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POLÍCIA

Caso Elyne expõe limites da proteção às mulheres e coloca instituições do Acre diante de uma cobrança por respostas

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A médica Elyne de Assis Nogueira tinha 39 anos, havia registrado pelo menos dois boletins de ocorrência, possuía medida protetiva de urgência e contava com um mecanismo eletrônico de segurança. Mesmo assim, foi assassinada a tiros na noite de 2 de novembro, em Brasileia. O crime, investigado como possível feminicídio, ultrapassou a esfera policial e abriu uma discussão sobre a capacidade das instituições de proteger mulheres ameaçadas, a atuação do sistema de Justiça e a responsabilidade de agentes públicos diante de situações de risco conhecidas.
O caso ganhou uma dimensão institucional ainda maior porque o ex-companheiro da médica, Francisco Valadares Neto, investigado como possível mandante do assassinato, é advogado e procurador efetivo do município de Brasileia. Em 3 de novembro, a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Acre, determinou sua suspensão cautelar do exercício profissional por até 90 dias. A Prefeitura de Brasileia também confirmou que ele já estava afastado das funções e anunciou providências administrativas.
O assassinato ocorreu em um estabelecimento comercial de Brasileia, onde Elyne estava acompanhada de amigos. Um homem armado se aproximou, efetuou disparos e fugiu. A Polícia Civil identificou o suspeito de executar o crime e passou a investigar a possibilidade de que o ataque tenha sido planejado por uma terceira pessoa, com eventual participação do ex-companheiro da vítima.
Mas os acontecimentos anteriores à morte da médica são fundamentais para compreender a repercussão do caso.
Segundo informações prestadas pelo delegado Erick Maciel ao jornal A Gazeta do Acre, Elyne registrou um boletim de ocorrência em 25 de agosto de 2026. Em 11 de setembro, voltou a procurar as autoridades para denunciar novas ameaças e o descumprimento de uma ordem judicial de afastamento.
O Ministério Público do Acre confirmou ao mesmo veículo que havia solicitado duas vezes à Justiça a prisão do ex-companheiro por descumprimento de medida protetiva. Conforme informações apresentadas pelo delegado-geral Pedro Paulo Buzolin durante reunião do governo estadual, os pedidos foram negados.
A sequência de acontecimentos coloca no centro do debate uma questão que vai além da existência de leis e instrumentos de segurança: como assegurar proteção efetiva quando uma mulher denuncia ameaças, obtém medidas judiciais e continua exposta ao risco?
A Lei Maria da Penha estabelece mecanismos de prevenção e proteção às vítimas de violência doméstica e familiar. Entre eles estão medidas de afastamento, restrições de contato e outras providências destinadas a impedir a continuidade das agressões. A legislação também permite a prisão preventiva do investigado nas hipóteses legais, inclusive para garantir a execução das medidas protetivas.
A existência dessas ferramentas, entretanto, não significa que qualquer ameaça resulte automaticamente em prisão. Cada decisão depende de requisitos legais e da avaliação judicial dos elementos apresentados. No caso de Elyne, a apuração das circunstâncias que antecederam o assassinato exige examinar o histórico das denúncias, o conteúdo dos pedidos do Ministério Público, os fundamentos das decisões judiciais e as providências efetivamente adotadas pelos órgãos responsáveis.
Até o momento, os elementos divulgados publicamente não permitem atribuir a uma instituição específica a responsabilidade pelo desfecho. Permitem, porém, identificar uma sequência de alertas anteriores ao crime que precisa ser esclarecida.
O funcionamento do chamado botão do pânico também passou a integrar esse debate. A Polícia Militar explicou que o dispositivo vinculado à tornozeleira eletrônica emite alertas automáticos quando o monitorado ultrapassa o perímetro de segurança estabelecido. Esses avisos são encaminhados à Polícia Penal e ao celular da mulher protegida.
O sistema é diferente do aplicativo Mulher Segura, por meio do qual a vítima pode solicitar diretamente atendimento ao Centro de Operações da Polícia Militar.
No caso da médica, a PM informou que não houve chamada pelo telefone 190. Já o secretário estadual de Segurança Pública, Américo Gaia, relatou que o monitoramento identificou movimentações do ex-companheiro nas proximidades da vítima e que houve contatos realizados pelas equipes de segurança.
As informações divulgadas ainda não esclarecem integralmente a sequência dos alertas, os horários de acionamento, o tempo de resposta e a relação entre os deslocamentos monitorados e a execução do crime.
A OAB Acre também manifestou interesse em obter esclarecimentos sobre esses mecanismos, reconhecendo a necessidade de apurar o funcionamento da rede de proteção sem antecipar conclusões sobre eventuais responsabilidades.
O peso institucional do caso
A participação de um integrante de carreira jurídica entre os investigados acrescentou outra dimensão ao episódio. Francisco Valadares Neto ocupa cargo efetivo de procurador municipal e possui inscrição profissional na OAB Acre.
A Prefeitura de Brasileia informou, em nota oficial de 3 de novembro, que o servidor já se encontrava afastado por licenças e férias concedidas anteriormente ao assassinato. Segundo a administração, ele também estava suspenso de suas atividades como procurador, com redistribuição dos processos sob sua responsabilidade ao procurador-geral do município.
A prefeitura anunciou que encaminharia ofícios à Polícia Civil, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário, solicitando informações para avaliar providências administrativas antes de eventual retorno do servidor às atividades.
