Connect with us

ACRE

Armando Araújo: conheça a história do pipoqueiro mais famoso das ruas de Rio Branco

Publicado

em

O ex-eletricista revelou ao AcreNews porque deixou de lado os fios e os alicates e passou a vender pipocas nas ruas da capital

Por Wanglézio Braga/ Foto: Wanglézio Braga

Quem transita pela calçada da Loja Marisa, no centro de Rio Branco, de longe sente o cheiro de pipoca no ar. À medida que você se aproxima do carrinho estacionado quase que na entrada do empreendimento, logo aguça o paladar para saborear a iguaria que não tem uma patente definida. Tem pipoca doce e salgada, essa última com ‘recheio’ de bacon. No comando do fogão e da pipoqueira, encontramos o simpático Armando Bastos de Araújo, 55 anos. O pipoqueiro, que soma 25 anos de profissão, é um dos mais respeitados empreendedores informais e dono de uma linda história de vida que compartilhou conosco. 

Durante a semana, o Acre News bateu um papo irreverente com o seu Armando. Enquanto fazia as suas pipocas, ele contou em detalhes das dificuldades que enfrentou para se manter no mercado, das estratégias e tendências para conquistar a clientela e deixou uma mensagem para quem sonha em empreender mesmo em épocas de dificuldades, de pandemia do novo Coronavírus.

Leia na íntegra:

ACRENEWS – Antes de trabalhar como pipoqueiro, o senhor fazia o quê?

ARMANDO – Por muitos anos, trabalhei como eletricista, com carteira assinada em uma empresa. Naquele tempo, eu fiquei doente, foi uma situação delicada até que passei por cirurgia de úlcera. Eu pegava muito no pesado, por não aguentar, pedi as contas do meu patrão, ele concordou e com o dinheiro da indenização, comprei o meu carrinho de pipoca que custou à época, R$ 1,500 reais.

ACRENEWS – E a sua família, concordava com essa mudança de profissão?

ARMANDO – De início, não! Eles falavam muito, pois eu nunca tinha trabalhado com pipoca. Eu dizia pra eles que esse tipo de venda, informal, era a única ideia que tinha para conseguir o alimento, pagar as contas. Depois, comprei o carrinho e fui pras ruas. O primeiro ano foi muito sofrido porque ninguém ensinava nada para ninguém, ainda mais neste ramo. Ninguém quer te ajudar, ninguém fala os macetes de preparar uma boa pipoca.

ACRENEWS – Após comprar o carrinho, o material, como foi aceitação/relação com os concorrentes?

ARMANDO – Minha nossa, muito complicado! Quando lembro, a vontade é de chorar. Eu não podia chegar nem perto de nenhum outro vendedor. Muitos ficavam com cara feia, outros até me expulsava da rua, um local público. Foi um ano todinho apanhando. Todo lugar que tinha outro vendedor, eles me mandavam sair fora, por pura ameaça. Tiveram momentos que pensei em pegar o carrinho e jogar dentro do Rio Acre, momentos de desistir de tudo.

ACRENEWS – Apesar disso, o senhor não desistiu! Aqui, nesta calçada, inclusive já montou ponto fixo. Mas, também não foi fácil!

ARMANDO – Não foi fácil porque a gerente não permitia estacionar o meu carrinho na calçada da loja. Passei três meses sendo convidado para se retirar. Vinha um fiscal e pedia para sair. Vinha outro fiscal e pedia para me retirar. Às vezes colocava na rua mesmo, na frente da loja, e o fiscal mandava sair. Foram alguns meses levando uma vida de gato e rato.

ACRENEWS – Quem se cansou primeiro: A loja ou o senhor?

