RAIMUNDO FERREIRA
Professor Raimundo Ferreira escreve sobre a civilização Inca em sua coluna deste domingo, 14
CIVILIZAÇÃO INCA – BREVE HISTÓRICO
Mesmo sem os recursos da escrita e sem o conhecimento técnico formal, a civilização inca sobreviveu por mais de quatro séculos, com núcleos distribuídos desde o Equador, passando pelo Peru, Bolívia e Chile, até chegar à Argentina. Esse povo vizinho, aqui da América do Sul, além da extraordinária capacidade de sobrevivência em locais inóspitos, era detentor de uma sólida sabedoria natural, alicerçada na fé e na perseverança.
Hoje, apesar de acreditarmos ter avançado em conhecimentos técnicos e científicos, dificilmente seríamos capazes de compreender as leis e os fenômenos da natureza da forma como eles compreendiam, nem de edificar obras arquitetônicas tão complexas e perfeitas em condições tão adversas. Essas construções, inclusive, continuam intrigando estudiosos e visitantes.
Quem tem a oportunidade de conhecer as ruínas dessa civilização fica profundamente impressionado. Mais surpreendente ainda é saber que existem vestígios desse povo em locais de difícil acesso que permanecem pouco explorados.
A misteriosa história dessa civilização, segundo uma das lendas, teve origem na missão confiada aos irmãos Ayar, filhos do deus Viracocha, para encontrar terras férteis. Ayar Cachi, Ayar Uchu, Ayar Auca e Ayar Manco receberam uma espada de pedra lapidada e partiram da caverna de Pacaritambo, acompanhados de suas esposas, com a missão de fincar a espada onde encontrassem terras férteis.
Após longas jornadas por diversas localidades, várias tentativas de fixação e inúmeros conflitos, os irmãos foram desaparecendo até que apenas Ayar Manco e as mulheres chegaram a Cusco. Ao perceber que havia encontrado a terra procurada, fincou a espada no solo e anunciou que aquele era o local destinado à fundação de sua nova sociedade.
As lendas apresentam os acontecimentos de forma bastante mágica. Podemos até formular hipóteses sobre os fatos, mas as narrativas são diretas: aconteceu dessa forma e pronto.
Segundo a tradição, Ayar Manco instalou-se na região e, juntamente com sua esposa e suas cunhadas, fundou a civilização inca, tornando-se o primeiro rei sob o nome de Manco Cápac.
Uma segunda lenda, que se entrelaça à primeira, conta que o Deus Sol, percebendo que os homens viviam na ignorância e na tristeza, enviou seu filho Manco Cápac e sua esposa, Mama Ocllo, para civilizar o mundo e ensinar a adoração ao Sol, considerado o centro dourado da Terra.
De maneira extraordinária, Manco Cápac e Mama Ocllo teriam emergido das águas geladas do Lago Titicaca e, após uma longa caminhada, chegaram a Cusco. No morro Huanacauri, indicaram que aquele era o local da terra fértil e estabeleceram ali homens, mulheres e crianças da nação inca.
A versão histórica acrescenta poucas informações além de indicar que os incas vieram da região do Altiplano, entre Peru e Bolívia, fugindo das ameaças dos povos aimarás e collas. Manco Cápac, ao constatar que Cusco era realmente a terra ideal, aliou-se aos quíchuas, organizou uma sociedade estruturada e iniciou a expansão de seus domínios. A partir do século XIII, a civilização inca começou a se consolidar como uma grande nação.
A religião era politeísta, baseada na adoração de diversos deuses associados à natureza, como o Sol, a Lua, os rios e os ventos. Os rituais incluíam oferendas e, em determinadas ocasiões, sacrifícios. O sangue era considerado símbolo máximo de força e devoção, utilizado para agradecer boas colheitas ou pedir períodos favoráveis de chuva.
A religiosidade permeava praticamente todos os aspectos da vida cotidiana. É provável que, diante da ausência de um sistema formal de ensino, o temor aos castigos divinos e a fé tenham contribuído para moldar os valores morais da sociedade.
Os rituais religiosos eram levados tão a sério que, antes de uma batalha, representantes dos exércitos rivais reuniam-se para realizar cerimônias e orações. Somente após esses procedimentos os combates tinham início. Havia ainda regras de guerra que proibiam ataques noturnos durante o período de descanso do inimigo.
