Connect with us

POLÍTICA

Quando uma mulher entra na política, a disputa nunca é apenas na urna

Publicado

em

A morte da candidata peruana Susy Aponte, assassinada durante um ato de campanha em 19 de setembro, abre espaço para uma reflexão sobre os obstáculos que ainda cercam a presença das mulheres na política. Aponte disputava o governo regional de Áncash e, segundo autoridades e veículos peruanos, havia relatado ameaças antes de ser morta. O episódio gera uma reflexão numa questão que ultrapassa fronteiras: quais são os riscos e obstáculos enfrentados por mulheres que decidem ocupar espaços de poder?

No Acre, a discussão ganha contornos próprios diante da atual disputa pelo governo estadual, protagonizada por Mailza Assis e Jéssica Sales. O episódio peruano é de natureza muito mais grave — envolvendo violência letal — e não deve ser equiparado aos ataques políticos enfrentados pelas candidatas. Mas os diferentes níveis de hostilidade mostram como mulheres que ocupam espaços de poder podem estar submetidas a formas distintas de violência e preconceito.

A violência sofrida pela candidata peruana representa uma situação extrema e não pode ser confundida com as disputas políticas ou os ataques verbais comuns às campanhas eleitorais. Ainda assim, o episódio chama atenção para um problema mais amplo: a dificuldade histórica de mulheres conquistarem e permanecerem em espaços tradicionalmente ocupados por homens.

No Acre, essa discussão ganha uma dimensão particular. Mailza Assis é a segunda mulher a comandar o governo do Estado, conforme registros do Senado e do próprio governo estadual. Em 2026, ela disputa à reeleição ao lado da ex-deputada federal, Jéssica Sales em uma chapa formada exclusivamente por mulheres.

Mailza já afirmou publicamente que mulheres ainda enfrentam preconceito e machismo nos espaços de poder. Em entrevista concedida em maio deste ano, a governadora relacionou sua trajetória política à necessidade de ampliar a participação feminina e garantir mais respeito e oportunidades para as mulheres.

Jéssica Sales, por sua vez, chegou à disputa eleitoral carregando também uma dimensão que frequentemente atravessa a vida pública de mulheres LGBTQIA+. Ela passou a ser alvo de ataques relacionados à sua condição sexual durante a pré-campanha. Ao comentar o episódio, Mailza afirmou que sexualidade não define o caráter nem a capacidade de uma pessoa para exercer uma função pública.

É nesse ponto que histórias diferentes se encontram. Susy Aponte enfrentou uma violência extrema que terminou em assassinato. Mailza relata ter enfrentado manifestações de preconceito por ocupar um espaço de poder. Jéssica Sales tornou-se alvo de ataques relacionados à sua vida pessoal e à sua orientação sexual. São situações distintas, em contextos diferentes e com gravidades incomparáveis, mas que colocam em evidência uma mesma pergunta: por que a presença de mulheres na política ainda desperta tanta resistência?

A resposta não está apenas na quantidade de mulheres que conseguem chegar às urnas. Está também nas condições encontradas por elas para permanecer na vida pública, disputar eleições, defender ideias e exercer cargos sem que gênero, vida afetiva ou orientação sexual sejam transformados em instrumentos de desqualificação.

A política, por definição, pressupõe divergência. Críticas a governos, candidaturas e propostas fazem parte da democracia. O limite está na transformação do debate político em violência, ameaça ou ataque baseado em características pessoais que não têm relação com a capacidade de exercer uma função pública.

O caso de Susy Aponte, ainda sob investigação, reforça de maneira dramática a importância de discutir segurança para candidatos, jornalistas e mulheres que atuam na vida pública. No Acre, os episódios envolvendo Mailza e Jéssica colocam outra camada nessa conversa: o direito de mulheres diferentes ocuparem espaços de decisão sem precisarem abrir mão de suas identidades para serem reconhecidas pela sociedade.

Mais do que uma discussão sobre uma eleição específica, trata-se de refletir sobre que tipo de ambiente político uma sociedade deseja construir. Um ambiente em que mulheres possam disputar, discordar, criticar e governar — ou um ambiente em que gênero e vida pessoal continuem sendo utilizados para tentar determinar quem pode ou não ocupar o poder.

A história peruana é um alerta pela dimensão da violência. A realidade acreana, em outra escala e contexto, mostra que o debate sobre respeito e participação feminina continua atual.

