Valterlucio Campelo
Em sua coluna desta quarta, 4, Valterlucio também concorda que Petecão ‘pagou o pato’ pelo apoio a Lula

Sim, Petecão pagou o preço do alinhamento
Valterlucio Bessa Campelo
Leio que o senador Sérgio Petecão atribui a própria derrota à sua adesão ao governo Lula. Há, nisso, um ponto que merece análise. Teria sido essa aproximação a causa principal do resultado — um sexto lugar entre oito concorrentes — ou outros fatores também contribuíram para a derrota? A resposta mais prudente é que o alinhamento pode ter pesado, mas dificilmente explica sozinho um resultado eleitoral.
Em seus 32 anos de carreira política, marcada por vitórias, Petecão nunca construiu sua trajetória a partir de uma identidade ideológica rígida. Suas ações estiveram, em diferentes momentos, alinhadas aos governos que considerava capazes de trazer benefícios ao Acre. Foi assim desde o início: elegeu-se pela primeira vez, presidiu por oito anos a Assembleia Legislativa, chegou à Câmara dos Deputados e, depois, ao Senado. Não precisou carregar nos ombros nem no discurso uma bandeira partidária ou ideológica. Se perguntado se é de esquerda ou de direita, talvez respondesse que é da 6 de Agosto.
Durante muito tempo, essa flexibilidade foi uma vantagem. Em um cenário menos polarizado, o político capaz de conversar com diferentes grupos e governos podia apresentar-se como pragmático, próximo dos municípios e atento às necessidades locais. O apoio a um governo federal podia ser explicado como uma escolha em favor do estado: acesso a ministros, articulação de recursos e atendimento às demandas de prefeitos. Nessa lógica, a aproximação com o poder não era necessariamente interpretada como adesão ideológica, mas como instrumento de trabalho.
Nos últimos anos, porém, a política brasileira se radicalizou. A polarização reduziu o espaço do centro e tornou mais difícil sustentar a ideia de que é possível apoiar um governo sem assumir, aos olhos do eleitor, parte de sua identidade. Em muitos estados de perfil mais conservador, como o Acre, a associação com Lula pode produzir um custo eleitoral específico à medida que o adversário transforma o apoio institucional em prova de alinhamento político, e o eleitor passa a avaliar o candidato não apenas pelo que fez pelo estado, mas pelo campo que acredita que ele representa.
É neste momento que o pragmatismo pode deixar de parecer uma virtude. O que o político apresenta como diálogo e capacidade de articulação pode ser lido por parte do eleitor como oportunismo ou falta de convicção. A liberação de recursos e o acesso ao governo federal, importantes para a gestão e para os municípios, nem sempre se convertem em reconhecimento nas urnas. Benefícios concretos são difusos, podem ser atribuídos a outros atores e nem sempre mobilizam os eleitores com a mesma intensidade que uma disputa identitária. A traição está no ar.
Isso não significa que todo eleitor acreano seja conservador, nem que o apoio a Lula, por si só, determine uma derrota. Significa que, em um ambiente polarizado, o alinhamento pode afastar eleitores de um campo sem necessariamente conquistar, na mesma proporção, os do outro. O candidato corre o risco de perder parte da antiga base sem conseguir incorporar plenamente o eleitorado governista, que pode preferir nomes identificados há mais tempo com Lula e seu partido. Jorge Viana entrou na parada e empurrou o Petecão para um centro ralo.
Ainda assim, uma explicação eleitoral precisa considerar a força dos concorrentes, a organização das campanhas, a presença nos municípios, a renovação do eleitorado, a avaliação do mandato e a capacidade de comunicar resultados. Uma derrota expressiva pode resultar da combinação desses fatores, e não de uma única decisão política. Atribuí-la exclusivamente à adesão ao governo pode ser uma interpretação plausível, mas também conveniente, pois transforma um conjunto complexo de escolhas e circunstâncias numa causa simples.
Petecão, acostumado a atravessar governos de diferentes matizes sem meter a ideologia no discurso, talvez tenha descoberto que a margem para esse tipo de atuação diminuiu. Satisfeito com o acesso a ministros e com a liberação de emendas para seus prefeitos, pode ter apostado que a gratidão política se converteria em votos. Mas a política não funciona como uma conta de reciprocidade. Os recursos entregues, mesmo que em profusão, não garantem fidelidade, e alianças institucionais nem sempre são compreendidas como serviço público. Em tempos de polarização, a imagem do apoio pode pesar mais que o benefício produzido.
A lição, portanto, não é apenas que apoiar Lula custou votos no Acre. É que, em estados onde o eleitorado se identifica majoritariamente com valores conservadores, a proximidade com um governo percebido como adversário pode cobrar um preço alto, sobretudo quando o candidato não consegue explicar, com clareza, por que fez essa escolha e o que o eleitor ganhou com ela. O pragmatismo pode abrir portas no governo, nas urnas, porém, precisa ser convertido em confiança. E confiança não se obtém apenas com acesso ao poder.
Petecão poderá persistir na política? Difícil dizer. Talvez, se calçar as sandálias da humildade e atirar em alvos mais à vista – lembremos Flaviano Melo. Tentar o governo ou o Senado em 2030, disputando apenas uma vaga, será uma aventura. A prefeitura da capital daqui a dois anos? Quem sabe… Hoje, com 66 anos de idade e 32 de política, tem lenha pra queimar, mas não é nada fácil dar um passo atrás: essa escada parece ser só de subida; a descida vem pela queda, não é, Jorge?
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP











