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Finados deve levar mais de 40 mil pessoas aos cemitérios de Rio Branco; entre túmulos, fé e saudade, Acre preserva histórias de mais de um século
Mais de 40 mil pessoas são esperadas nos quatro cemitérios públicos de Rio Branco na próxima segunda-feira, 2 de novembro, Dia de Finados. Somente o São João Batista, o mais antigo da capital, deverá receber entre 30 mil e 35 mil visitantes. Em todo o Acre, a data mobiliza famílias dos 22 municípios, que transformam cemitérios em lugares de reencontro com a memória, de homenagens aos parentes e de manifestações de fé. Entre os destinos de devoção popular está o túmulo de um seringueiro conhecido como Artur, cuja morte, na década de 1940, deu origem à tradição da Cruz Milagrosa.
Flores, velas, orações e fotografias compõem uma paisagem que se repete anualmente. Para muitos visitantes, Finados é a única ocasião do ano em que toda a família se reúne diante de uma sepultura. Para outros, a visita faz parte de uma rotina de cuidado que atravessa décadas. Há também quem procure os cemitérios não apenas para recordar familiares, mas para agradecer graças que acredita ter recebido.
A estrutura cemiterial da capital ajuda a dimensionar essa tradição. Segundo o Relatório Anual de Gestão de 2024 da Secretaria Municipal de Cuidados com a Cidade, Rio Branco possui cinco cemitérios identificados oficialmente: quatro públicos — São João Batista, Jardim da Saudade, São Francisco e Cruz Milagrosa — e um particular, o Morada da Paz. O documento apresenta informações sobre a história, a localização e a administração dessas unidades.
Para o conjunto do Acre, entretanto, não foi localizada uma contagem estadual consolidada e atualizada de cemitérios públicos, privados, comunitários e rurais. Assim, os cinco estabelecimentos documentados dizem respeito exclusivamente à capital, não ao total dos 22 municípios.
O São João Batista ocupa lugar especial nessa história. Fundado em 1909, conforme o relatório municipal, o cemitério atravessou transformações urbanas, mudanças políticas e sucessivas gerações de moradores. Ali estão sepultadas pessoas que participaram da formação de Rio Branco, além de milhares de famílias cuja trajetória se confunde com a expansão da cidade.
Em 2025, o secretário municipal Tony Roque informou uma estimativa de 80 mil a 100 mil sepulturas no São João Batista. O número é uma referência administrativa divulgada naquele ano, e não um recenseamento atualizado dos túmulos. Na mesma ocasião, a administração municipal estimava aproximadamente 50 mil visitas aos quatro cemitérios públicos durante o feriado.
O movimento registrado em 2025 dá uma dimensão do que se espera novamente em 2026. Naquele ano, mais de 30 mil pessoas passaram pelo São João Batista, segundo balanço divulgado durante o Dia de Finados. Missas e homenagens ocorreram ao longo da manhã e da tarde, com equipes municipais responsáveis pelo atendimento ao público.
A visita aos cemitérios também é uma forma de transmitir histórias. Pais mostram aos filhos os lugares onde estão sepultados os avós; irmãos recordam episódios da infância; famílias reorganizam fotografias e lembranças. Em muitos casos, a homenagem se estende a pessoas que os visitantes não chegaram a conhecer pessoalmente, mas cujas histórias foram preservadas pelas gerações anteriores.
Essa dimensão aparece nos relatos de frequentadores registrados em 2025. Ao visitar o São João Batista, Aildo Santos, então com 57 anos, contou que procurava os túmulos dos pais e dos irmãos e que a reunião familiar fazia parte de sua maneira de preservar a memória dos mortos.
“Eu gosto de vir aqui para meditar, refletir e acender as velas para iluminar os caminhos deles lá no céu”, declarou Aildo, em depoimento publicado pelo Portal Acre no Dia de Finados daquele ano.
No Morada da Paz, a experiência de Maria Joana Conceição, então com 63 anos, expressava outra face da data. Com quatro familiares sepultados no local — pai, mãe e dois filhos —, ela relatou que havia aprendido a associar a visita também às lembranças felizes, apesar da dor provocada pelas perdas.
“A minha perda mais recente é a do meu filho, que faz quatro anos”, contou Maria Joana, em reportagem publicada pelo Portal Acre em novembro de 2025.
O Morada da Paz é o único cemitério particular identificado no levantamento oficial da Prefeitura de Rio Branco. Em 2025, sua administração informou que mais de 20 mil pessoas estavam sepultadas no estabelecimento e que parte das famílias preferia antecipar as homenagens para o dia 1º de novembro, quando a movimentação costuma ser menor.
A memória coletiva da capital também está preservada no Jardim da Saudade, no bairro Tancredo Neves. Inaugurado em 1985, o cemitério possui mais de 15 hectares e abriga mais de 5 mil túmulos, segundo o relatório municipal. O documento o identifica como o maior cemitério público de Rio Branco em extensão territorial.
Já o São Francisco, fundado em 1965, integra a rede de cemitérios administrados pela Prefeitura. Os dois espaços, assim como o São João Batista e a Cruz Milagrosa, recebem serviços de conservação e preparação para o aumento do público durante Finados.