Porque democracia não significa ausência de conflito. Significa garantir que o conflito político aconteça dentro de limites que preservem a dignidade, a segurança e os direitos de quem participa da vida pública.

Susy não morreu apenas durante uma campanha eleitoral. Morreu exercendo uma atividade que, em qualquer democracia, deveria pressupor liberdade: circular, falar, denunciar, defender ideias e pedir votos.

É claro que não se pode colocar no mesmo patamar o assassinato de uma candidata no Peru e os episódios de preconceito ou ataques políticos vivenciados por mulheres no Acre. São situações de natureza e gravidade completamente diferentes.

Mas seria um erro também não enxergar o que existe de comum na raiz dessa discussão: mulheres ainda pagam um preço elevado quando decidem ocupar espaços de poder.

No Acre, essa realidade ganhou um símbolo particularmente forte nesta eleição.

Pela primeira vez, uma chapa formada por duas mulheres disputa o comando do Estado: Mailza Assis, candidata ao governo, e Jéssica Sales, candidata a vice. A própria Mailza destacou publicamente o caráter histórico da composição. E talvez seja justamente por ser histórico que o episódio merece ser observado para além do marketing eleitoral.

Uma mulher na política ainda é frequentemente obrigada a responder perguntas que dificilmente seriam feitas a um homem.

É cobrada pela aparência.
Pela maneira de falar.
Pela vida pessoal.
Pelas escolhas afetivas.
Pela família.
Pela roupa.
Pelo comportamento.

E, muitas vezes, antes mesmo que suas propostas sejam discutidas, sua identidade vira assunto.

Jéssica Sales conhece esse terreno.

A ex-deputada federal, que agora integra a chapa de Mailza, já foi alvo de ataques relacionados à sua orientação sexual. O episódio mostra como, para algumas pessoas, a vida privada de uma mulher ainda parece ser argumento suficiente para questionar sua legitimidade na vida pública.

E aqui está uma das grandes contradições da política contemporânea: a sociedade diz querer mais mulheres nos espaços de decisão, mas parte dela ainda tenta estabelecer quais mulheres considera aceitáveis para ocupar esses espaços.

Essa talvez seja uma das batalhas mais silenciosas da política. Não basta permitir que uma mulher entre pela porta. É preciso aceitar que ela entre sendo quem é.

Mailza chega a esta eleição depois de assumir o governo do Acre e agora disputar a permanência no cargo. Jéssica chega carregando sua trajetória política, sua história familiar e sua experiência como deputada federal.

Duas mulheres diferentes. Duas trajetórias diferentes. Duas formas de fazer política. E talvez esteja justamente aí a importância simbólica dessa candidatura.

Durante décadas, a política foi construída majoritariamente por homens e sob códigos predominantemente masculinos. Quando mulheres chegam ao centro da disputa, elas não apenas ocupam uma cadeira: elas também alteram a imagem de quem pode ocupar aquele lugar.

É por isso que a presença feminina na política incomoda determinados setores. Não porque essas mulheres sejam melhores ou piores que os homens. Mas porque sua presença rompe uma tradição. E toda ruptura provoca resistência.

O caso de Susy Aponte, no Peru, nos lembra do limite mais extremo que a violência política pode alcançar. A Defensoria do Povo peruana classificou o assassinato como motivo de profunda preocupação e cobrou medidas de proteção para candidatos.

No Acre, felizmente, estamos falando de outro cenário. Aqui, a disputa acontece nas urnas, nas ruas, nas redes sociais e no debate público. Mas é justamente nesses ambientes que a democracia precisa estabelecer seus limites.

Criticar Mailza é legítimo. Questionar Jéssica é legítimo.
Discordar das duas é parte da democracia. O que não deveria ser necessário é transformar gênero, orientação sexual ou vida pessoal em munição para diminuir uma mulher que decidiu disputar o poder.

A política precisa ser dura com ideias, propostas, decisões e resultados. Não precisa ser cruel com identidades.

Uma democracia verdadeiramente madura não é aquela em que mulheres conseguem chegar ao poder. É aquela em que elas conseguem chegar, permanecer e disputar em condições de respeito e segurança.

Porque quando uma mulher entra na política, ela não deveria precisar provar duas vezes que pertence àquele lugar. Deveria precisar apenas apresentar suas ideias e disputar o voto.

Continue lendo