ARMANDO – Foi uma história até engraçada. Eu fui convidado para servir pipoca numa festa de aniversário. Eu cobrei, na época, R$ 50 reais por noite. Aí, todo mundo falando muito bem da pipoca, da minha forma de tratar as crianças, os convidados. Quem me contratou foi o pai do aniversariante, pagou muito bem, soube reconhecer o meu trabalho. Não demorou muito, já na hora de cantar os parabéns, descobri que o aniversário era do filho da gerente da loja Marisa. Confesso que nem desconfiava, mesmo porque todo mundo da loja tava lá, mas como estava trabalhando não liguei uma coisa à outra. Essa mulher gostou das minhas pipocas e viu uma oportunidade de me ajudar.

ACRENEWS – Olha só, o senhor servindo na festa de uma pessoa que ‘quase não o deixava trabalhar’! E o que aconteceu depois?

ARMANDO – Na semana seguinte voltei aqui pra frente da loja e fui surpreendido pelo fiscal. Sem o deixar falar nada, eu disse: “Tá bom, eu vou já sair”. Mas, para a minha surpresa, a gerente da loja pediu para me chamar para conversar. Nós conversamos e ela me autorizou usar o espaço. Já estou aqui há pelo menos 20 anos. Servindo os meus clientes, os clientes da loja, os funcionários da loja, ou seja, há muito tempo temos carinho, respeito e muita amizade entre nós.

ACRENEWS – A venda da pipoca é a única renda da sua família?

ARMANDO – Sim, foi através desse carrinho que sustentei e sustento a minha família, comprei as minhas coisas, a minha casa, formei a minha filha. Minha filha é formada em RH. Eu tenho outros dois homens. No momento ela é a única formada e está bem empregada.

ACRENEWS – Desses 25 anos de praça, 20 anos neste ponto, podemos dizer que a pipoca caiu no gosto popular dos acreanos?

ARMANDO – Com toda certeza, os acreanos amam pipoca. Fazendo um rápido balanço, eu cheguei a vender, antes da pandemia, mais de 10 kg de milho, numa única tarde. Hoje é quase impossível vender 10 kg de pipoca porque faltam clientes, né? Mas por ano, posso calcular a venda de quase uma tonelada de pipoca. Atualmente, eu vendo 4 kg de milho diariamente. É muita coisa no final do mês. Daí, você concluiu que o acreano gosta de pipoca! Vendo para as crianças, jovens e adultos. Idosos também param, compram uma pipoquinha e saem daqui felizes.

ACRENEWS – Além dos ingredientes, o que faz dessa pipoca tão saborosa?

ARMANDO – O tempero e o carinho com que é preparada. Eu só uso produtos de qualidade. Não costumo, nunca gostei, usar produtos de segunda linha como milho, manteiga, bacon. Nesse caso da salgada, por exemplo, o bacon não deixa um gosto marcante, é preciso colocar um tempero para realçar o sabor. Eu não posso falar o que tem no tempero, é segredo. Eu estudei muito para chegar a esse sabor. O que posso dizer é que são cinco condimentos para formar um único tempero. Mas, o que temos muito aqui é amor. Isso eu posso revelar. Eu coloco amor nas minhas pipocas e faz uma diferença para quem come.

ACRENEWS – É verdade que o senhor tem fregueses de outros estados e até de países da Europa?

ARMANDO – Tem gente que passa aqui na calçada e diz que foi indicação de outras pessoas que provaram as minhas pipocas. Elas são de outros estados, até em outros países como Portugal, da França, da Bolívia, Peru. Eu tenho fregueses, amigos, que quando vem visitar Rio Branco faz questão de vir no carrinho, ou pessoas que indicam a minha pipoca para um viajante. A gente bate um papo enquanto eles comem pipoca, a gente fica amigo.

ACRENEWS – É estratégia o tratamento aos clientes?

ARMANDO – Meu pensamento de vida é assim: Pipoca com bons produtos, facilidade no pagamento e a forma como trato os meus clientes. Acredito até que 50% seja o material, essas coisas, e os outros 50% é como você oferece o teu serviço. Problemas, todos nós temos. Não podemos passar para os outros os nossos. A vida não é fácil. Se você tem algo que é o teu ganho de pão, que você não cativa às pessoas para gastar, você não vai conseguir muita coisa. Quem oferece cara feia, tem mais chances de não ter clientes do que você que sorrir, que chama o cliente de amigo, que brinca, que interage com ele. Todo mundo gosta e merece ser bem tratado.

