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Gabriel Rasteli

Gabriel Rasteli escreve sobre os “especialistas à distância” na coluna desta terça-feira

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ESPECIALISTAS À DISTÂNCIA

A expressão individual é genuína — ela pode ser corporal, vocal, artística ou performática. Resulta de algo que vem de dentro, do nosso jeito de ser e de levar a vida.

Nós nos expressamos porque queremos nos comunicar. Porque somos seres gregários, ou seja, temos a necessidade de viver em comunidade, de pertencer a um grupo. É, Aristóteles sabia o que dizia.

Mais de dois mil anos se passaram e vivemos em um mundo altamente tecnológico, onde, basicamente, qualquer pessoa tem o poder de se comunicar em massa por meio das redes sociais. Hoje, você pode expor sua opinião sobre praticamente qualquer coisa. Ultimamente, não tem sido uma boa ideia expor o que pensamos sobre alguns tribunais de caráter supremo — se é que você me entende.

O fato é que, anteriormente, para emitirmos uma opinião publicamente, precisávamos ter acesso a um veículo de propagação da informação. As informações que recebíamos vinham dos jornais impressos, do rádio, da televisão ou da leitura de livros e revistas. Desse modo, o poder da comunicação estava, em grande parte, nas mãos de profissionais e especialistas.

Porém, hoje o alcance da mídia é muito maior. Cada pessoa com um smartphone e acesso à internet tem o poder de falar para multidões. E você sabe, né? “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Hoje temos um canal aberto para falar com nossos seguidores por meio do que compartilhamos — reels, posts, stories —, do que repostamos e dos comentários que fazemos na web.

Infelizmente, responsabilidade nem sempre é uma marca presente na internet. Não à toa, as fake news surgem e se propagam aos montes. Aconteceram até nas campanhas eleitorais.

Em meio a tantas vozes, precisamos aprender a ouvir a voz da verdade. A voz dos fatos. A voz que não muda de acordo com a camisa que veste ou com a filosofia política que defende.

O desejo de se expressar nos dá o sinal verde para emitir nossa opinião. Mas nem todos têm o cuidado de falar sobre aquilo que realmente entendem. Muitos apenas falam por falar. Talvez porque nunca tenham sido ouvidos antes — como aquela criança que pega o microfone, ouve a própria voz ecoar, toma gosto e continua falando o que dá na telha.

O mesmo acontece nas redes sociais: um descontrole de usuários em que muitos opinam sobre aquilo que desconhecem, gerando discussões vazias e, muitas vezes, sem cabimento algum.

E aqui existe uma diferença importante: todos temos o direito de opinar, mas isso não significa que toda opinião tenha o mesmo peso. Ter uma opinião não nos transforma automaticamente em especialistas.

Antes de entrar em alguma polêmica digital, pense, repense, reflita: vale a pena? Vale o seu tempo? Vale a sua paz? Não quero desencorajá-lo de emitir sua opinião. Longe disso. Trata-se apenas de exercitarmos um senso mais crítico conosco antes de falarmos.

Hoje está na moda a chamada “escuta ativa”, a habilidade de ouvir alguém com atenção total, sem julgamentos apressados. Há cerca de dois mil anos, Tiago já falava sobre isso: “sejam prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se.”

Nem sempre estamos lendo ou ouvindo um especialista de fato. Às vezes, estamos apenas diante de um especialista à distância. Por isso, cuidado com o conteúdo que você consome. Reconheça os limites do que você sabe. Questione, pesquise.

Porque, no fim das contas, você também faz parte disso.

 

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