Gabriel Rasteli
Na coluna desta segunda (24), Gabriel Rasteli analisa o cenário de estar ‘preso na bolha’

Um lugar onde todos têm voz, todavia, poucos são os que querem ouvir.
É difícil dialogar onde há falta de empatia e o respeito não é via de regra. Imagina estar em uma sala onde todos querem falar, mas não estão dispostos a escutar.
Pois é, esse tem sido o ambiente digital, a maior sala de estar do mundo, a internet. As redes sociais desempenham um papel fundamental nesse fenômeno digital.
Isto porque elas são guiadas por uma métrica simples – o algoritmo – mas que tem gerado consequências para lá de ruins em nossa sociedade.
O papel do algoritmo é justamente proporcionar uma experiência para o usuário onde ele se mantenha logado o maior tempo possível, mantendo o user sempre atento ao conteúdo, gerando engajamento.
Cumprindo aquele célebre ditado onde “não tem almoço grátis”, nenhuma rede social é gratuita, afinal elas requerem de nós o que há de mais valioso, a moeda mais cara que existe, o tempo.
E sabe quais são os conteúdos que mais nos amarram na frente das telas? Vídeos ou postagens que venham validar as nossas crenças ou aquilo que provoca em nós um senso de indignação. São temáticas que atraem a nossa atenção física e psicológica.
Assim, acabamos caindo na cultura das bolhas, onde o algoritmo nos entrega os conteúdos com base naquilo que curtimos, postamos, passamos tempo interagindo. Por exemplo, o algoritmo consegue definir se você gostou de certo vídeo ou postagem com base no tempo de tela que você interagiu com aquele conteúdo apresentado.
Desta forma começamos a consumir apenas aquilo que temos costume de interagir, haja visto que a plataforma (rede social) já identificou o que atrai a nossa atenção. O problema é que isso se torna um círculo vicioso já que a rede social passa a nos entregar mais do mesmo, passando a omitir a diversidade que nela existe.
Há uma outra característica da rede social que nos faz ficar preso nessas bolhas, a chamada Câmara de Eco. Deixe-me explicar: é quando ficamos longe do contraditório, permanecendo apenas na nossa bolha, onde estamos ouvindo o eco daquilo que dizemos. O lugar onde todos pensam os mesmos ideais e pensar diferente torna-se um delírio, uma verdadeira loucura.
Gerando assim uma cultura de afeto aos que pensam da mesma forma, e claro, total repúdio para quem pensa diferente. Logo, não há mais uma opinião divergente. Longe disso. A opinião que diverge passa a ser tomada como uma ameaça, algo a ser destruído, eliminado a qualquer custo.
É por isso que a polarização, fenômeno que já se tornou evidente em nossa sociedade, tem se consolidado ainda mais com o passar do tempo. Porque poucos são os que rompem a bolha, estão dispostos a ouvir o outro lado.
Em que mundo estamos vivendo? Esse é o lugar que queremos para os nossos filhos? Essas perguntas me recordam os versos da banda Charlie Brown Jr na música Longe de Você: “Que mundo é esse que ninguém entende um sonho? Que mundo é esse que ninguém sabe mais amar?”
Será que desaprendemos a conviver ou esse comportamento é exclusivo das redes sociais? São perguntas que merecem respostas, no entanto, que sejam respondidas com respeito, com equilíbrio e humanidade.









