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Valterlucio Campelo

A traição a si mesmo como estratégia eleitoral, escreve o colunista Valterlucio Bessa Campelo

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 A traição a si mesmo como estratégia eleitoral

Valterlucio Bessa Campelo

Há uma palavra que a filosofia trata com luvas de pelica, mas que o senso popular conhece bem: ruindade. A ruindade do covarde, do calculista, do que se vende por fatias de poder fingindo que está sendo pragmático. É dessa ruindade que quero tratar, isto é, a ruindade específica do político que, após décadas militando em um espectro político, abandona o que foi e tudo o que disse para se esconder num centrismo de vitrine.

Não me digam que é evolução ou maturidade. É fuga com cálculo. Pensemos no gay que se esconde no “armário”. Ele faz isso porque o mundo, historicamente, lhe prometeu violência, demissão, expulsão. A dissimulação dele é escudo. É triste, é dolorosa, mas é compreensível e merece total respeito e compaixão. O político que se esconde no “armário” centrista faz isso porque o mundo lhe prometeu perder a eleição. A dissimulação dele é arma. É fria, é calculada, e merece o nome que tem: traição.

Se queres conhecer a anatomia da covardia, deixa-me descrever o tipo, para que a gente se entenda. Você o reconhecerá. É o sujeito que, depois da redemocratização, fazia discurso em sindicatos e associações e queria retomar a luta de classes. Que fez discursos inflamados contra o neoliberalismo. Que chamava o FMI de “açougueiro do povo”. Que dizia, nos anos 2.000, com todas as letras, que a burguesia era parasitária, que o latifúndio precisava ser liquidado, que o pecuarista era grileiro, que o Estado mínimo era uma farsa. Que marchou, piqueteou, empatou e panfletou. Que mais adiante chamou o impeachment da Dilma de golpe e, mais recentemente, comemorou a prisão de milhares de inocentes, idosos e doentes encarcerados. É o que afaga toda a roubalheira que retornou com força nos últimos quatro anos e não se levanta contra a censura.

Mas, agora, em 2026, esse mesmo sujeito, ou, sua versão política, que é pior, porque é a versão institucionalizada, aparece na TV dizendo que “o debate ideológico está superado”, que “precisamos de uma frente ampla”, que “a polarização não leva a lugar nenhum”, que “o importante é cuidar do povo”. A rigor, ele não mudou de ideia. Ele escondeu a ideia, porque a ideia, hoje, não dá voto.

O político que abandona suas raízes não o faz num momento de pânico. Ele o faz depois de consultar pesquisas. Depois de ouvir marqueteiros. Depois de calcular que o eleitorado moderado é maior que a base militante. Depois de decidir, com plena consciência, que vale a pena trocar a coerência por votos. Isso não é angústia existencial. É planilha.

E a planilha, filosoficamente, é o oposto da grandeza. Nietzsche desprezava o “homem pequeno” não porque ele era fraco, mas porque ele era mesquinho, porque media a vida em ganhos e perdas, em vez de afirmá-la como obra. O político que corre para o centro é o último homem nietzschiano em estado puro: aquele que pisca os olhos e diz “inventamos a felicidade”, enquanto na verdade inventou a conveniência, a farsa, o embuste.

Kierkegaard seria ainda mais duro. Para ele, o político neocentrista por conveniência reescreve a própria história para que a traição pareça natural. Diz “eu sempre fui assim”, “eu dialogava com todo mundo”, “sempre fui moderado”, “as circunstâncias é que mudaram”. Mentira. As circunstâncias não mudaram tanto quanto a vontade dele de enganar o eleitor.

A parte divertida, ou trágica, dependendo do ponto de vista, é que o eleitorado percebe. Não porque seja particularmente perspicaz, mas porque a dissimulação tem um mau cheiro característico. Além disso, o traidor será denunciado, tá todo mundo vendo.

O sujeito que foi esquerdista por trinta anos e de repente vira moderado não convence ninguém. Os antigos aliados honestos o veem como traidor e se escondem. Com razão. Os novos eleitores moderados o veem como oportunista, também com razão. O resultado é que ele não conquista realmente ninguém, apenas perde a credibilidade para dentro e para fora.

Há um tipo específico de traição que merece nome próprio: a traição biográfica. É quando o sujeito não trai apenas um partido, um aliado ou um princípio abstrato, mas trai a própria trajetória, a própria vida vivida. O esquerdista que convenientemente virou centrista não está traindo o Lula, o PT, a CUT, a Constituição de 88. Está traindo o jovem de trinta anos que acreditava naquilo tudo. Isso não é pragmatismo. É desonra.

E a desonra tem um custo que a planilha eleitoral não calcula. O sujeito que trai a própria biografia perde a única coisa que um político de carreira realmente tem, que é a narrativa de si mesmo. Sem coerência entre o que foi e o que é, ele vira um personagem sem enredo, um ator sem papel, uma voz sem origem, um molambo intelectual. Pode até ganhar a eleição. Mas já não sabe quem é.

Tudo isso supera o indivíduo. O “armário” centrista envenena o ecossistema político inteiro. Quando os políticos mais experientes, aqueles que têm história, que conhecem as lutas, que sabem o que custou cada conquista, decidem abandonar publicamente suas convicções, enviam uma mensagem devastadora: nada vale a pena defender. A política vira puro jogo de posições. A ideologia vira fantasia. A coerência vira ingenuidade.

O resultado é o cinismo generalizado. O jovem que olha para a esquerda histórica e vê seus líderes virando centristas conclui: “então não existe diferença real entre eles”. E tem razão. Não existe, porque eles mesmos apagaram a diferença. Pelas imagens e declarações, foi o que se viu hoje no parque das acácias e na FECOMÉRCIO. Figuras inseguras, envergonhadas, sorrindo e aplaudindo ao comando do palco farsesco, quase todo branco, pálido, como um quadro apagado.

A democracia precisa de clareza. Precisa de gente que diga “eu sou isso, eu defendo aquilo, e se você não concorda, dispute comigo”. No fundo, tudo se resume a uma palavra antiga, meio fora de moda, mas que continua fazendo falta: coragem. Coragem de ser quem se foi. Coragem de defender o que se defendeu. Coragem de perder a eleição mantendo a coerência. Coragem de dizer “eu sei que isso não dá voto, mas eu acredito nisso, e por isso continuo dizendo”.

A ruindade do armário político é um fenômeno que merece mais atenção do que recebe. Não porque seja raro, nem é, mas porque é corrosivo. Corrói o político, corrói a esquerda, corrói a confiança pública, corrói a própria ideia de que vale a pena ter convicções e deseduca o povo.

Neste 2026, de cima a baixo, de lado a lado, essa gente que corre para o “armário” centrista, que joga no chão suas vestes e símbolos, está se multiplicando. Vimos o próprio Lula dar a senha dizendo na França “nunca fui de esquerda”. Com isso ele desavergonhou todo mundo. Foi como dizer aos seus: “podem mentir, podem disfarçar seus trejeitos, os bestas não percebem”. Veremos.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

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