Mudanças repentinas de memória e comportamento exigem diagnóstico precoce; suporte familiar e rede de apoio são fundamentais no tratamento.
RIO BRANCO (AC) — O diagnóstico de Alzheimer transforma não apenas a vida do paciente, mas reconfigura toda a dinâmica e a rotina da estrutura familiar. No contexto do Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença de Alzheimer, comemorado neste mês de setembro, médicos e especialistas fazem um alerta sobre a importância de identificar os primeiros sintomas e adotar estratégias eficientes de cuidado.
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta a memória, o raciocínio, a linguagem e a capacidade de realizar tarefas do dia a dia. Segundo especialistas, o esquecimento de fatos recentes — e não apenas de memórias antigas — costuma ser o primeiro sinal visível, frequentemente acompanhado por confusão mental, desorientação no tempo e no espaço, e alterações no humor ou na personalidade.
Diagnóstico foi assustador
Para Paula, receber o diagnóstico da mãe, em 2014, foi um momento de medo e incerteza. “Foi muito assustador e preocupante, pois não conhecíamos a doença e não sabíamos o que viria pela frente”, destacou a arquiteta.
À época, Marlene ainda mantinha parte da autonomia. Trabalhava, cuidava da casa, cozinhava e ajudava a cuidar dos filhos e dos netos, contudo, com o avanço da doença, atividades que antes eram simples passaram a exigir acompanhamento.
Como morava com a mãe, Paula precisou aumentar a presença em casa, principalmente nos horários em que a cuidadora não estava. “Já não podia deixá-la sozinha, porque estava se tornando perigoso. Coisas simples como gás, escada, portão, poderiam ser um perigo para ela se estivesse sozinha”, relata.
Inversão de papéis
Uma das mudanças mais difíceis para Paula foi perceber que a mãe, que durante toda a vida havia cuidado da família, passou a precisar de ajuda para tarefas básicas.
“É muito difícil você ver a pessoa que te ensinou tudo na vida não saber mais fazer o básico, o essencial”, lamenta.
No início, a família tentava fazer com que Marlene entendesse quando estava cometendo algum erro. Com o avanço da doença, porém, perceberam que discutir ou cobrar comportamentos anteriores só aumentava o desgaste.
“No começo você quer brigar, fazer a pessoa entender que aquilo está errado, mas quando entendemos que a pessoa está doente e que, diferente de uma criança, ela não vai aprender mais nada, só vai regredir em tudo, não tem mais volta, aí começamos a lidar com mais amor”, afirma.
Compreender a doença é uma etapa fundamental para mudar a maneira de cuidar do familiar. “A partir do momento que entendi que minha mãe só precisava de amor e carinho, que não adiantava querer que ela voltasse a ser como era, tudo ficou mais leve”, acrescenta Paula.
O que pode ser feito para reduzir os riscos?
O neurocirurgião Luan Messias Magalhães destaca que não existe uma medida isolada capaz de impedir o Alzheimer, mas alguns hábitos estão associados à redução do risco de demência e à preservação da capacidade funcional. Entre eles estão:
Controlar pressão arterial, diabetes e colesterol;
Praticar atividade física regularmente;
Não fumar;
Evitar consumo excessivo de álcool;
Manter uma alimentação saudável;
Dormir bem;
Tratar depressão;
Manter contato social;
Ler, estudar e realizar atividades que estimulem o cérebro;
Manter atividades manuais, música e jogos.
“O que mais tem respaldo é um conjunto de hábitos, e não uma medida isolada. Sempre falo aos pacientes que a atividade física aparece de forma recorrente entre as medidas importantes tanto para prevenção quanto para manutenção da autonomia”, explica o neurologista.
O diagnóstico começa com uma conversa detalhada entre médico, paciente e familiares. O profissional busca identificar quando os sintomas começaram, como evoluíram e de que maneira estão interferindo na vida cotidiana.
Além disso, também podem ser feito testes de memória, exames de sangue e de imagem, como tomografia ou ressonância magnética. Esses exames ajudam a investigar outras possíveis causas para alterações cognitivas, como deficiência de vitaminas e até depressão.
Sinais de Alerta Mais Comuns:
Perda de memória recente: Esquecer informações recém-aprendidas ou datas e eventos importantes.
Dificuldade de planejamento: Problemas para seguir uma receita familiar ou gerenciar as contas da casa.
Desorientação espacial e temporal: Perder-se em caminhos conhecidos ou esquecer a estação ou o ano atual.
Mudanças de humor e comportamento: Aumento de ansiedade, apatia, isolamento social ou agressividade repentina.
Desafios e Recomendações para os Cuidadores
Com o avanço da doença, a rotina familiar passa por uma adaptação profunda. Médicos ressaltam que o acolhimento exige paciência, estabelecimento de uma rotina estruturada e, acima de tudo, atenção à saúde mental dos próprios cuidadores.
Entre as recomendações essenciais para o manejo da rotina estão a manutenção de horários fixos para refeições e sono, a eliminação de obstáculos na residência para evitar quedas, e o estímulo constante à autonomia do paciente dentro de suas limitações.
O diagnóstico precoce possibilita o início do tratamento medicamentoso e das terapias de apoio (como fisioterapia e terapia ocupacional), retardando a progressão dos sintomas e garantindo maior qualidade de vida ao paciente e aos seus familiares.