ACRENEWS – E a pandemia, como afetou o empreendimento do senhor?

ARMANDO – A gente sempre tem que tá preparado, né? Eu tinha a minha reserva, passei uns quatro meses parado em casa. Sou de risco, tenho uma saúde fragilizada e não queria arriscar. Aí, quando vi que a pandemia caiu os números, logo pensei em retornar. Estou aqui, trabalhando com muito cuidado, abusando da higienização, é álcool, é máscara, é todo tempo limpando o carinho, é todo tempo evitando cumprimentar fisicamente as pessoas. Eu vivo com medo.

ACRENEWS – A tecnologia vem revolucionando os pequenos empreendimentos, os médios e grandes. Para o senhor, como foi o processo de adaptação das formas de pagamento?

ARMANDO – Trabalhamos com dinheiro em espécie, cartão de débito, crédito, transferência e o PIX. Se você não tiver essas facilidades, o cliente desiste da compra. A gente tem que acompanhar o mercado, as tecnologias. Foi-se o tempo de só receber em dinheiro, ninguém anda com dinheiro na carteira. O meu processo de adaptação foi complicado, mais depois até melhorou, ficou mais seguro, mais organizado. Eu uso desde a máquina de crédito até o PIX. Às vezes ganho até mais por causa das bonificações que dão.

ACRENEWS – Que recado, conselho o senhor oferece para quem tem medo de buscar uma nova profissão ou que simplesmente quer empreender, que precisa ousar no empreendimento?

ARMANDO – Não tenha medo! Qualquer tipo de negócio que fizer hoje, você terá muitos desafios. Mas é preciso tentar. Como vai saber se é lucrativo, se não for tentar? É preciso ter atitude, não ouvir os conselhos negativos, também não desistir com facilidade. Trate bem as pessoas, independente de quem seja. Esteja aberto às opiniões construtivas. Veja o meu caso. Ninguém usava o bacon na pipoca, nas ruas de Rio Branco, eu iniciei essa moda. Mas as primeiras preparações foram horríveis. O bacon saia muito duro, sem gosto. As pessoas diziam que estava horrível. Tive que estudar bastante, fazer os meus temperos na cozinha de casa. Eu consegui chegar a esse gosto graças às minhas pesquisas. Não foi uma tarefa fácil.

Além desse conselho, de oferecer o melhor, eu posso dizer que é preciso ter ousadia e coragem para inovar. Aproveitando a oportunidade do jornal, quero dizer que vou começar a entregar pipocas no sistema delivery, ou seja, quem quiser comer as minhas pipocas no conforto de sua casa, trabalho, principalmente o pessoal que vivem no centro, nas repartições e não podem sair, estaremos entregando. Isso é mais uma inovação. Estamos no processo de teste e se Deus permitir, vamos conseguir.

ACRENEWS – Sem dúvida, a sua história é inspiradora e interessante. Nós desejamos sucesso na jornada. Muito obrigado por compartilhar conosco!

Continuar lendo
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ACRE

Nos 59 anos de elevação a Estado, conheça a saga do Movimento Autonomista liderado por Guiomard Santos no Acre

Publicado

em

Por

Agência AC

Levantes de grupos prós e contras. Correntes partidárias em constantes divergências de opinião. Um comitê que pregava a autonomia defendendo a necessidade dos acreanos de tornarem-se iguais em direito e deveres aos demais brasileiros. E até a criação de um jornal e a utilização de outro, oficial, com a finalidade de divulgar notícias, artigos e abaixo-assinados em favor da causa autonomista.

