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Coordenador do Grupo de Integração Regional Acre-Ucayali, professor de inglês estreia coluna dominical no AcreNews

Quando a exceção parece regra
Francimar Cavalcante
Vivemos um tempo em que o erro ganhou holofotes próprios. Ele não apenas acontece — ele é ampliado, repetido, compartilhado e, muitas vezes, transformado em sentença coletiva. Parece que desenvolvemos uma habilidade peculiar: quando alguém falha, rapidamente ampliamos o alcance da falha para todos os que se parecem com ele.
No Brasil, existem aproximadamente 430 mil policiais militares distribuídos pelos estados da federação. São homens e mulheres que vestem a farda todos os dias, enfrentam riscos reais e lidam com conflitos que a maioria de nós sequer imagina. Mas basta que um único policial cometa um erro — grave ou não — e, subitamente, a manchete já não fala de um indivíduo. Fala “da polícia”. Como se centenas de milhares de trajetórias, histórias e condutas fossem anuladas por um único desvio.
O mesmo fenômeno se repete na esfera religiosa. O Brasil abriga cerca de 65 a 70 milhões de evangélicos, segundo estimativas baseadas em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É uma parcela expressiva da população, composta por pessoas das mais diversas origens sociais, culturais e intelectuais. Contudo, quando um líder religioso se envolve em escândalo, quando um fiel comete um ato reprovável, rapidamente a generalização aparece: “os evangélicos”. A exceção passa a ocupar o espaço da regra.
Em escala global, o padrão se torna ainda mais evidente. O mundo possui cerca de 1,9 bilhão de muçulmanos, seguidores do Islam. É uma das maiores comunidades religiosas do planeta, formada majoritariamente por famílias comuns, trabalhadores, estudantes, pais e mães que vivem suas rotinas de forma pacífica. No entanto, atos de extremismo praticados por grupos específicos acabam projetando sobre todos uma imagem distorcida. O rótulo coletivo surge com rapidez desconcertante, como se bilhões compartilhassem automaticamente da conduta de poucos.
Há uma tendência humana em focar no desvio porque o desvio chama atenção. O que funciona corretamente é silencioso; o que falha, ecoa. Um plantão policial cumprido com ética não vira manchete. Uma vida de fé vivida com coerência não viraliza. Um cotidiano de convivência pacífica entre culturas e religiões não gera cliques.
Talvez o exercício que nos falte seja estatístico e moral ao mesmo tempo: aprender a distinguir exceção de padrão. Em qualquer grupo numeroso, haverá erros — porque haverá humanidade. Mas transformar o erro individual em identidade coletiva é uma forma sutil de injustiça.
Se ajustarmos o foco, perceberemos que a regra costuma ser muito mais ampla, silenciosa e digna do que a exceção barulhenta. E talvez, ao deslocar o olhar do escândalo para a constância, descubramos que o mundo é menos definido pelos que falham e mais sustentado pelos que, diariamente, fazem o certo sem plateia.
Francimar Cavalcante, licenciado em Letras Inglês, pela UFAC; pós-graduado no curso MBA em Estratégia de Mercado e Empreendedorismo, pela Fundação Getúlio Vargas – FVG; Coordenador do Grupo de Integração Regional Acre- Ucayali – GTIR; Ex-coordenador de Assuntos Internacionais e Relações Comerciais do Gabinete do Vice-governador do Acre e palestrante; Membro efetivo da Câmara Técnica de Comercio Exterior; Atualmente chefe do departamento de Relações Interinstitucional da Secretaria de Planejamento do Estado do Acre.