Entre os mortos lembrados no Acre, o seringueiro Artur ocupa um lugar singular na religiosidade popular. Segundo o relato histórico divulgado pela Prefeitura de Rio Branco, ele morreu de sede debaixo de uma cajazeira, na década de 1940, e foi enterrado no mesmo local. Uma cruz colocada para identificar a sepultura acabou dando origem à Cruz Milagrosa, que se tornou destino de peregrinação.
A tradição atravessou gerações. No local, situado na região da Transacreana, foi construída uma pequena capela que abriga a cruz e o túmulo do seringueiro. A devoção popular reúne pessoas que procuram proteção, pedem cura ou retornam para agradecer graças que atribuem à sua fé.
A Prefeitura reconhece a importância religiosa e histórica do espaço. Em publicação sobre os preparativos para Finados, a administração municipal informou que a Cruz Milagrosa recebe visitantes de diferentes regiões do Acre, atraídos pelas histórias transmitidas desde a década de 1940.
Diferentemente das sepulturas visitadas exclusivamente por familiares, o túmulo de Artur tornou-se um lugar de devoção coletiva. A prática reúne visitantes que não possuem parentesco com o seringueiro e que mantêm a tradição por motivos religiosos. Não há, porém, um levantamento público que permita estabelecer uma classificação dos túmulos mais visitados do estado.
Outro caso que despertou grande comoção ocorreu no Dia de Finados de 2025. O túmulo do recém-nascido José Pedro, no Cemitério Morada da Paz, foi procurado por visitantes que haviam acompanhado a história da criança, inicialmente declarada morta na Maternidade Bárbara Heliodora e que posteriormente apresentou sinais vitais.
José Pedro nasceu prematuramente, com 24 semanas de gestação, e morreu após permanecer internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital da Criança. Durante o feriado daquele ano, visitantes procuraram sua sepultura, localizada na quadra 103 do Morada da Paz, conforme reportagem publicada pelo portal O Alto Acre. A movimentação foi registrada em 2025, sem dados disponíveis sobre o número de visitantes em 2026.
As histórias de Artur e José Pedro mostram duas formas diferentes de preservação da memória: uma devoção religiosa construída ao longo de aproximadamente oito décadas e uma homenagem coletiva surgida da repercussão de uma morte recente.
Para 2026, a Prefeitura de Rio Branco intensificou os serviços de limpeza, roçagem, pintura e manutenção dos cemitérios públicos. Os trabalhos alcançaram São João Batista, Jardim da Saudade, São Francisco e Cruz Milagrosa, incluindo melhorias na iluminação e no monitoramento de áreas de visitação.
Uma das intervenções destacadas pela administração municipal foi a pavimentação do acesso ao Cemitério Cruz Milagrosa, realizada pela primeira vez. O cruzeiro do São João Batista também recebeu serviços de revitalização.
O prefeito Alysson Bestene afirmou que as medidas procuram oferecer condições adequadas às famílias. “Nós, enquanto poder público, responsáveis pelos cemitérios municipais, buscamos oferecer todo esse cuidado, com limpeza e um ambiente agradável, para que as pessoas possam visitar seus familiares com dignidade”, declarou em comunicado divulgado nesta sexta-feira, 30 de outubro.
O secretário municipal de Cuidados com a Cidade, Tony Roque, explicou que os serviços de conservação são realizados durante o ano, mas recebem reforço antes do feriado. Segundo ele, quatro cemitérios passaram por revitalização para o período de Finados.
“São quatro cemitérios que passaram por revitalização para atender esse momento de saudade. A estimativa é receber mais de 40 mil visitantes”, afirmou o secretário, ao detalhar os mutirões de limpeza, pintura e roçagem.
A movimentação também alcança o comércio. A proximidade do feriado amplia a procura por flores naturais e artificiais, velas, coroas, serviços de limpeza e conservação de sepulturas. Nas imediações dos cemitérios, vendedores ambulantes costumam aproveitar o aumento da circulação de pessoas para comercializar produtos utilizados nas homenagens.
A Prefeitura informou que a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito de Rio Branco (RBTrans) ficará responsável pela organização do tráfego no entorno dos cemitérios, além do ordenamento das áreas externas e da atividade dos ambulantes. Estão previstas interdições em vias próximas aos estabelecimentos entre 7h e 16h.
O horário de funcionamento dos cemitérios públicos da capital será das 6h às 18h, permitindo 12 horas de visitação. A programação inclui celebrações religiosas e serviços de saúde, como aferição de pressão arterial e atendimentos preventivos.
O Dia de Finados é celebrado em 2 de novembro pela tradição católica e integra o calendário nacional de feriados. A data é dedicada à memória dos mortos, mas suas manifestações no Acre ultrapassam os ritos religiosos formais, reunindo costumes familiares, histórias locais e práticas de devoção popular.
Em Rio Branco, os registros municipais documentam quatro cemitérios públicos e um particular. Para a celebração de 2026, a administração municipal projeta mais de 40 mil visitantes nos estabelecimentos públicos, com concentração estimada de 30 mil a 35 mil pessoas no São João Batista. A visitação está prevista para segunda-feira, 2 de novembro, das 6h às 18h.