Se você acha que os embates políticos de hoje são de longe os mais polarizados da história do país, pois saiba que a elevação do Território do Acre à categoria de Estado – que nesta terça-feira, 15, faz 59 anos – também foi marcada por uma das mais intensas disputas ideológico-partidárias que se tem notícia no desabrochar do século 20, no Brasil.

Colonos e seringueiros com o governador Guiomard Santos Foto: Acervo Digital/Memorial dos Autonomistas

Nesta reportagem, utilizando-se dos estudos ricamente detalhados pela professora Maria José Bezerra na sua tese de doutorado de 2006 para o Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), a Agência de Notícias do Acre traz os principais aspectos para compreender satisfatoriamente como foi o processo de elevação do Acre de Território a Estado, na tarde do dia 15 de junho de 1962, com a sanção da Lei 4.070 pela caneta do então presidente João Goulart.

Da esquerda para a direita, Lydia Hammes Santos, Guiomard Santos, o presidente João Goulart e o primeiro ministro Tancredo Neves, na ocasião da sanção da Lei 4.070, de 15 de junho de 1962 que elevou o Acre a Estado Foto: Acervo Digital/Memorial dos Autonomistas

O discurso patriótico como arma de persuasão

“Acre livre e Brasil mais independente. Conterrâneos de coração, saímos do berço desassombradamente e aceleramos os nossos passos em busca de uma bandeira de liberdade para nossa terra, que é minha e que é tua. Saibamos honrar os méritos daqueles que tombaram pela independência deste rincão, num ardil golpe sem medirem consequência e desprendidos de paixões materiais. […] por um Acre livre, num Brasil mais independente”.

Do artigo Exortação Cívica, no jornal O Acre, assinado por Raimundo Sales Vital no dia 19 de maio de 1957.

Jornal O Acre, órgão oficial de imprensa do governo constitucional tornou-se em 1950 aliado da propaganda pela elevação do Acre a Estado Foto: Cedida

O texto acima é um de tantos outros lançados pelo Comitê Pró-Autonomia do Acre, grupo criado nos idos de 1956, segundo a professora Maria Bezerra, com “caráter cívico, patriótico e ético”, aparelhado por Guiomard Santos para convencer os acreanos de que o Acre deveria tornar-se Estado.

Hotel Chuí, na década de 1950, onde hoje é a sede da Prefeitura de Rio Branco, no centro da capital Foto: Acervo/CDIH

José Guiomard Santos, do Partido Social Democrático (PSD) foi governador do território entre 1946 e 1950, e eleito deputado federal logo em seguida, em 1951, tendo sido o maior defensor da elevação do Acre a Estado e obtido essa conquista.

Coronel do Exército boliviano Isaac Vasquez, e membros do governo do Departamento Pando, em cerimônia de entrega medalha ao governador do Acre, Guiomard dos Santos, que também era major; curiosamente, pela autonomia do Acre, Santos mencionava os feitos heroicos de Plácido de Castro contra os bolivianos para ganhar o Acre Foto: Acervo/CDIH

Porém, para entender melhor um dos capítulos mais importantes da nossa história, é preciso compreender primeiro que, embora o movimento autonomista tivesse o hábito de colar à sua propaganda ideológica os feitos de Plácido de Castro – de que a elevação a Estado só honraria ainda mais a façanha dos bravos heróis da ‘Revolução Acreana’ -, a anexação do Acre como território nacional já não havia encontrado a simpatia das forças políticas que protagonizaram a ‘Revolução’. O que diria, a elevação.

Balsas de borracha descem o rio Acre, próximas da Gameleira Foto: Arquivo/Museu da Borracha

É que “ao longo do processo da luta contra a Bolívia, [essas mesmas] forças políticas dividiram-se em vários grupos com projetos distintos para a região”, explica a professora.

