AcreNews
O município de Feijó, conhecido como “Terra do Açaí”, foi fundado em 21 de dezembro de 1938. Sua história é marcada pela ocupação de imigrantes nordestinos no final do século XIX, atraídos pelo ciclo da borracha. Localizado no centro do Estado e distante 360 quilômetros da capital, possui a maior extensão territorial entre os municípios acreanos e também possui a maior população indígena.
A cidade está localizada na margem esquerda do Rio Envira, que é o principal meio de escoamento da produção familiar rural. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população atual é de cerca de 38.000 mil habitantes, sendo metade na rural.
A economia do município gira em torno da administração pública, mas a agropecuária vem crescendo e se tornando parte significativa do desenvolvimento da região, com a criação de bovinos às margens da rodovia 364 e nos ramais. Todos os anos, em agosto, é realizado na cidade o Festival do Açaí, que mobiliza todo o estado e movimenta a economia.
Essa localidade, de paisagem exuberante e gente hospitaleira, é administrada pelo prefeito Railson Ferreira da Silva (Republicanos), de 42 anos. Delegado de polícia licenciado, filho de agricultores e nascido na terrinha, não está só integrado à comunidade, como também profundamente identificado com a sua gente.
O alcaide, que estreou na política partidária nas últimas eleições, venceu três concorrentes e obteve 50% dos votos válidos. Herdou uma prefeitura sucateada, inoperante e endividada. “Temos muitos desafios e, apesar do pequeno tempo, já mostramos a que viemos”, declarou Ferreira, que está numa cruzada para desenvolver o município.
Em sua casa, ele nos concedeu esta entrevista:
Acre News – Conte-nos um pouco da sua história e de sua trajetória política.
Railson Ferreira – Eu nasci no Seringal Bom Jardim e alguns anos depois viemos para a cidade. Os meus pais compraram uma colônia e passamos a viver dela. Com 14 anos, comecei a trabalhar e aos 16 fui caixa de um supermercado. Aos 17 passei em dois concursos públicos: um para policial militar e o outro para professor. Optei pelo segundo e fiquei seis anos e meio no magistério. Aos 24 anos fui para Rio Branco para ser policial civil e fiquei no órgão por oito anos e meio. Depois conclui a faculdade de Direito em 2012, passei na OAB e me tornei analista no Tribunal de Justiça, onde trabalhei seis anos e meio. Em 2017 fui classificado num concurso para delegado e em 2020 tomei posse aqui em Feijó.
Acre News – Como e em que circunstâncias o senhor entrou para a vida pública?
Railson Ferreira – Ao longo da vida, a gente aprende que tem que fazer bem ao próximo. Financeiramente não é bom para mim. Em novembro, irei perder R$ 11 mil. Dificilmente eu vejo um familiar e não tenho vida social. Mas acredito que viemos a este mundo para fazer o bem. Na verdade, nunca pensei em fazer parte da política, mesmo porque eu vim para ser policial e, dois anos depois, ir embora para Brasiléia, que era a cidade da minha próxima lotação. As pessoas começaram a citar o meu nome como candidato e isso tomou corpo, ao ponto que decidi ficar no município. Eu posso afirmar que foi a população que pediu para eu ser candidato.
Acre News – O que o senhor disse e o que fez para conquistar a confiança e o voto da população?
Railson Ferreira – Eu contei a minha história e pedi para as pessoas confiarem em mim. Por onde eu passei, sempre entreguei o máximo possível.
Acre News – O senhor tomou posse em 1º de janeiro de 2025. Como encontrou a prefeitura naquele momento?
Railson Ferreira – Eu nunca tinha sido gestor antes. É um mundo novo e um desafio enorme. Temos que ouvir as pessoas e, a partir disso, definir políticas públicas para todos os setores. Além de respeitar as leis, temos que dialogar como a sociedade e os atores da vida pública. O nosso maior problema era estruturar a prefeitura. No primeiro trimestre do ano passado, ficamos sem R$ 8 milhões em razão do não pagamento do INSS, do FGTS, além do pagamento de um empréstimo consignado de dezembro do ano anterior. Por causa disso, houve um bloqueio de R$ 5 milhões pela Receita Federal e tivemos que tirar 3 R$ milhões para pagar esse empréstimo, que foi descontado do servidor. Isso nos causou um enorme prejuízo e inúmeros transtornos. Além disso, tínhamos dívidas com fornecedores e precatórios. A arrecadação municipal é pequena e vivemos de repasses constitucionais. Alguns tipos de emendas e convênios a prefeitura ainda não pode firmar. A prefeitura estava desestruturada e falida. Estamos formando os servidores para que eles entreguem o máximo possível em suas áreas. Também herdamos uma estrutura física sucateada e sem condições de funcionamento, principalmente pela ausência de equipamentos e os prédios que mais pareciam escombros. Só para exemplificar: pegamos a prefeitura com apenas um trator quebrado e nos postos de saúde sequer existiam cadeiras. Em um deles, servidores e usuários conviviam com ratos. Herdamos, também, a zona rural com 22 pontes completamente destruídas. Como evitar o isolamento dessas pessoas sem orçamento e sem parcerias? Mesmo assim, garantimos o direito de ir e vir da população. O nosso maior desafio está sendo estruturar o corpo de servidores e a estruturar fisicamente os órgãos.
Acre News – Passados um ano e quatro meses de gestão, o que mais o orgulha?
