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Valterlucio Campelo

Valterlucio Campelo sobre o quarto governo Lula: Estelionato eleitoral e uma bomba acesa

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Lula IV – estelionato eleitoral e uma bomba acesa.

Valterlucio Bessa Campelo

Depois da eleição, para surpresa de ninguém com dois neurônios, algumas promessas de campanha subiram no teto e passaram a ser apresentadas com mais condições ou ficaram pendentes de regulamentação e recursos. “Cumpanheiro, vou mandar um PIX de 5 mil pra você”. Era mentira. O programa ainda estava em estruturação, sem inscrições abertas e o dinheiro seria destinado ao negócio, não pago livremente para qualquer finalidade. Portanto, a vã promessa só serviu para angariar votos de otários.

Outros compromissos também dependem de espaço no Orçamento. Entre eles estão o reajuste do Bolsa Família, a ampliação do Pé-de-Meia, medidas para renegociar dívidas, medicamentos para emagrecimento no SUS e transporte público gratuito aos fins de semana. Tudo conversa fiada. Para acomodar novos gastos, o governo teria de rever despesas, encontrar receitas ou reduzir o alcance de parte das iniciativas. Isso mostra que o anúncio da campanha não vale um centavo, é estelionato eleitoral fácil de perceber, mas doce como mel para o lulopetismo acostumado a enganar pobre.

Logo de saída o mercado acusou o golpe. A reação financeira foi intensa. No primeiro pregão após a eleição, o Ibovespa sofreu forte queda e a B3 acionou o circuit breaker. No fechamento de outubro, a Bolsa acumulou recuo de 9,88%, enquanto o dólar subiu cerca de 5,2%, para aproximadamente R$ 5,44. Nesta quarta-feira, 4 de novembro, o Banco Central interrompeu o ciclo de cortes refletindo a revisão das expectativas sobre política fiscal, inflação, juros e câmbio.

A discussão mais sensível para o mercado, porém, foi a proposta do economista André Lara Resende para reduzir a taxa básica de juros. Ele defende uma queda rápida da Selic, dos 13,75% então vigentes para cerca de 7,5% em 12 meses. Marreta no prego do juros. Depois, a taxa teria como referência um limite relacionado à meta de inflação e ao crescimento potencial da economia. A proposta também sugere mudanças na coordenação das decisões fiscais e monetárias – um novo conselho monetário.

Lara Resende argumenta que os juros elevados aumentam muito o custo da dívida pública e, por isso, também dificultam o equilíbrio das contas do governo. Na visão dele, reduzir a Selic poderia diminuir esse custo e ajudar a economia. A proposta ganhou atenção após a eleição, mas não era uma medida oficial do governo. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que ela não estava sendo considerada pelo Executivo e apontou ressalvas à ideia. Mentira – só se falou nisso nas últimas semanas. 

Outros economistas contestam a proposta. Sabem que a culpa não é do termômetro e a febre tem a ver com gastos sem freios. A principal preocupação é que uma redução rápida ou decidida politicamente, sem uma queda correspondente da inflação e sem confiança nas contas públicas, poderia fazer investidores exigirem juros maiores para emprestar ao governo. Também poderia pressionar o dólar e elevar os preços de produtos importados. Nesse cenário, a Selic cairia por decisão política de marreta, mas os juros cobrados em empréstimos e financiamentos poderiam continuar altos porque o mercado passaria a considerar o Brasil mais arriscado. O argumento contrário, portanto, não é que “juros altos são bons”, mas que baixar a taxa sem credibilidade pode produzir o efeito oposto ao desejado. O governo continua batendo cabeça com a crise fiscal batendo à porta.

A diferença central está no ritmo e no método. Lara Resende propõe mudar a forma de definir os juros e reduzi-los à marretadas. Os economistas mais conservadores defendem que a Selic deve cair quando houver condições econômicas para isso, especialmente inflação sob controle e confiança de que o governo conseguirá administrar suas despesas. O próprio Banco Central, em 4 de novembro, mandou Lula às favas e manteve a Selic em 13,75%, citando incertezas e expectativas de inflação. Esta decisão reforçou a distância entre a proposta debatida e a política monetária efetivamente adotada. Viva a independência do Banco Central.

A discussão contribuiu para a preocupação dos investidores, mas não explica sozinha a reação do mercado. A queda da Bolsa, a alta do dólar e o aumento dos juros futuros após a eleição refletiram uma combinação de fatores: incerteza sobre a política fiscal, dúvidas sobre os próximos passos do governo e receio de mudanças na relação entre governo e Banco Central. Em outras palavras, o mercado não reagiu apenas a uma proposta de Lara Resende, mas também ao temor de que a ideia pudesse virar uma orientação política para reduzir juros sem garantias suficientes contra a inflação. Com uma bomba no colo, o mercado disse não.

No conjunto, a mensagem pós-eleitoral ficou ambígua: o governo reafirmou compromisso com a melhora das contas públicas, mas ainda não apresentou um plano detalhado para conciliá-la com as promessas de novos benefícios. Ao mesmo tempo, a discussão sobre uma redução política da Selic alimentou dúvidas sobre a autonomia das decisões monetárias e o controle da inflação. Para os beneficiários, a questão é se os programas anunciados sairão do papel. A única certeza é a de que vem um furacão bem ali e não estamos falando do clima. Lula plantou ventos por quatro anos e terá que enfrentar sua tempestade, sem TSE, Zanin ou Janones.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor  PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

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