Para se comunicar, os incas utilizavam o idioma quéchua.
Quanto às normas de convivência, os indivíduos eram avaliados principalmente pela dedicação ao trabalho e pela honestidade. Não se admitiam preguiça, desonestidade ou desrespeito às obrigações religiosas. Havia punições severas para os infratores.
A recusa ao trabalho era considerada uma das faltas mais graves. Além dos castigos, o indivíduo podia ser excluído socialmente e deixava de ser reconhecido como membro ativo da comunidade. Há relatos de filhos de governantes que, por não contribuírem para a coletividade, sequer foram registrados entre os membros importantes da dinastia.
Esses princípios eram tão valorizados que, ao se cumprimentarem, os incas costumavam dizer algo equivalente a: “Trabalhe, seja honesto e respeite os deuses”.
Apesar dos méritos de Manco Cápac, seu governo e o de seus sucessores imediatos não exploraram plenamente o potencial econômico da região. Ainda assim, a dinastia manteve-se no poder até aproximadamente 1430, quando surgiu o grande governante Pachacútec.
Considerado uma combinação de rei e divindade, o Sapa Inca Pachacútec promoveu profundas transformações políticas, econômicas e urbanísticas. A ele é atribuída a construção de Machu Picchu e o período de maior prosperidade do Império Inca.
Seu sucessor foi Túpac Yupanqui, que deu continuidade à expansão territorial. Posteriormente, Huayna Cápac ampliou ainda mais os domínios do império, que chegou a aproximadamente dois milhões de quilômetros quadrados e cerca de doze milhões de habitantes, distribuídos entre mais de duzentos povos.
Nessa época, o império se estendia do atual Equador ao norte da Argentina, abrangendo territórios do Peru, Bolívia, Chile e partes da Colômbia, além de alcançar áreas da floresta amazônica.
Entretanto, a disputa pelo poder provocou uma grave crise sucessória. Huáscar proclamou-se governante em Cusco, enquanto seu irmão Atahualpa estabeleceu-se em Quito e reivindicou o trono. Iniciou-se então uma sangrenta guerra civil.
As batalhas foram numerosas e causaram milhares de mortes. Estima-se que o conflito tenha provocado entre sessenta mil e mais de um milhão de vítimas.
Ao final, Atahualpa venceu. Huáscar foi capturado e executado, e seu corpo lançado a um rio.
Enquanto seguia para Cusco para ser coroado, Atahualpa recebeu notícias sobre a presença de homens estranhos, brancos e barbudos, em Cajamarca. Tratava-se dos espanhóis liderados por Francisco Pizarro.
Acreditando tratar-se de um encontro diplomático, Atahualpa compareceu acompanhado apenas de uma pequena comitiva. Os espanhóis, embora em número reduzido, possuíam armamentos superiores e aproveitaram o fator surpresa para capturá-lo em 1532.
Além disso, os incas estavam enfraquecidos pela guerra civil e pelas epidemias de gripe, varíola, sarampo e febre tifoide, doenças trazidas pelos europeus.
Preso pelos conquistadores, Atahualpa ofereceu um resgate extraordinário: prometeu encher um cômodo de ouro e outro, ainda maior, de prata em troca de sua liberdade. Os espanhóis aceitaram a proposta e receberam os metais preciosos.
No entanto, descumpriram o acordo. Após um julgamento forjado, condenaram Atahualpa à morte. Ele foi executado por estrangulamento com um garrote e seu corpo foi exposto publicamente como forma de intimidação.
Mesmo assim, a resistência inca continuou. Muitos povos ainda lutavam contra os invasores, enquanto a divisão interna entre as regiões de Cusco e Quito permanecia viva.
Buscando reorganizar a resistência, Manco Inca, outro filho de Huayna Cápac, reuniu a nobreza inca e estabeleceu-se em Vilcabamba, uma região de densa floresta. Dali, declarou guerra aos espanhóis.
Os combates prolongaram-se por cerca de quarenta anos. Finalmente, em 1572, os espanhóis capturaram e executaram Túpac Amaru I, último líder rebelde de Vilcabamba.
Com sua morte, chegou ao fim o poder político da civilização inca, encerrando-se um dos mais extraordinários capítulos da história da América do Sul.











