ESPORTE
Memórias das Copas – 6º capítulo

No capítulo anterior de “Memórias das Copas”, o leitor se deliciou com o bicampeonato da seleção brasileira na Copa do Chile, mas também leu a respeito do fracasso da seleção “Canarinha” no Mundial da Inglaterra (1966). Neste 6º capítulo, a coluna vai falar do tricampeonato brasileiro no México, em 1970, assim como da Copa de 1974, quando surgiu o Carrossel Holandês do lendário Cruyff, que acabou superado pelo pragmatismo tático alemão do líbero Franz Beckenbauer. Veja o resumo das duas Copas abaixo:
O Rei Pelé brilha e o Brasil é tricampeão
A Copa do Mundo de 1970 ocorreu de 31 de maio até 21 de junho, no México. Nas eliminatórias, 75 seleções brigaram por 16 vagas para o torneio, sendo nove delas europeias (União Soviética, Bélgica, Itália, Suécia, Inglaterra, Romênia, Tchecoslováquia, Alemanha Ocidental e Bulgária), cinco americanas (México, El Salvador, Uruguai, Brasil e Peru), uma asiática (Israel) e uma africana (Marrocos). As seleções de El Salvador, Israel e Marrocos faziam sua primeira participação na competição.
Esta Copa ficou marcada por vários lances geniais de Pelé que não terminaram em gol, como uma cabeçada defendida pelo goleiro inglês Gordon Banks — que ficou conhecida como a “Defesa do Século” —, o chute de antes do meio-de-campo contra o goleiro Viktor, da Tchecoslováquia — apelidado de “O Gol que Pelé não Fez” —, além de um drible de corpo desconcertante contra o goleiro uruguaio Mazurkiewicz.
Alemanha e Itália fizeram o “Jogo do Século”

Numa das semifinais desta Copa, ocorreu o chamado “Jogo do Século”, disputado entre as equipes da Alemanha Ocidental e da Itália. A partida permanecia em 1 a 0 para a Itália até os 90 minutos, quando Karl-Heinz Schnellinger empatou e levou a decisão para a prorrogação. No tempo extra, ambas as seleções protagonizaram uma sucessão emocionante de viradas de placar, até que a Itália firmou a vitória por 4 a 3.
Brasil faz 4 a 1 e conquista o tricampeonato diante da Azzurra

A final desta edição foi disputada pelo Brasil, que havia eliminado nas fases anteriores o Peru (4 a 2) e o Uruguai (3 a 1, com gols de Clodoaldo, Jairzinho e Rivelino); e pela Itália, que eliminara o México e a Alemanha Ocidental. A partida foi realizada em 21 de junho no Estádio Azteca, na Cidade do México, com um público estimado em 108 mil pessoas.
Sob o apito do árbitro alemão Rudolf Gloeckner, o primeiro tempo terminou empatado em 1 a 1. Ao final dos 90 minutos, o placar era de 4 a 1 para a equipe brasileira. O título do primeiro tricampeonato brasileiro serviu de propaganda política, já que o país estava no auge da ditadura militar. Pelé, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres marcaram os gols do Brasil; Roberto Boninsegna descontou para os italianos. O capitão Carlos Alberto Torres levantou a Taça Jules Rimet, entregue pela última vez em Copas, agora em caráter definitivo para o Brasil.

