ESPORTE
Extremidades e outros lados

Existiu uma época no futebol em que os treinadores orientavam os seus comandados para atacarem pelas pontas. Os melhores caminhos para se chegar ao gol inimigo passavam pelas extremidades. E a melhor jogada era aquela em que os ponteiros iam à linha de fundo e cruzavam para a área.
Levando-se em conta que esses caminhos pelas extremidades eram um tanto exíguos, dada a proximidade com as laterais do campo, então os ponteiros precisavam ser criaturas habilidosas ou velozes. De preferência, as duas coisas ao mesmo tempo: dribladores e velocistas. Bem assim mesmo.
E então, por força das circunstâncias, na extrema direita do campo apareceram super craques como, entre muitos outros, Garrincha (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Julinho Botelho (Portuguesa de Desportos e Palmeiras), Cafuringa (Fluminense), Gil (Fluminense), Dorval (Santos) etc.
Igualmente, por conta das circunstâncias, na extrema esquerda do campo apareceram gênios como Canhoteiro (São Paulo), Edu (Santos), Pepe (Santos), Éder (Atlético Mineiro), Júlio César (Flamengo), Chico (Vasco), Lula (Fluminense) e Escurinho (Fluminense). Esses e vários outros mais.
Garrincha, todo mundo sabe, foi o grande artífice do bicampeonato do Brasil, em 1962, no Chile. Com Pelé machucado no segundo dos seis jogos daquele torneio, coube ao Mané desmontar os esquemas defensivos dos adversários. Jogou tanto que ganhou o apelido de “Gênio das Pernas Tortas”.
No título seguinte, em 1970, coube a Jairzinho destruir as pretensões daqueles que a tabela fez cruzar com o Brasil. Marcando gols em todos os jogos daquele mundial, driblando em altíssima velocidade, aplaudido pela torcida e pela mídia, ele foi com justiça chamado de “O Furacão da Copa”.
Isso em se tratando do pessoal da extrema direita. Enquanto que do lado oposto, com a turma da extrema esquerda, conta-se que Canhoteiro teria sido o Garrincha canhoto. Só não brilhou mais por conta da má vontade de alguns treinadores que decidiram deixá-lo de fora da história das copas.
E o Júlio César, do Flamengo, apesar de também não ter ido a nenhum mundial, driblava tanto que ganhou o apelido de Uri Geller, em alusão a um israelense que entortava talheres com a força do pensamento. Uri Geller entortava metais e Júlio César entortava os laterais. Muito boa comparação!
No futebol moderno, porém, apesar dos extremas ainda serem importantes, os treinadores preferem ocupar os espaços do meio do campo. Permitem, ainda, de vez em quando, umas estocadas por um lado ou por outro. Mas só raramente. Nada tão radical. Como na política. Ou não?










