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CULTURA & ENTRETENIMENTO

Padaria do Nonato completa 60 anos preservando tradição familiar e o sabor da panificação artesanal

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Fundada em 1966 por Raimundo Gouveia, tradicional estabelecimento de Rio Branco mantém receita de pão, forno a lenha e atendimento que atravessam gerações

A história da Padaria do Nonato, localizada historicamente no bairro Cerâmica, se mistura com o passado de dezenas de gerações de Rio Branco.  Fundada em 1966 por Raimundo Gouveia, o estabelecimento chega aos 60 anos de funcionamento mantendo tradições que começaram ainda nos primeiros anos de atividade, como a produção manual dos pães e o uso de forno a lenha.

Para celebrar as seis décadas de história, a família realiza neste sábado (12), a partir das 9h, uma programação comemorativa na própria padaria. O encontro terá um coquetel em homenagem aos 60 anos do estabelecimento e reunirá familiares, clientes e pessoas que fazem parte dessa trajetória.

Filho do fundador, Rezende Gouveia conta que a história da padaria começou antes mesmo da construção do primeiro estabelecimento. Ainda jovem, Raimundo deixou Sena Madureira em busca de trabalho e passou a atuar em diferentes padarias de Rio Branco, entre elas as de Albino Casas, conhecido como Bino, seu Armando e seu Jesus Laureano.

Enquanto trabalhava, Raimundo guardava parte do dinheiro que recebia com o objetivo de abrir o próprio negócio. Foi assim que conseguiu comprar o terreno onde a padaria funciona até hoje. O local, segundo Rezende, era inicialmente abandonado e utilizado como depósito de lixo. “O meu pai mesmo assim comprou o terreno, porque ele sabia que ali era oportunidade dele montar o negócio dele.”

No início, a estrutura era simples. Raimundo construiu um pequeno barraco e um forno de barro para começar a produção. Na época, já era casado e tinha o primeiro filho. Rezende ainda estava na barriga da mãe e nasceu no mesmo ano em que a padaria começou a funcionar. “Eu praticamente, a minha idade é a idade da padaria”, brinca Rezende, ao lembrar que, segundo a mãe, foi justamente durante sua gestação que a família começou a trabalhar efetivamente no empreendimento.

O primeiro produto produzido por Raimundo foi o pão doce, que era preparado e entregue pessoalmente aos clientes. Com uma cesta, o fundador percorria diferentes pontos da cidade para vender os produtos. Aos poucos, o negócio cresceu e, durante a década de 1970, ganhou uma estrutura maior.

Um dos símbolos dessa trajetória permanece até hoje: um grande forno a lenha instalado em 1974. Segundo Rezende, os produtos da padaria continuam sendo assados no equipamento, preservando uma forma de produção que remonta aos primeiros anos do estabelecimento.

Tradição que atravessa gerações

A continuidade da padaria também foi marcada por momentos difíceis. No final da década de 1970, Raimundo se separou e passou a cuidar sozinho dos cinco filhos enquanto administrava o negócio. Para Rezende, esse período demonstra a capacidade de superação do pai, que conseguiu manter a família e, ao mesmo tempo, fazer a padaria prosperar.

Após a morte de Raimundo, em 2015, os filhos assumiram a responsabilidade de manter o empreendimento e preservar o legado construído pelo pai ao longo de quase cinco décadas. “Depois que ele faleceu, a gente fica com essa tarefa de manter isso aqui. São 60 anos, não é 60 dias, não é seis anos”, destaca Rezende.

A relação construída com os clientes também é considerada parte importante desse legado. Muitos frequentadores conheceram Raimundo e continuam indo ao estabelecimento, enquanto filhos e netos de antigos clientes também passaram a fazer parte da clientela.

Rezende lembra que o pai gostava de permanecer na padaria, conversar com as pessoas e receber os clientes. Esse ambiente de proximidade continua sendo incentivado pela família. “Quem vem para cá, a gente procura passar esse acolhimento que ele construiu quando era vivo”, afirma. Aos sábados, segundo Rezende, a padaria também se transforma em um ponto de encontro, onde clientes se reúnem para tomar café e conversar.

O mesmo pão de 1966

Entre os elementos que a família busca preservar está a maneira tradicional de produzir o pão. A padaria abre as portas diariamente às 4h da manhã e mantém uma produção que respeita o tempo de fermentação da massa.

Segundo Rezende, o pão é produzido de forma semelhante à utilizada por Raimundo desde 1966, com poucos ingredientes e sem aditivos químicos além do fermento e do melhorador de massa.“É um pão que respeita o tempo da massa, é um pão que é fabricado da mesma forma que meu pai fabricava lá em 66.”

Ao mesmo tempo em que preserva os métodos tradicionais, a família busca modernizar o negócio e ampliar a presença da padaria entre as novas gerações. Para isso, passou a contar com apoio do Sebrae e de uma empresa de marketing, com o objetivo de dar maior visibilidade à marca e alcançar pessoas que ainda não conhecem a história do estabelecimento.

“O sol nasce para todos”

Rezende também guarda na memória um episódio que, para ele, resume a personalidade do pai. Na década de 1990, o bairro onde a padaria está localizada ainda tinha diversas panificadoras. Amigos de Raimundo brincavam que a concorrência faria com que o estabelecimento fechasse.

A resposta do fundador, porém, era simples: “O sol nasce para todos.”

Com o passar dos anos, as outras padarias deixaram de funcionar e a Padaria do Nonato permaneceu.Para Rezende, a frase representa a resiliência do pai e a confiança que ele tinha no próprio trabalho.“Ele tinha uma força de resiliência muito forte. Ele era um homem que não tinha muitos recursos intelectuais, mas tinha um amor, uma força interior muito grande”, recorda.

Agora, seis décadas depois, a família pretende manter essa mesma força para os próximos anos. A proposta é preservar a memória de Raimundo Gouveia, continuar oferecendo os produtos que conquistaram gerações e, ao mesmo tempo, preparar a Padaria do Nonato para o futuro. (Texto: Eloísa Alves. Fotos: Cedidas)

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