Railson Ferreira – Eu tenho orgulho da minha história. Não existe corrupção nem favorecimentos na prefeitura. Aqui nunca houve busca e apreensão, tampouco criamos dificuldades para os órgãos de controle fiscalizarem. Eu acordo às 4 horas e começo a atender as pessoas a partir das 5 horas. Constantemente eu busco recursos em Brasília. Do momento em que acordo até ir dormir, eu só tenho um propósito: melhorar a vida da nossa gente.
Acre News – Quais são as principais realizações da administração?
Railson Ferreira – Hoje o nosso principal problema é estrutural, ou seja, de ruas. Mas voltemos à pergunta. Na educação fomos reconhecidos como o número 1 do Acre em alfabetização. Recebemos um prêmio dado pelo governo federal. Também estamos concorrendo, com chances de ganhar, ao prêmio Paulo Freire. As nossas crianças da zona rural têm acesso à educação, inclusive nas aldeias. Também implementamos o EJA na zona rural. Ainda no campo, até o final do ano, vamos revitalizar, ampliar, reformar ou construir praticamente todas as escolas. Estamos construindo a primeira creche do município e adaptamos uma escola para funcionar em tempo integral. Estamos construindo outra escola para, também, funcionar em tempo integral. Gastamos cerca de R$ 2,5 milhões com móveis, equipamentos e outros itens para deixar as escolas em pleno funcionamento. Também estamos investindo na formação dos professores e na equipe técnica. Melhoramos, como nunca, os salários de todos os trabalhadores da educação. Na saúde, hoje, disponibilizamos remédios que nem é obrigação nossa, ou seja, gastamos cerca de R$ 400 mil mensais. Não temos mais fila de ultrassonografia e nunca tivemos fila de eletrocardiograma. Disponibilizamos ainda quatro salas de telessaúde. E aquilo que é o nosso maior orgulho: a regularização da balsa-hospitalar. Além disso, contratamos sete médicos, que se somam aos nove do programa Mais Médicos. A gente realiza o programa Saúde Itinerante na zona rural, mas sem tirar um único médico da cidade. Eu contrato esses profissionais para fazerem esse atendimento remoto. Ah, estamos construindo 94 casas populares e gastamos R$ 80 mil mensais com o TFD, que é obrigação do governo do Estado.
Acre News – Além de ajudar a regularizar as associações e executar o programa Saúde Itinerante, o que mais a gestão fez pelos agricultores?
Railson Ferreira – Hoje disponibilizamos o atendimento do Incra dentro da prefeitura. Embora seja uma autarquia federal, funciona com a nossa estrutura. Através desse serviço, fizemos um convênio em que mulheres agricultoras ganharam 8 R$ mil, num programa chamado Fomento Mulher. Já fizemos mais de 200 açudes que, além de aumentar a renda das famílias, contribuem com a segurança alimentar. Estamos construindo um viveiro de alevinos. Adquirimos 12 máquinas e estamos esperando mais 10. Este ano iremos começar a aradagem. Estamos entregando 1 milhão de alevinos e fizemos duas feiras do peixe. Através do programa Minha Casa Minha Vida, conseguimos o recurso para a construção de 50 casas populares. No ano passado, abrimos mais de dois mil quilômetros de ramais.
Acre News – O senhor sempre destaca os serviços de drenagem. Por quê?
Railson Ferreira – Nenhum prefeito se atreveu a mexer com a drenagem. O nosso inverno é rigoroso e, no ano passado, tivemos apenas 50 dias de verão. Se não fizermos esse serviço de forma correta, todo a pavimentação desmancha em poucos dias, uma vez que o nosso solo é mole, ou seja, aqui predomina a tabatinga. Tínhamos vários pontos da cidade que inundavam com as chuvas. A gente consertou a orla do hospital e beneficiamos dois bairros, que alagavam e causavam transtornos e prejuízos. Foi um investimento de quase R$ 1 milhão. Também drenamos o bairro Pedro Dourado, a rua 21 de Dezembro, a Ambrósio Taveira e o Beco do Bahia, no bairro Bela Vista. Tivemos que trocar as manilhas de praticamente toda a cidade. Também fizemos intervenções em uma rua no Nair Araújo, bem como iremos resolver todo o Segundo Distrito. Vai restar apenas o bairro Genir Nunes, que é um dos piores quando o assunto é drenagem.
Acre News – Por que existem tantos buracos na cidade?
Railson Ferreira – Para começar, não existia drenagem. Segundo, porque o nosso inverno é muito rigoroso e terceiro porque faltam recursos. Não existe dinheiro para fazer esse investimento, ou seja, só podemos intervir com recursos de emendas parlamentares ou convênios com o governo estadual. Este último não acontece porque eu não integro o grupo político que está à frente do Palácio Rio Banco. Estamos com R$ 25 milhões para a execução de drenagem e pavimentação.
Acre News – O que o senhor pretende fazer para gerar emprego e renda?
Railson Ferreira – Só teremos uma transformação econômica e social com a consolidação do agronegócio, que é o principal impulsionador do progresso em nossa região. Temos produtos vocacionais de alta aceitação no mercado. Precisamos melhorar essas cadeias, garantir a infraestrutura adequada e industrializar esses produtos. Ainda neste ano, iremos instalar uma fábrica de beneficiamento de açaí. É um investimento de mais de R$ 19 milhões e será a maior agroindústria da Região Norte. Financiada pelo governo federal, será administrada por uma cooperativa, com apoio de vários parceiros, entre os quais o Sebrae e o governo estadual.





