Proprietários do seringal Benfica, em Rio Branco (à direita) com oficiais dos vapores Arimos e Marcial e seringueiros Foto: Revista O Malho

“Havia aqueles, como Galvez, que defendiam a instauração de um regime republicano, porém subordinado à ‘mãe-pátria’ [o próprio Acre]. E alguns outros, mais ousados, com suas ideias separatistas, que também propunham a separação do Acre do território nacional formando um novo país”, lembra Bezerra. E como exemplo prático, é “neste contexto que se insere o levante de 1910 em Cruzeiro do Sul, quando os seringalistas e comerciantes de maior peso econômico se rebelaram e depuseram as autoridades constituídas”.

Grupo de oficiais do vapor Marcial no barranco do porto Benfica, no rio Acre, em Rio Branco Foto: Revista O Malho

Nesta perspectiva, a instituição da condição de Território pelo governo federal torna-se um freio ao mandonismo das forças políticas locais ante o poder nacional.

Os anos 1950, o petróleo do Moa e a visão do Juruá sobre a causa autonomista

Charge de jornal da época criticando ação do governo federal; na legenda acima, o anúncio de que o “governo expediu ordens terminantes para que sigam batalhões do Exército para o Acre, com fim de sufocar o movimento revolucionário n’aquela região” Foto: Redalyc.org

Para reforçar seus ideais de um Acre elevado à condição de Estado, Guiomard Santos então organizou um bloco pró-autonomista de políticos locais que em 1953 ele mesmo municiava com discursos, artigos na imprensa, abaixo-assinados, correspondências particulares, telegramas e relatos de debates sobre a luta pró-autonomista no âmbito do Território. Mas , o que pensava-se ser uma causa do Acre como um todo acabou não incendiando todas as mentes, sobretudo os pensadores do Juruá.

“No Vale do Juruá, em documento publicado em O Juruá, o jornalista João Mariano enfatiza que os governos territoriais, incluindo o próprio Guiomard Santos, só investiam em Rio Branco – por ser capital -, e nos municípios vizinhos”. Dessa forma, a causa autonomista não empolgava os moradores do Juruá por conta do contexto de miséria a que estavam inseridos, segundo a leitura da pesquisadora da USP.

Passageiros com comandante e tripulação da lancha Rio Cayaté fotografados no rio Juruá Mamichy, quando retornavam do rio Tarauacá Estas designações indígenas justificam a familiaridade do grupo e, sobretudo, a pujança da natureza em torno Foto: Revista o Malho O Malho, RJ, 26 de setembro de 1908, Ano VII, N.315

“O Vale do Juruá não está em condições de fazer parte do Estado autônomo do Acre, pois além da falta de vida própria, há de encarar o fator capital: de todos os proprietários e comerciantes do Juruá, somente um, o sr. Raimundo Quirino Nobre está em condições de carregar, por duas vezes ao ano, navio de quatrocentas toneladas de mercadorias, em Belém para os seus armazéns nesta cidade. Isso indica pobreza da região. […] Faça-se o Território do Juruá. Incentiva-se a sua lavoura e pecuária, organizem-se algumas pequenas indústrias, extraia-se o petróleo do Moa, eis o caminho a seguir”.

Do artigo Autonomia do Acre, no jornal O Juruá, por João Mariano da Silva, publicado no dia 3 de março de 1957.

Visita de Getúlio Vargas e recepção do presidente por estudantes Foto: CDIH

Segundo a tese da professora-doutora, intitulada ‘Invenções do Acre: De Território a Estado – Um olhar social’, a oposição, representada pelo deputado federal Oscar Passos, líder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), também advogava contra o projeto de elevação do Acre a Estado por considerá-lo eleitoreiro, já que no entendimento de Passos, o Território não tinha ‘sustentação econômica’.

