POLÍTICA
Em artigo, cirurgião dentista José Augusto Rocha diz que chegou a hora de trocar os projetos de Governo pelos de Estado, aqui no Acre

O Acre parou no tempo: a hora de substituir os projetos de governo por um verdadeiro projeto de Estado.
O Acre vive um paradoxo que salta aos olhos. Um estado com localização geográfica privilegiada, fazendo fronteira com o Peru e a Bolívia, próximo aos mercados do Pacífico e com enorme riqueza ambiental, continua figurando entre os menores mercados consumidores do país e com uma das economias menos diversificadas da Amazônia.
Durante vinte anos, os governos do PT defenderam a Florestania como modelo de desenvolvimento. O conceito ganhou reconhecimento nacional e internacional por colocar a preservação ambiental no centro das políticas públicas. Entretanto, permanece uma pergunta inevitável: esse modelo conseguiu transformar o potencial do Acre em prosperidade para sua população?
Ao mesmo tempo em que o discurso da preservação ganhava força, grandes projetos estruturantes deixaram de avançar. O sonho da ligação rodoviária entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru. Há muitos anos discute-se a construção de uma estrada de aproximadamente 230 quilômetros, que conectaria o Vale do Juruá à cidade peruana. Pucallpa possui acesso ao Rio Ucayali, integrado à hidrovia amazônica que alcança o Oceano Atlântico, além de conexões terrestres com a costa do Pacífico por meio da malha rodoviária peruana.
Para muitos acreanos, essa obra poderia representar uma transformação econômica para o Acre e principalmente o Vale do Juruá, ampliando o comércio, reduzindo custos logísticos e fortalecendo a integração internacional. No entanto, o projeto nunca saiu do papel. Para seus críticos, tornou-se quase uma lenda política: sempre lembrado em discursos, mas jamais concretizado. Ferrovias sequer entraram na agenda de investimentos. As hidrovias nunca foram plenamente estruturadas como alternativa logística. A malha rodoviária continua apresentando limitações que dificultam o transporte de pessoas e mercadorias.
Em 2019, iniciou-se um novo ciclo político com o governo de Gladson Cameli. Muitos esperavam uma mudança estrutural na infraestrutura e na integração econômica. No entanto, passados quase oito anos, o Acre ainda não dispõe de um grande corredor logístico internacional, continua sem ferrovia e permanece distante de um projeto capaz de transformá-lo em um eixo estratégico entre o Brasil e os países do Pacífico. O problema, portanto, parece ir além da alternância de partidos. O Acre ainda não construiu um verdadeiro projeto de Estado. Enquanto outros estados planejam seu futuro com investimentos em logística, industrialização, tecnologia e competitividade, nós continuamos presos a debates imediatos, disputas partidárias e promessas que atravessam décadas sem se concretizar.
Agora, às vésperas de mais uma eleição para o Governo do Estado, pesquisas apontam Mailza Assis, Alan Rick e Tião Bocalom entre os principais nomes da disputa. Independentemente de quem vença, o que realmente importa é a capacidade de apresentar um projeto que rompa com a repetição dos mesmos problemas. Ao ouvir os discursos apresentados até aqui, muitos eleitores manifestam a preocupação de que o Acre continue girando na mesma circunferência: a circunferência da mesmice, da política de curto prazo, da ausência de grandes projetos estruturantes e da falta de uma estratégia consistente para promover crescimento econômico, inovação e geração de oportunidades.
O Acre precisa de um governo que pense nas próximas décadas, e não apenas no próximo mandato. Um governo que una a classe política, o setor produtivo, as universidades, os trabalhadores e a sociedade em torno de um objetivo comum: transformar o Acre em um estado competitivo, integrado e economicamente forte. As políticas de assistência social cumprem um papel essencial para proteger famílias em situação de vulnerabilidade. No entanto, elas precisam caminhar ao lado de políticas capazes de promover emancipação econômica. O grande desafio é fazer com que cada vez mais famílias possam depender menos dos programas de transferência de renda porque conquistaram autonomia por meio do emprego, do empreendedorismo, da educação de qualidade e da qualificação profissional.
Esse princípio dialoga com um valor presente na tradição bíblica: o trabalho como instrumento de dignidade, responsabilidade e transformação da vida. Uma política pública verdadeiramente libertadora não se limita a aliviar a pobreza; ela cria condições para que as pessoas saiam dela. Isso significa investir em educação, infraestrutura, segurança pública, inovação, produção, crédito, industrialização e geração de emprego e renda.
O Acre possui riquezas naturais extraordinárias, posição geográfica estratégica e um povo trabalhador. O que ainda falta é um projeto de Estado que transforme esse potencial em desenvolvimento concreto. O futuro não será construído apenas com discursos, mas com planejamento, coragem política e decisões capazes de integrar o Acre ao Brasil e à América do Sul.
A eleição de 2026 representa mais do que a escolha de um novo governador. Ela representa a oportunidade de iniciar um novo ciclo de desenvolvimento. O desafio não é apenas mudar de governo; é mudar a forma de pensar o Estado. O Acre precisa deixar para trás a política da repetição e construir uma política de transformação, capaz de gerar liberdade econômica, prosperidade e esperança para as futuras gerações.
Dr. Augusto Rocha
Esp. em Gestão Pública, Gestão Hospitalar, Sociologia na educação e Teologia Cristã e Estudo Bíblico Avançado












