Valterlucio Campelo
“Jorge é Lula e Lula é Alexandre de Moraes”: Valterlucio analisa o alinhamento político no Acre e no Brasil

Jorge é Lula e Lula é Alexandre de Moraes. Isso é tudo que você precisa saber.
Valterlucio Bessa Campelo
Todos sabem que Jorge Viana só é candidato ao senado no Acre porque o Lula pediu. Ele estava muitíssimo bem na APEX, viajando em primeira classe pelo mundo. O próprio candidato diz isso, como se estivesse por aqui cumprindo uma missão – ajudar ao presidente Lula em um novo mandato. E está. Mas não essa missão que propaga, como se dele dependesse o desenvolvimento do estado, a transferência de recursos, a realização de obras etc., o que aliás seria deplorável em termos republicanos.
Aqui entra a filosofia política. Quando um cidadão ou um estado precisa das graças discricionárias de um poder central para se desenvolver, quando obras, recursos e investimentos dependem da boa vontade de um mandatário federal, ele não é livre: está sob tutela, na posição clássica do servo que não é golpeado, mas vive à mercê do senhor. A retórica do “supergestor” que vai trazer recursos para o Acre monta, paradoxalmente, sobre a aceitação da dominação, consagra um vínculo de dependência pessoal e institucional que a tradição republicana identifica como o oposto da cidadania. Sob este aspecto, o pretexto apresentado já é indecente.
A candidatura de Jorge Viana, creiam, é a mais ideológica de todas, embora ele o negue a todo momento. Um senador petista no congresso é uma pedra na sustentação do STF avacalhado que estamos observando. Se ganhar a eleição, Lula deverá fazer 4 indicações ao STF – uma que está vaga e mais três dos que se aposentarão, e isso muda tudo. Lula precisa de senadores que aprovem suas indicações de cozinha e bar, gente da espécie Flávio Dino e Zanin que mantenha o supremo como sócio das estrepolias vorcarianas e, ao mesmo tempo, avalista do descalabro administrativo lulopetista.
O senado é o único ponto de veto externo na nomeação dos ministros do STF – é ele quem sabatina e aprova as indicações presidenciais. Quem controla essa maioria controla, indiretamente, a jurisprudência que arbitrará os conflitos entre os Poderes e validará ou não os atos do Executivo. Um senador petista a mais ou a menos não é detalhe: é margem de segurança num cálculo de coalizão. A missão do Jorge não é ajudar o Acre, mas ajudar Lula a encabrestar o senado.
Em termos maquiavelianos, Viana age como o tipo virtuoso do príncipe novo, que inteira o projeto do senhor maior em troca de posição e influência – a virtù a serviço da fortuna alheia. Para ganhar, obviamente, diz o contrário: posiciona-se na mídia como o supergestor que operará a redenção do Acre e pede que se esqueça a ideologia. É a velha estratégia de desideologizar o discurso eleitoral para ideologizar a prática parlamentar. Ora, o republicanismo clássico sempre desconfiou da dissimulação; Aristóteles lembrava que a justiça não é apenas não lesar, mas a aparência de não lesar sob escrutínio público. Quando o discurso diz “Acre” e a prática responde “Supremo”, instala-se a cisão entre a parrhesia que o cidadão deve ao espaço público e a retórica estratégica, que instrumentaliza a palavra para fins privados. Espertinho, nosso Jorge.
Aqui entra um paradoxo. Segundo as pesquisas, o Acre é conservador à base de 2/1, ou seja, para cada eleitor de esquerda há dois de direita. Isso bastaria para passar a régua e eliminar qualquer pretensão adversária, já que o eleitor pode votar duas vezes para o senado e, portanto, eleger facilmente os dois candidatos da direita – Marcio Bittar e Mara Rocha. Por que, então, Jorge Viana aparece tão competitivo?
Pelo embuste. Conhecido em todo o Acre em virtude dos cargos que ocupou, ele não precisa se apresentar, basta esconder o verdadeiro propósito, calçar as sandálias da humildade e lembrar as coisas boas que aconteceram em 20 anos de domínio petista na política acreana. O fracasso vai para debaixo do tapete. Os debates e entrevistas doces não o incomodam. Os adversários, a maioria deles, estão tentando disputar com ele a capacidade de “trazer recursos”, sem perceber que, neste caso, Jorge se garante tendo em vista um governo Lula. A cilada dos recursos, das obras etc. só não pegou até aqui o senador Marcio Bittar, que antagoniza o petista em praticamente tudo e tenta pingar um pouco de ideologia e razão nesse debate fútil de emendas.
Como estamos vivendo um dos momentos mais críticos da república brasileira em sua história, é rigorosamente necessário trazer o petista para o ringue supremo. Vai o Jorge Viana, amigo declarado dos ministros enrolados com Vorcaro, se alinhar com o povo? É contra ou a favor da abertura de processos de impeachment contra Moraes e Dino? Aprova que Alexandre de Moraes seja o próximo presidente do STF? Meu palpite é de que a perguntas incômodas, fará a declaração sonsa de que “quer que apure tudo, doa a quem doer”. Lula anda dizendo isso, enquanto esconde o filho traquinas.
Convenhamos, o STF lulopetista foi transformado em ringue obsceno, com acusações que fariam corar a dona do bordel. Confissão do operador de Vorcaro informa que mais de bilhão de reais mudaram de mãos em malas sem contraprestação lícita. Mensagens de celular esfregam em nossa cara a baixa moral do andar da cobertura desse Brasil de meu Deus. Lula precisa de senadores para manter o circo.
Os eleitores precisam saber que Jorge é Lula, Lula é Alexandre de Morais, Alexandre de Moraes é Vorcaro e Vorcaro também é Lula. Os candidatos ao senado devem dizer isto com clareza e insistentemente, fazendo com que o eleitor saia dessa letargia, funcional para a esquerda farsante, e seja informado de que “o buraco é mais embaixo”. A eleição do senado não trata de “arrumar a BR 364”, mas de salvar o Brasil.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP










