CULTURA & ENTRETENIMENTO
Artigo do jornalista Freud Antunes: As pessoas ainda ouvem rádio?

Por Freud Antunes
Um móvel que, há mais de 100 anos, figurava como equipamento central da sala das casas, decorado com toalhas e outros adereços como símbolo de status, era o instrumento que transmitia músicas, as principais novelas e programas. Há até o emblemático caso em que uma encenação causou pânico geral na população americana: a transmissão de “A Guerra dos Mundos”, uma história sobre invasão alienígena.
Esse aparelho, que conectou pessoas até mesmo durante as guerras, tornando-se um dos símbolos de resistência, foi aperfeiçoado, trocou válvulas por transistores, tornou-se portátil, transformou-se em pequenos estojos dentro de carros e foi adotado como eletrônico de bolso, até sumir de forma explícita das residências e das lojas de eletrodomésticos para ir parar dentro de outros equipamentos e aplicativos, como celulares e computadores.
Nessa mudança tecnológica, o rádio não ficou no passado; o meio de comunicação não morreu, apenas se transformou. A prova disso é o estudo da Kantar IBOPE Media, que constatou que 79% dos brasileiros continuam ouvindo rádio.
Hoje, apenas o tradicional “dial” alcança 70% da população, sem contar as plataformas de _streaming_, agregadores, aplicativos próprios das emissoras e redes sociais. Assim, enquanto a TV passou a sofrer uma forte concorrência da internet, a radiofonia ainda mantém um público cativo, o que também se reflete na atual corrida para a abertura de novas emissoras e no próprio dinamismo da Frequência Modulada (FM).
Mesmo sendo um veículo tão popular, ainda hoje recebo a seguinte pergunta: “As pessoas ainda ouvem rádio?”
Bom, a explicação acima já responde em parte, mas o que torna esse questionamento tão comum?
A resposta reside na portabilidade, que transformou o rádio em algo tão onipresente que virou um recurso integrado a outras tecnologias. Hoje, basta chamar a Alexa e pedir para reproduzir um programa específico, batizado com o nome moderno de _podcast_, ou sintonizar uma rádio ao vivo. Além disso, as pessoas continuam dando a partida no carro e, automaticamente, o som começa a tocar.
Uma maneira prática de responder à pergunta “as pessoas ainda ouvem rádio?” é entrar em um veículo cujo aparelho esteja danificado ou tenha sido retirado para reparo. A ausência é sentida de imediato, pois nos acostumamos a viver como no cinema, onde a trilha sonora dita o ritmo das emoções: empatia, aproximação, suspense, ódio, amor ou rancor.
A isso somam-se mais dois fatores decisivos para a longevidade da radiofonia: a conexão afetiva com a música (ou a necessidade de companhia humana) e a praticidade de consumir o conteúdo enquanto se realizam outras tarefas, como lavar a louça ou limpar a casa.
Na maioria dos lares, o receptor tradicional deixou de ser um objeto central, mas a experiência do rádio se diluiu e se multiplicou em outros dispositivos, da televisão conectada ao computador. Essa tecnologia invisível permite que cada um monte sua própria trilha sonora diária, como se a pessoa estivesse estrelando a própria série de TV, adaptando músicas e vozes ao próprio estado de espírito. Ouvir rádio virou quase uma extensão dos nossos sentidos; quando o som cessa, o cotidiano perde um pouco do ritmo e beira o tédio.
Freud Antunes é historiador, radialista, jornalista, especialista em assessoria de imprensa e marketing político












