Valterlucio Campelo
Valterlucio Bessa Campelo escreve: Candidatos corruptos contam com eleitores lenientes

Candidatos corruptos contam com eleitores lenientes.
Valterlucio Bessa Campelo
Recebi uma provocação de alguns amigos e resolvi reagir. A questão é a seguinte: Por que políticos, candidatos e dirigentes partidários apoiam sem pejo candidaturas sabidamente corruptas?
De chofre, respondi que se trata de cálculo eleitoral e perspectiva de poder – não interessa se a candidatura é corrupta, desde que “eu ou nossos candidatos ganhem a eleição”. Reafirmando esse ponto de vista, resolvi dar mais conteúdo e expandir uma reflexão a respeito. Afinal, estamos assistindo, no Brasil e no Acre, exemplos flagrantes de candidaturas que ameaçam ter sucesso, apesar de arrastarem consigo uma inegável capivara de mal-feitos. Cinjo-me ao caso do Acre porque é com ele que lidamos todos os dias.
Ora, todos sabem que o ex-governador Gladson Cameli, sucedido há 5 meses por Mailza Assis, foi condenado por unanimidade em tribunal superior por vários crimes conexos que se pode, para facilitar, denominar de corrupção. Arredondando, são 26 anos de pena. Todos sabem que vários membros do referido governo foram arrastados para esse e outros casos do mesmo gênero. O troço é tão sério que o ex-governador sequer alega inocência – a sua luta jurídica é processual -, visando a proteção em um mandato de senador.
Nesta quinta-feira, mais uma vez a Polícia Federal bateu às portas de ex-secretários do governo em operação que visa esclarecer esquemas de corrupção envolvendo a Secretaria de Educação e a Casa Civil. Vale dizer, a corrupção governamental virou notícia quase diária. Sem contar o que se sabe pelos informes de bastidores que vazam da antessala da governadora. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que nunca antes no Acre se viu tanta corrupção no governo.
Chegamos ao ponto. Tomemos o caso como exemplo. Se todos sabem – candidatos e eleitores – por que a candidata que encarna tudo isso e promete um governo de continuidade, amparada que é pelos mesmos personagens, obtém viabilidade eleitoral e chances concretas de vitória?
O primeiro e mais importante motivo é a lógica de que vencer é o objetivo político primário. Partidos querem mais cadeiras nos parlamentos, candidatos e dirigentes querem mais poder e cargos. Então, um candidato sabidamente envolvido ou leniente com a corrupção, mas com alta capilaridade eleitoral (redes clientelistas), capital político acumulado e recall de nome e estrutura de campanha, representa votos certos. Esses votos não beneficiam apenas o candidato, também ajudam a eleger mais parlamentares pelo quociente partidário e ampliar o fundo partidário e o tempo de TV. O custo reputacional de apoiá-lo é, no cálculo dos dirigentes, inferior ao benefício eleitoral.
O segundo motivo é a assimetria de informação e a “tolerância seletiva” do eleitor. O dirigente ou candidato sabe que corrupção não é, necessariamente, fatal eleitoralmente. Parte do eleitorado desconhece os fatos (assimetria de informação), ou os conhece e ainda assim prefere o candidato por outras razões – o clássico “rouba, mas faz”, ou carisma. Quando o escândalo não gera punição eleitoral consistente, o custo de apoiar corruptos despenca. Se contar com uma mídia amestrada, melhor ainda.
Em terceiro, vem o acesso a recursos e redes de financiamento. Veja-se que candidatos ligados a esquemas de corrupção costumam ser, paradoxalmente, os mais bem financiados e conectados. Em sistemas de campanha caros, o partido precisa de candidatos que tragam financiamento (lícito ou ilícito, não importa), máquinas locais (prefeitos, lideranças comunitárias) e capacidade de mobilização de base. O dirigente, pragmático, enxerga no candidato corrupto um provedor de recursos e não um passivo. É a sem-vergonhice explícita.
Em resumo, não se trata (apenas) de cinismo, mas de racionalidade eleitoral e institucional. Apoiar um candidato corrupto é, em muitos contextos, a estratégia que maximiza votos, recursos e poder a um custo reputacional relativamente baixo.
Do outro lado da urna tem o eleitor. Para ele a corrupção compete com outras preferências, ou seja, ele pondera que o candidato corrupto pode ser, simultaneamente, quem entrega emprego, saúde, segurança ou crescimento na sua região. É o chamado voto retrospectivo ou “rouba, mas faz”. Além disso, podemos elencar:
a) A Identidade partidária e raciocínio motivado que ocorre quando há vínculo identitário com o partido (para petista, Lula é honesto), então ele relativiza (“todos fazem”), desconta (“é perseguição política”), ou hierarquiza (“o meu é menos pior que o deles”). A identidade funciona como filtro: a mesma informação que condenaria um adversário é racionalizada quando atinge o “meu” candidato.
b) Clientelismo: muitas vezes o eleitor “informado” se beneficia diretamente do esquema. O corrupto eleito significa emprego no governo, por exemplo. Nesse caso, a corrupção não é um custo para ele; é uma fonte de renda e acesso. Punir o corrupto seria punir a si mesmo. A racionalidade é perfeitamente coerente do ponto de vista individual.
c) O problema da ação coletiva. Neste sentido, o eleitor pode considerar a corrupção grave, mas não acreditar que seu voto individual mude o sistema. É o dilema clássico: punir sozinho tem custo (perder os benefícios) e efeito quase nulo sobre o resultado agregado. Logo, a escolha racional é continuar votando no que traz retorno imediato.
d) Desconfiança nos mediadores da informação, basicamente a imprensa que precisa de credibilidade. Se o eleitor desconfia da mídia, da Justiça ou das instituições que divulgam o escândalo, ele descarta a informação como arma política. A informação chega, mas é neutralizada pelo filtro da desconfiança sistêmica. “Não há mídia isenta”.
Em resumo, o eleitor otimiza entre valores conflitantes, ou seja, integridade versus benefício material, identidade e realismo sobre a própria eficácia. Punir a corrupção é apenas uma das variáveis do cálculo, e frequentemente a mais cara.
Como vemos, a racionalidade do candidato encontra eco no eleitor racional. O outro tipo de eleitor, desinformado, emocional, vem através de outras formas de comunicação. Nesse ponto, até jingle conta.
É preciso pois, aos adversários da candidatura assim posta, que encarna o governo corrupto, um esforço gigantesco e uma eficiência máxima de comunicação, para conscientizar o eleitor de que o trem desembestado pela corrupção vai sobrar na curva de 1º de janeiro. Quando a disputa descamba para o lado da máquina avassaladora e despudorada, não há paridade de armas. É Davi contra Golias.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP












