RAIMUNDO FERREIRA
A invenção do herói: Professor Raimundo analisa o legado de Dom Quixote nesta sexta (4)

DOM QUIXOTE: A INVENÇÃO DO HERÓI
Até mesmo quando travamos contato com os contos de fada e com as alegorias mitológicas, obrigatoriamente precisamos fazer um retrospecto e uma contextualização no tempo e no espaço. Com a clássica obra de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha, não deve ser diferente. Precisamos levar em conta a situação social e política da Espanha naquela época, pois tudo está intimamente ligado àquele contexto. No entanto, vamos tecer alguns comentários sobre essa obra, sem nos ater às qualificações do autor, apenas destacando um pouco da formação do personagem e de suas características.
Conforme sabemos, tudo naquela época, na Espanha, girava em torno da cavalaria. As aventuras de Dom Quixote têm início em um ato de loucura do personagem que, de tanto ler e reler histórias de cavalaria, começou a formular um mundo imaginário. Seguindo esse devaneio, decidiu procurar vivenciar as aventuras que estavam em sua imaginação.
Ele era um homem comum, que levava a vida caçando. Era, porém, um fidalgo que vivia das rendas de suas propriedades. Seu nome era Alonso Quijano, e a primeira providência para iniciar a caracterização de seu personagem foi mudar o próprio nome para Dom Quixote e, para situar sua origem, acrescentou “de La Mancha”. Pegou seu cavalo pangaré, utilizado no serviço diário, batizou-o de Rocinante, imaginando que era um belo cavalo branco, e ainda imaginou uma linda dama por quem se apaixonaria: Dulcineia. Esta, por sinal, de nobre não tinha nada, pois era uma cuidadora de porcos. Mas isso não importava: um cavaleiro que se preza precisa lutar para defender uma linda donzela.
A caminhada é iniciada e, ao chegar a um castelo, pediu a alguém que o consagrasse cavaleiro. Assim, em tom de chacota e brincadeira, a cerimônia foi realizada, e ele se deu por consagrado e satisfeito com a patente de cavaleiro.
Abreviando um pouco a história, depois de muitas aventuras e andanças, ele voltou para casa, mas ainda acometido pela mesma loucura. Dessa vez, entendeu que um autêntico cavaleiro precisava contar com o apoio de um escudeiro. Para concretizar essa ideia, convenceu seu vizinho, um lavrador e cidadão pacato, a acompanhá-lo nessa aventura, prometendo que iria recompensá-lo, conseguindo uma ilha para que ele se tornasse governador. Diante dessa promessa, Sancho Pança resolveu acompanhá-lo.
Essa obra, que é, na verdade, uma comédia da melhor qualidade, apresenta, na visão do personagem Dom Quixote de La Mancha, uma fantasia em todas as coisas. Mas essa fantasia não está relacionada a enxergar o lado ruim da vida; ao contrário, trata-se de uma maneira de ver o lado bom, ainda que de forma jocosa. Ou seja, é uma forma de humor que nos faz rir porque nos coloca dentro de situações que, no fundo, são engraçadas.
Isso é diferente do humor da atualidade, que muitas vezes explora o lado trágico da vida para provocar risos. Por exemplo, os meios de comunicação mostram situações em que as pessoas sofrem e, às vezes, até se machucam gravemente, apresentando esses acontecimentos como se fossem situações cômicas.
No caso de Dom Quixote de La Mancha, em seu espírito aventureiro, o personagem demonstra boa vontade, mas é ridicularizado. Ele está fora de seu tempo, mas, para ele, isso não faz diferença. É justamente essa visão que a obra transmite, demonstrando situações de bom humor e trazendo também a contribuição do imaginário e da aventura, que devem existir, na devida proporção, em todas as coisas.
O próprio personagem reconhece sua contribuição e declara: “Aqui está onde acerta o cumprimento de meu ofício: desfazer a violência e dar socorro e auxílio aos miseráveis”. E segue: “Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça”.
Embora saiba que não existe magia no mundo capaz de mover e forçar a vontade, como algo simplesmente inacreditável, reconhece que é livre a nossa vontade e que não existe erva nem encanto que possa forçá-la.
Ao final, seus amigos, percebendo que ele estava sem condições e já bastante velho, propuseram um duelo e o convenceram de que, se perdesse, o castigo seria voltar para casa. De fato, ele perdeu e marchou de volta para casa, sem discutir as regras nem as condições da luta.
A partir daí, começou a recobrar a consciência, reconhecendo que tudo o que havia realizado era uma aventura e que aquilo existia apenas em sua cabeça; era um sonho. Porém, seus amigos avaliaram que a volta da consciência significava sua morte.
Ou seja, um homem sem sonhos está fadado a morrer.