“Os brasileiros do Acre demonstram, há mais de meio século, capacidade, decisão e bravura para repelir violentamente a dominação estrangeira. Se essas qualidades tivessem sido convenientemente aproveitadas e orientadas na paz, como o foram na guerra, já que o Acre, por sem dúvida, estaria a brilhar na constelação dos Estados brasileiros, rico e próspero, hospitaleiro e feliz. Não houve este cuidado por parte de muitos dirigentes, impuseram-lhes o garrote da dominação dos homens pelos homens. Um feudo foi o que resultou de tanta bravura e esforço. […] Acorrentados pelo governo pela inevitável dependência econômica dificilmente poderão essas populações manifestar livremente a sua preferência política ou sequer a sua opinião sobre os detentores do poder local. Politicamente, o Acre e sua população nada lucrariam. […] A eleição do governador e da Assembleia Legislativa seria uma farsa. […] No momento presente como é público, a União entrega ao Acre mais de 300 milhões de cruzeiros por ano e arrecada, através das Mesas de Renda e Coletorias, apenas 3 ou 4 milhões. Com a emancipação do Território, a União não fornecerá mais essas verbas. […] Os 300 milhões terão que ser arrancados do próprio povo acreano”.

Oscar Passos. Considerações sobre a Autonomia do Território do Acre. In: BEZERRA, Maria José. Dossiê – Acervo: Guiomard Santos (Acre). Elevação do Acre a Estado. Rio Branco: Globo, 1982, p. 61-65

Vista aérea da área onde hoje é a Praça da Revolução, o quartel da Polícia Militar do Estado do Acre e a Prefeitura de Rio Branco Foto: CDIH

Para Bezerra, o pensamento liberal de Oscar Passos, ao criticar o projeto de elevação do Acre a Estado é pertinente. “Em primeiro lugar, nos anos 1950, com a crise da borracha pós-guerra, o Acre dependia quase que inteiramente dos recursos financeiros do governo federal, sendo o governo, como ainda é na atualidade, o maior empregador”.

Rua 17 de novembro, no Segundo Distrito de Rio Branco, durante a cheia do rio Acre, hoje a rua Senador Eduardo Assmar Foto: Acervo/Museu da Borracha

“Porém, embora o projeto do Guiomard Santos tenha sido gestado de cima para baixo, ele buscou o referendo popular a partir da compreensão de que cabia aos representantes do poder político ‘guiar e instruir o povo’. Este era o papel do intelectual, do Estado, das instituições. A sua visão ideológica e política não admitia o conflito e a sociedade deveria ser harmônica e integradora”, completa a pesquisadora.

Governador José Augusto de Araújo Foto: Acervo/CDIH

Jovem cruzeirense, professor e ex-militante da União Nacional dos Estudante, José Augusto de Araújo era eleito para o cargo de primeiro governador do Acre constitucional. Paralelo a isso, “a elevação do Acre a Estado significaria, naquela conjuntura, a possibilidade de viabilizar um projeto de desenvolvimento para a região”.

Em 1957, como parlamentar da Câmara dos Deputados, Guiomard Santos incorporaria, por meio de um projeto de lei, as discussões que começaram lá em 1954, dentro do Congresso Nacional e fora dele. Esta seria a segunda proposta de Santos, já que a primeira tinha sido em 54 enquanto governador constitucional.

Sede do Congresso Nacional nos anos 1950 Foto: Acervo Câmara dos Deputados

Foi a partir de 1956 que os defensores do projeto de lei de Santos, que ganhara ainda mais visibilidade em nível nacional, começaram a se reunir com os mais diversos segmentos sociais e tornaram comum a elaboração e  divulgação de manifestos, sobretudo, de autoria do Comitê Pró-Autonomia do Acre, que abre esta reportagem.

Casarão de seringalista em Sena Madureira; eles eram contra a elevação do Acre a Estado Foto: Acervo/CDHI

Contudo, em 1958, os debates seguiriam ainda mais acalorados com a oposição ao projeto de Santos – capitaneada por Oscar Passos líder do PTB local -, sendo projetados também pela imprensa nacional. De um lado, a Associação dos Seringalistas do Acre e a Associação dos Seringueiros do Território Federal do Acre criticavam com veemência a possibilidade de uma elevação a Estado por entenderem que ela traria “desordem à vida econômica, mormente com a criação de impostos estaduais, além dos já existentes”.

Prédio da Sociedade Sborba hoje completamente revitalizado Foto: Cedida

Do outro lado estavam outras instituições como a Sociedade Beneficente Operários de Rio Branco, que cumprimentava Santos, do PSD, “pelo passo decisivo para a nossa independência econômica dentre em breve”.

Presidente João Goulart, ao lado de Guiomard Santos, assina a Lei 4.070, que elevou o Acer a Estado em 1962 Foto: CDIH

Relata a professora Maria José Bezerra que no dia 5 de junho de 1962, o projeto de lei foi finalmente encaminhado ao presidente João Belchior Marques Goulart, pelo presidente do Senado Federal, Auro Moura Andrade, depois de meses de peregrinação pelos corredores do Congresso Nacional para análises e aprovações nas várias comissões. Neste mesmo dia, João Goulart “reconheceu o mérito do projeto e a sua importância para o desenvolvimento do Acre”, embora tenha apresentado veto parcial sobre algumas questões.

Da esquerda para a direita, Guiomard Santos, o presidente João Goulart e o primeiro ministro Tancredo Neves, na ocasião da sanção da Lei 4.070, de 15 de junho de 1962 que elevou o Acre a Estado Foto: Acervo Digital/Memorial dos Autonomistas

Mas  neste mesmo dia, em solenidade no Palácio do Planalto, na tarde de 15 de junho de 1962, o presidente João Goulart sancionava a Lei 4.070 que elevava o Território do Acre a Estado. O Acre se tornava definitivamente Estado.

Continuar lendo

ACRE

Governador saúda acreanos em vídeo pelo aniversário de 59 anos do Acre

Publicado

em

Por

Bom dia, meus amigos!

Hoje comemoramos o aniversário de todos nós, do nosso amado Acre!

A criação do Acre-Estado foi um divisor de águas na história do nosso povo.

Temos uma das mais belas histórias de garra, brasilidade e determinação que o nosso país pode contar.

O Acre que hoje completa 59 anos, comemora o seu passado e se enche de confiança para o futuro. E esses novos dias que se desenham em nossa história deverão construir um novo amanhã: mais humano, mais justo e mais desenvolvido. Parabéns Acre pelos seus 59 anos!

Continuar lendo

ACRE

Feriado de calor e sol forte em todo Acre, segundo Sipam

Publicado

em

Por

O Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) prevê que a terça-feira (15) será de sol forte e calor em todo o Acre. A previsão é de um dia de céu claro a parcialmente nublado em todo o estado. No oeste há possibilidade de chuva rápida e isolada à tarde. Na capital e demais regiões do estado não há previsão de chuva.

Confira as temperaturas em todas as regiões:

Alto Acre

Em Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia e Xapuri, as temperaturas oscilam entre a mínima de 19°C e a máxima de 32ºC.

Baixo Acre

Mínima de 20°C e máxima de 32ºC são as temperaturas registradas em Acrelândia, Bujari, Capixaba, Plácido de Castro, Porto Acre, Senador Guiomard e Rio Branco.

Vale do Juruá

Já em Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Rodrigues Alves os termômetros ficam entre 20ºC e 31°C.

Vale do Purus

Em Manoel Urbano, Santa Rosa do Purus e Sena Madureira faz entre 20º C e 31°C.

Vale do Tarauacá/Envira

Por fim, em Feijó, Jordão e Tarauacá a variação de temperatura fica entre a mínima de 21°C e a máxima de 31°C.

Com informações do G1 AC.

Continuar lendo

Trending

www.acrenews.com.br é uma publicação da Acrenews Comunicação

CNPJ: 40.304.331/0001-30

Endereço: Área rural, 204, Setor Barro Vermelho - CEP 69.923-899

Os artigos assinados não expressam a opinião deste site.

contato@acrenews.com.br

Copyright © 2021 Acre News. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por STECON Soluções Tecnológicas