GOSPEL
Uma foto de meados dos anos 1960 inspirou o jornalista Altino Machado a trazer a tona detalhes da vida de Irineu Serra, fundador do Daime

UMA IMAGEM E ALGUMAS VERDADES NECESSÁRIAS
Nesta fotografia histórica, provavelmente de meados da década de 1960, aparecem o capitão da Guarda do Território Federal e ex-deputado estadual constituinte do Acre, Eloy Abud, acompanhado de familiares e assessores, em visita ao casal Raimundo Irineu Serra (1892-1971) e Peregrina Gomes Serra (1937), no Alto Santo. A criança é Crispim Serra, filho do saudoso João Serra, sobrinho de Irineu.
Mestre Irineu fundou, em 1930, no bairro Vila Ivonete, o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal. Apartir de 1945, estabeleceu-se definitivamente no lugar hoje conhecido como Alto Santo.
Irineu e Peregrina Serra são os dois principais mensageiros de uma doutrina cristã e esotérica, revelada à luz da ayahuasca, bebida que ele denominou Daime — e não Santo Daime, embora esta expressão apareça no Decreto de Serviço, lido antes e depois das sessões de concentração.
São oito os hinários que regem a doutrina: “O Cruzeiro”, de Raimundo Irineu Serra, base das instruções doutrinárias; “O Ramalho”, de Raimundo Gomes da Silva; “O Amor Divino”, de Antônio Gomes da Silva; “Vós Sois Baliza”, de Germano Guilherme; “O Mensageiro”, de Maria ‘Damião’ Marques Vieira; “6 de Janeiro”, de João Pereira; “A Condessa”, de Zulmira Gomes do Nascimento; e “A Bandeira”, de Peregrina Gomes Serra.
Nas centenas de hinos que compõem esses oito hinários, digamos canônicos, não aparecem as expressões “igreja” ou “Santo Daime”. Em todos eles, porém, há referência permanente aos dois grandes mensageiros da doutrina.
Também convém corrigir outra informação repetida sem rigor: Mestre Irineu não media mais de dois metros. Sua altura era de 1,92 metro, conforme o testemunho de dona Peregrina e o registro constante de sua ficha no Instituto de Identificação.
Outra inverdade, tantas vezes propagada, é a de que Mestre Irineu teria conhecido a ayahuasca por intermédio de indígenas.
Raimundo Irineu Serra chegou ao Acre em 1913, movido pelo sonho de melhorar de vida no trabalho do corte da seringa. Ao chegar a Brasileia, procurou Antônio e André Costa, seus conterrâneos de São Vicente Ferrer, no Maranhão.
Os irmãos Antonio e André lideravam uma organização denominada Círculo Regeneração e Fé, também uma sociedade esotérica. Após a primeira experiência de Irineu Serra com a ayahuasca, Antônio Costa lhe comunicou que havia aparecido uma mulher chamada Clara, dizendo tê-lo acompanhado durante toda a viagem do Maranhão ao Acre. Disse ainda que ele se preparasse, pois ela queria conversar com ele.
Há outros detalhes dessa verdadeira história que não cabem aqui, inclusive por limitação de espaço. O essencial, porém, é registrar que aquela mulher foi quem o guiou.
É por ser uma doutrina esotérica, nascida e preservada em um centro igualmente esotérico, que quem frequenta o Alto Santo não deve convidar pessoas para sessões de concentração — ou mentalização — nem para hinários. Trata-se de uma determinação deixada por Raimundo Irineu Serra e Peregrina Gomes Serra, guardiões maiores dessa tradição.
Em 1915, um jornal de Brasileia fez o seguinte registro:
“No dia 10 de Novembro passou o anniversário do Circulo Regeneração e Fé, sociedade esoterica que tem a sua séde nesta cidade.
Houve sessão solemne que se seguiu de um lauto pic-nic á sombra das arvores do aprazivel Bosque.
A escassez de espaço não permitte dar uma noticia circumstanciada de tão agradavel festa.
Registro, porem, as gentilezas de que foram alvo os convidados por parte dos senhores Antonio e André Costa, Alfredo Lins, Alvaro de Carvalho e Cordeiro Barbosa, distinctos membros daquella bensquista associação.”
Foto: Acervo do Alto Santo












