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Alto Acre produz 50,4% da castanha e 51,6% da borracha do estado, mas perde renda com falta de industrialização, diz estudo do Fórum Empresarial
Responsável por mais da metade da produção acreana de castanha-do-brasil e borracha, o Alto Acre reúne duas das mais importantes cadeias extrativistas do estado, mas enfrenta dificuldades para transformar sua produção em produtos industrializados e ampliar a renda dos trabalhadores. Um levantamento do Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento do Acre, divulgado em outubro de 2026, mostra que a concentração produtiva contrasta com a dependência de compradores externos, a deficiência de beneficiamento e os elevados custos de transporte.
Em 2024, os municípios de Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia e Assis Brasil produziram juntos 5.014 toneladas de castanha, equivalentes a 50,4% das 9.947 toneladas registradas em todo o Acre. O valor da produção regional alcançou R$ 29,6 milhões, representando 50,5% do total estadual.
Xapuri liderou a produção acreana, com 2.085 toneladas, seguida por Brasiléia, com 1.709 toneladas. Epitaciolândia respondeu por 1.069 toneladas e Assis Brasil por 151 toneladas.
Apesar da importância econômica, a produção regional de castanha diminuiu 23,7% entre 2014 e 2024. A retração foi menor que a registrada no conjunto do estado, de 27,3%, mas revela dificuldades para manter e ampliar a atividade extrativista.
Brasiléia apresentou uma das maiores reduções, passando de 3.492 toneladas para 1.709 toneladas em dez anos, queda de aproximadamente 51,1%. Epitaciolândia seguiu trajetória diferente, com crescimento de 705 para 1.069 toneladas, expansão de 51,6%.
O principal problema identificado pelo estudo está na agregação de valor. A castanha recolhida pela cooperativa regional em Brasiléia é enviada para beneficiamento em Rio Branco e parte retorna posteriormente ao Alto Acre para comercialização.
Esse deslocamento aumenta os custos logísticos e impede que uma parcela maior dos empregos ligados ao processamento seja gerada nos municípios produtores.
A pesquisa também aponta diferenças expressivas nos preços pagos aos extrativistas. Em Brasiléia, uma lata de castanha alcançava aproximadamente R$ 130 quando entregue diretamente ao comprador, mas era negociada entre R$ 80 e R$ 90 quando retirada por intermediários nos ramais.
A diferença varia de 30,8% a 38,5%, dependendo do valor recebido pelo produtor. O levantamento ressalta que os preços foram informados em entrevista e correspondem à safra mencionada pelos participantes.
A perda de oportunidades econômicas também aparece nas exportações. Segundo dados do MDIC utilizados no estudo, o Acre exportou 3.593,7 toneladas de castanha em 2025, correspondentes a 71,5% de todo o volume brasileiro comercializado no exterior.
As vendas renderam US$ 12,4 milhões, mas 93,9% da quantidade exportada pelo estado saiu com casca, característica que ajuda a explicar a diferença entre os preços médios praticados pelo Acre e pelo Pará.
Enquanto a castanha acreana foi exportada pelo preço médio de US$ 3,45 por quilo, o produto paraense alcançou US$ 15,69. O valor médio registrado pelo Pará foi aproximadamente 4,5 vezes o acreano, embora a comparação envolva produtos com diferentes níveis de processamento.
O Peru recebeu 92,8% do volume exportado pelo Acre, seguido pela Bolívia, com 1,5%. Aproximadamente 3,3 mil toneladas deixaram o Brasil pelo posto da Receita Federal em Assis Brasil, incluindo mercadorias beneficiadas na capital.
Na cadeia da borracha, o Alto Acre apresenta concentração produtiva ainda maior. Os quatro municípios produziram 397 toneladas em 2024, equivalentes a 51,6% das 769 toneladas registradas no estado.
Xapuri liderou a produção acreana, com 255 toneladas, seguida por Brasiléia, com 122 toneladas. Assis Brasil produziu 16 toneladas e Epitaciolândia, quatro toneladas.
O valor da produção regional chegou a R$ 7,6 milhões, dos quais R$ 4,8 milhões foram gerados em Xapuri.
A atividade passou por forte recuperação depois de atingir apenas 35 toneladas em 2016. Em 2023, a produção regional já havia alcançado 391 toneladas, impulsionada pela retomada da extração e pela comercialização da borracha nativa.
Um dos fatores dessa recuperação foi a atuação da fabricante de calçados Veja, que passou a adquirir borracha da Reserva Extrativista Chico Mendes em larga escala a partir de 2018.
Segundo estudo da Universidade Federal do Acre (Ufac) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), citado pelo Fórum Empresarial, os seringueiros da reserva recebem aproximadamente R$ 24 por quilo, valor quase oito vezes superior ao preço de mercado de R$ 3 mencionado na pesquisa.
A remuneração inclui pagamentos pelo serviço socioambiental e subsídios públicos. Entretanto, o modelo apresenta uma vulnerabilidade: a dependência de um único comprador para a borracha nativa da reserva e da continuidade dos mecanismos de incentivo.
Outro ponto destacado é a situação da fábrica Natex, instalada em Xapuri. A unidade, com capacidade para produzir aproximadamente 100 milhões de preservativos por ano, aparece no levantamento como paralisada desde 2021.
O relatório ressalva que a situação operacional da indústria foi consultada em fontes públicas e pode ter sofrido alterações posteriores.
Além da castanha e da borracha, o levantamento identifica possibilidades de diversificação econômica por meio do café, do cacau e de outras atividades agroindustriais.
A produção de café dos quatro municípios chegou a 493 toneladas em 2025, crescimento de 60,1% em relação às 308 toneladas de 2014. Brasiléia liderou com 198 toneladas, seguida por Assis Brasil, com 176, Xapuri, com 63, e Epitaciolândia, com 56 toneladas.
No caso do cacau nativo, o estudo menciona o mapeamento de 84.376 hectares com alta ocorrência de cacaueiros na Reserva Extrativista Chico Mendes, abrangendo também áreas de outros municípios acreanos.
Na terra indígena Mamuadaté, em Assis Brasil, uma iniciativa comunitária comercializou aproximadamente 600 quilos de amêndoas na primeira safra, com preço informado de cerca de R$ 60 por quilo. O volume ainda é considerado insuficiente para assegurar contratos regulares com fabricantes de chocolate.
Entre as propostas apresentadas pelo Fórum Empresarial estão a instalação de postos cooperativos de compra de castanha, a avaliação de estruturas regionais de secagem e beneficiamento, a diversificação dos compradores de borracha e a ampliação da assistência técnica aos produtores.
O levantamento também recomenda avaliar a possibilidade de aproveitamento da estrutura industrial da Natex e desenvolver unidades de fermentação e secagem de cacau em Xapuri e Assis Brasil. As propostas integram a carteira de projetos do estudo “Economia e vocações da Microrregião de Brasiléia”, publicado em outubro de 2026.