A manifestação foi assinada pelo prefeito Carlinhos do Pelado e pelo vice-prefeito Amaral do Gelo. A administração afirmou que o exercício de cargo público não pode servir de proteção a pessoas envolvidas em violência contra mulheres, mas ressaltou a necessidade de observar o devido processo legal e a presunção de inocência.
No âmbito profissional, a OAB Acre adotou uma medida imediata. A vice-presidente Thaís Moura, no exercício da presidência da seccional, assinou a suspensão cautelar de Francisco Valadares Neto pelo prazo máximo inicial de 90 dias, sujeita a revogação, substituição ou deliberação do órgão competente.
A decisão será submetida ao referendo do Conselho Seccional, e o expediente encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina para avaliação de eventuais procedimentos.
A Ordem esclareceu que a suspensão não representa condenação criminal, exclusão definitiva da advocacia ou reconhecimento antecipado de culpa. Trata-se de providência preventiva adotada diante da gravidade das informações sob investigação.
A distinção é importante porque as responsabilidades criminal, administrativa e ético-disciplinar seguem procedimentos próprios. Uma investigação policial pode produzir elementos para a atuação do Ministério Público, enquanto o município e a OAB examinam, dentro de suas competências, eventuais consequências funcionais e profissionais.
O caso também trouxe à discussão o histórico de violência atribuído ao investigado. Esse antecedente judicial, embora relacionado a outro episódio, amplia o interesse público sobre o histórico de denúncias e a atuação das instituições encarregadas de prevenir a reincidência da violência doméstica.
A resposta do governo e os desafios da prevenção
A repercussão do assassinato levou a governadora Mailza Assis a convocar, na noite de 3 de novembro, uma reunião com a cúpula da Segurança Pública estadual, em Rio Branco. O encontro reuniu representantes da Polícia Militar, Polícia Civil, administração penitenciária, sistema socioeducativo, Secretaria da Mulher e outros órgãos do governo.
Durante a reunião, Mailza anunciou a orientação de tolerância zero ao feminicídio e cobrou integração entre as instituições responsáveis pela prevenção, proteção e investigação.
O secretário de Segurança Pública, Américo Gaia, apresentou um esboço do Plano Estadual de Gestão Integrada de Enfrentamento ao Feminicídio, que prevê a participação de 22 instituições, organizadas em seis eixos de atuação e cinco comitês regionais.
Uma das metas é ampliar a presença da Patrulha Maria da Penha nos 22 municípios acreanos. O plano também contempla identificação precoce de situações de risco, acompanhamento das vítimas e articulação entre segurança, saúde, educação, assistência social e Justiça.
A iniciativa, ainda em elaboração, surge em um momento no qual o próprio funcionamento da rede de proteção passou a ser questionado em razão do assassinato de Elyne.
A secretária da Mulher, Simone Santiago, afirmou que o caso demonstra a necessidade de avaliar continuamente os mecanismos existentes e fortalecer a articulação entre os órgãos responsáveis pelo atendimento.
A dimensão civil e social da tragédia também aparece na trajetória da vítima. Elyne trabalhava na Unidade de Saúde Dr. Ricardo Barbosa da Silva, em Brasileia, onde prestava atendimento à população. Após o assassinato, a prefeitura suspendeu provisoriamente os atendimentos municipais em sua homenagem e anunciou apoio psicológico aos profissionais da unidade.
A morte da médica deixou, portanto, consequências que alcançam sua família, seus colegas de trabalho, os pacientes atendidos na rede pública e as instituições encarregadas de garantir proteção às mulheres.
No campo judicial, a Polícia Civil e o Ministério Público apresentaram novo pedido de prisão preventiva de Francisco Valadares Neto após o assassinato. Conforme informações divulgadas em 3 de novembro, a investigação também requisitou os registros de monitoramento da tornozeleira eletrônica utilizada pelo advogado, considerados relevantes para reconstituir seus deslocamentos.
O primeiro pedido anterior de prisão teria sido apresentado em 25 de agosto, quando Elyne preencheu o Formulário Nacional de Avaliação de Risco, instrumento destinado a identificar fatores de risco em situações de violência doméstica. O segundo teria ocorrido em 15 de outubro, diante de relatos de descumprimento das restrições e agravamento das ameaças, segundo informações publicadas pelo portal O Acre.
Até as informações disponíveis nesta apuração, não havia confirmação de deferimento do novo pedido de prisão, nem conclusão policial sobre a autoria intelectual do assassinato.
A situação de Francisco Valadares Neto também permanecia sob acompanhamento médico. Encontrado desacordado em sua residência na manhã de terça-feira, ele foi inicialmente atendido em Brasileia e transferido para o pronto-socorro de Rio Branco naquela tarde, segundo informações da Secretaria de Saúde divulgadas por A Gazeta do Acre. Não havia boletim posterior confirmado sobre sua evolução clínica.
O caso de Elyne reúne, assim, diferentes frentes de apuração: a identificação e responsabilização dos autores do assassinato, o exame das decisões judiciais anteriores, a reconstrução dos alertas de segurança, a avaliação da conduta funcional do servidor investigado e a análise ético-disciplinar pela OAB.
Na esfera criminal, a investigação permanece em andamento, com a hipótese de feminicídio e possível participação de um executor contratado. Na esfera administrativa, a Prefeitura de Brasileia aguarda informações oficiais para avaliar medidas relacionadas ao procurador. Na esfera profissional, a OAB deverá submeter a suspensão cautelar ao Conselho Seccional e encaminhar o caso ao Tribunal de Ética e Disciplina.

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