VEJA AS CURIOSIDADES
- Queda de Saldanha: Por pressão dos militares — leia-se do presidente Emílio Garrastazu Médici, que exigia a convocação do atacante Dadá Maravilha —, o técnico e jornalista esportivo João Saldanha deixou o comando da seleção brasileira três meses antes da Copa do México.
- Ineditismo de Zagallo e Pelé: O técnico brasileiro Mário Jorge Lobo Zagallo foi o primeiro futebolista a se tornar campeão mundial como jogador (1958 e 1962) e como técnico (1970). Já Pelé encerrou sua carreira em Copas do Mundo como o primeiro (e até hoje único) jogador a vencer três edições do torneio.
- O gol mais bonito: O gol de Carlos Alberto Torres, após uma obra-prima coletiva com passes da esquerda para o centro, é considerado pela BBC o gol mais bonito de todos os tempos. Dos onze jogadores do time brasileiro, dez tocaram na bola antes da finalização.
- O Furacão e o Artilheiro: Jairzinho marcou pelo menos um gol em cada um dos seis jogos do Brasil (no primeiro jogo, contra a Tchecoslováquia, ele marcou dois), um feito que até hoje não foi repetido. Porém, o artilheiro do torneio foi Gerd Müller, da Alemanha Ocidental, com dez gols. Müller conseguiu marcar hat-tricks (três gols) em dois jogos consecutivos: contra a Bulgária e contra o Peru, na fase de grupos.
- Mudanças nas regras: Pela primeira vez, substituições foram permitidas em Copas do Mundo. Cada time poderia fazer duas alterações durante o jogo. Esta Copa também foi a primeira a apresentar o uso dos cartões amarelo e vermelho para advertências e expulsões, respectivamente (vale notar que as advertências e expulsões já existiam antes de 1970, mas não em forma de cartão físico).
- Pool de transmissão: Os narradores das emissoras de televisão brasileiras que formaram o pool (Globo, Tupi, Bandeirantes e Record) foram José Geraldo Almeida, Walter Abrahão, Oduvaldo Cozzi e Fernando Solera.
- Contexto político: Durante o torneio, os grupos guerrilheiros Ação Libertadora Nacional (ALN) e Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) sequestraram o embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. Um segurança foi morto na ação, e o diplomata alemão foi liberado após 40 presos políticos serem banidos para a Argélia.
Alemanha bate o “Carrossel Holandês” e conquista o bi mundial da FIFA
A Copa do Mundo FIFA de 1974 ocorreu de 13 de junho até 7 de julho de 1974. O evento foi sediado na Alemanha Ocidental, que conquistou o título dentro de casa. Dezesseis seleções nacionais se qualificaram para participar desta edição do campeonato, sendo nove delas europeias (Alemanha Ocidental, Alemanha Oriental, Iugoslávia, Escócia, Holanda, Suécia, Bulgária, Polônia e Itália), cinco americanas (Chile, Brasil, Uruguai, Argentina e Haiti), uma africana (Zaire) e uma oceânica (Austrália). As seleções da Alemanha Oriental, da Austrália, do Haiti e do Zaire faziam sua primeira participação na competição.

A edição teve duas grandes goleadas: Haiti 0–7 Polônia e Iugoslávia 9–0 Zaire. Esta última figura, junto a Hungria 9–0 Coreia do Sul (em 1954) e Hungria 10–1 El Salvador (em 1982), entre as maiores goleadas da história das Copas do Mundo.
Holanda: “Laranja Mecânica ou Carrossel Holandês”
A grande revelação desta Copa foi a Seleção Holandesa de Futebol que, sob a batuta de Rinus Michels, voltou ao Mundial após 36 anos de ausência (sua última participação havia sido em 1938, na França). Utilizando como base o Ajax (campeão intercontinental em 1972) e o Feyenoord (campeão intercontinental em 1970), a seleção ficou conhecida como “Laranja Mecânica” e “Carrossel Holandês”, devido à tática inovadora de Michels de alternar constantemente os jogadores de posição. O grande destaque dessa equipe era Johan Cruyff, que atuava com genialidade tanto na defesa quanto no meio-campo ou no ataque.
Na final, a Alemanha vence a Holanda de virada por 2 a 1 e repete 1954
A final da Copa do Mundo FIFA de 1974 foi disputada entre a Holanda e a Alemanha Ocidental. A partida foi realizada em 7 de julho, às 16h, no Estádio Olímpico de Munique, com um público estimado em 75.200 pessoas. A Seleção Alemã, que contava com craques como Sepp Maier, Franz Beckenbauer e Gerd Müller, venceu de virada por 2 a 1. Neeskens marcou para a Holanda, enquanto Breitner e Gerd Müller anotaram os gols da vitória alemã.

