Gabriel Rasteli
Em sua coluna, Gabriel Rasteli reflete sobre “o direito de errar” nesta terça-feira, 8

O direito de errar
Há quem diga que o mundo não é movido por respostas, mas sim pelos questionamentos. E isso nos traz uma reflexão: quantas vezes vamos errar até conseguirmos acertar?
A resposta certa com certeza é o motivo pelo qual nos debruçamos. Mas até alcançá-la existe um caminho, o caminho do aprendizado.
E todos nós estamos nele. Vivendo e aprendendo. Errando e acertando. Às vezes errando mais do que acertando. Até chegarmos aqui, onde os erros não são mais permitidos ou tidos como naturais.
Vivemos em uma sociedade onde um simples erro é motivo para ser exposto, escrachado, ridicularizado. A tolerância é mínima (para não dizer que na maioria dos casos é inexistente).
Não estamos apenas perdendo o direito de errar; a liberdade de mudar de opinião também está se esvaindo. Hoje em dia parece que a opinião está atrelada intrinsecamente com a nossa identidade, ou seja, nos tempos atuais, assumir um erro e mudar de opinião é a mesma coisa que assumir uma derrota, é como colocar um crachá de “perdedor”.
No entanto, mudar de opinião quando percebemos que estávamos errados é uma demonstração de amadurecimento. Crescer é isso, é perceber que quando éramos meninos agíamos como meninos, e hoje, com o crescimento e amadurecimento, agimos como adultos, fazemos e falamos como adultos. Não é cabível para um adulto agir de modo infantil, embora não seja raro de acontecer.
Fato é que ninguém sabe de tudo, errar é humano, mas parece que a gente se esqueceu disso. A mudança de opinião, de comportamento tornou-se uma fraqueza. Quando na verdade reconhecer que errou requer humildade e coragem para assumir suas consequências.
Deveríamos nos envergonhar de permanecermos presos a uma mesma ideia mesmo quando ela se prova errada, infrutífera. Isso sim é uma derrota. Quando a inteligência e a razão se dobram perante o orgulho e a insensatez.
Problematizamos demais quando transformamos nossas opiniões e ideias em verdadeiras trincheiras, zonas de combate. E é nesse lugar que a cultura do cancelamento encontrou morada para se estabelecer.
E assim as correções passaram a ser cancelamentos. A responsabilização se transformou em vingança. Qualquer erro mínimo deve ser punido com a maior rigidez. E a correção que antes tinha o intuito de ensinar, de trazer um aprendizado, passou a ter uma nova roupagem, a punição como um fim em si mesmo.
E foi assim que fomos minando o espaço para o arrependimento e para uma mudança real. O ambiente público tornou-se um espaço onde não cabe mais uma retratação, uma errata. Parece que não há mais como reparar, o espaço foi tomado pelo cancelamento.
Porém, isso traz uma consequência terrível: incentiva as pessoas a esconderem seus erros. Assim, fazendo o possível e o impossível para não serem descobertas ou expostas. Quando na verdade, errar é parte do caminho do aprendizado. Se não há espaço para cair, não há meios de se levantar.
Quando crianças, aprendendo a andar, caíamos e levantávamos. E isso se repetiu por muito tempo até aprendermos a caminhar. E um dia, por termos aprendido com os erros e ganhado confiança, começamos a correr. Por que esquecemos disso quando crescemos?
Aprendemos porque tentamos. Tentamos porque não sabemos. E, muitas vezes, erramos porque estamos justamente no caminho de descobrir como fazer melhor.
É preciso ter o direito de tentar, de errar, de aprender com os erros, de recuperar o tempo perdido, de fazer de novo, de ter uma nova oportunidade. É preciso responsabilizar sem humilhar, corrigir sem destruir. É preciso ser humano.
É preciso saber viver.