Apesar do vice-campeonato, o holandês Johan Cruyff foi eleito o melhor jogador da competição. O craque liderou as estatísticas do torneio com mais dribles certos (34), chances criadas (36) e passes certos no terço final de campo (136).
Inovações: O mundial foi transmitido em cores pela TV para 70 países e foi a primeira Copa do Mundo onde os jogadores começaram a usar números nos calções.
Brasil joga futebol retranqueiro e termina em 4º lugar
O Brasil, sem Pelé, Gérson, Carlos Alberto Torres, Tostão e Clodoaldo, não era nem sombra do supertime de 1970. Jogando um futebol puramente defensivo, o time suou para empatar sem gols contra a Iugoslávia e a Escócia, e para ganhar do Zaire por 3 a 0, conseguindo a classificação no limite.

Na segunda fase, o Brasil venceu a Alemanha Oriental (1 a 0) e a Argentina (2 a 1), mas perdeu a vaga na decisão ao ser superado pela Holanda por 2 a 0. Restou ao Brasil disputar o terceiro lugar da Copa, jogo no qual acabou derrotado pela Polônia por 1 a 0, com gol de Lato, que se sagrou o artilheiro do torneio com 7 gols.

VEJA AS CURIOSIDADES DA COPA DE 1974
- 1ª) Promessa e confisco: Pela classificação inédita para a Copa do Mundo, todos os jogadores do Zaire (atual República Democrática do Congo) receberam do governo de seu país uma casa e um automóvel como prêmio. No entanto, devido à péssima campanha no Mundial, os prêmios foram confiscados mais tarde. O Zaire perdeu para a Escócia por 2 a 0, para a Iugoslávia por 9 a 0 e para o Brasil por 3 a 0.
- 2ª) Fim da invencibilidade de Zoff: Último colocado no grupo D com três derrotas, a equipe do Haiti ao menos teve um motivo para se orgulhar: ao marcar seu único gol na derrota por 3 a 1 diante da Itália, quebrou a histórica invencibilidade do goleiro Dino Zoff. Ele estava há 1.142 minutos sem sofrer gols (desde 1972). A façanha coube ao atacante Emmanuel Sanon (falecido em 2008).
- 3ª) Jogo estratégico entre as Alemanhas: Na única vez em que as duas Alemanhas se enfrentaram em uma Copa do Mundo, a Alemanha Ocidental perdeu para a Seleção da Alemanha Oriental por 1 a 0. Especula-se que o resultado foi estratégico para evitar cair no temido grupo de Brasil e Holanda na segunda fase da Copa.
- 4ª) Infortúnio escocês: A Escócia se tornou a primeira seleção a ser eliminada na primeira fase sem perder um só jogo (uma vitória e dois empates). Curiosamente, ela terminou como a única equipe invicta de todo o torneio.
- 5ª) O primeiro cartão vermelho físico: Embora as expulsões já existissem, foi nesta edição que houve a estreia do cartão vermelho físico. A primeira vítima dele na história das Copas foi o atacante chileno Carlos Caszely, expulso aos 22 minutos do segundo tempo no jogo entre Alemanha Ocidental e Chile.
- 6ª) Primeiro caso de doping: Esse foi também o Mundial em que ocorreu o primeiro caso oficial de doping na história do torneio. O fato envolveu o zagueiro do Haiti, Ernst Jean-Joseph, logo após a partida em que sua seleção foi goleada pela Polônia por 7 a 0.
- 7ª) Premiações distintas: Pela conquista da Copa do Mundo, cada jogador alemão ganhou um prêmio de 50 mil dólares e um Fusca 0 km. Já cada jogador holandês recebeu 100 mil dólares, apesar de ter ficado com o vice-campeonato.
















