POLÍTICA
Acre votou no presidente eleito em 67% das eleições, mas rompeu com o resultado nacional a partir de 2010

O Acre acompanhou a escolha vencedora do país em seis das nove eleições presidenciais realizadas desde a redemocratização, o equivalente a 67%. O dado do levantamento divulgado pelo perfil Mapinha do Mundo, baseado nos resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela, porém, uma transformação política mais interessante que o percentual isolado: durante duas décadas o estado esteve praticamente sincronizado com o resultado nacional, mas passou a seguir caminho diferente a partir de 2010.
Considerando o segundo turno, ou o primeiro quando a eleição foi decidida sem nova votação, o Acre votou no vencedor nacional em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2018. As exceções foram 2010, 2014 e 2022.
A sequência inicial é expressiva. Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva conseguiram vencer no Acre quando também conquistaram a Presidência. Em 1994, por exemplo, Fernando Henrique recebeu 54,01% dos votos válidos acreanos e derrotou Lula, que ficou com 23,76%.
Até mesmo em 2006, quando o Acre demonstrava sinais de divisão, o resultado final coincidiu com o nacional. Geraldo Alckmin venceu o primeiro turno no estado, com 51,79%, contra 42,62% de Lula. No segundo turno, entretanto, houve uma virada: Lula alcançou 52,36% no Acre e Alckmin ficou com 47,64%. No país, Lula foi reeleito.
A grande ruptura aparece em 2010.
Naquele ano ocorreu um fenômeno político particularmente curioso. O PT mantinha enorme força estadual e Tião Viana foi eleito governador, mas Dilma Rousseff sofreu uma derrota contundente para José Serra na disputa presidencial. No primeiro turno, Serra recebeu 52,12% dos votos acreanos e Dilma apenas 23,92%. No segundo, a diferença aumentou: Serra chegou a 69,67%, enquanto Dilma ficou com 30,33%. No Brasil ocorreu exatamente o contrário, e Dilma foi eleita presidente.
O episódio mostra que o eleitor acreano já começava a separar claramente a disputa estadual da presidencial. Era possível votar numa liderança do PT para governar o Acre e, simultaneamente, rejeitar o candidato presidencial petista.
Em 2014, essa dissociação ficou ainda mais evidente. Marina Silva, acreana, venceu o primeiro turno presidencial no estado com 41,99%. Aécio Neves teve 29,08% e Dilma, então presidente e candidata à reeleição, apenas 27,98%. No segundo turno, o Acre ficou com Aécio, enquanto o Brasil reelegeu Dilma. Ao mesmo tempo, Tião Viana, do PT, conquistou a reeleição para governador do Acre.
Esse período ajuda a explicar a mudança. Estudo sobre a competição eleitoral acreana identifica uma perda gradual de força da esquerda a partir de 2006, apesar de ela continuar vencendo eleições estaduais até 2014. O processo desembocou em 2018, quando terminou uma hegemonia de duas décadas dos grupos de esquerda no governo estadual.
Em 2018, Acre e Brasil voltaram a coincidir, mas por uma razão diferente daquela observada nos primeiros anos da redemocratização: Jair Bolsonaro venceu nacionalmente e também conquistou ampla vantagem no estado. Foi a única vez, desde 2010, em que o candidato preferido dos acreanos acabou eleito presidente.
Em 2022 ocorreu novamente o desencontro. Bolsonaro recebeu 70,30% dos votos válidos no Acre, contra apenas 29,70% de Lula. Nacionalmente, Lula venceu por 50,90% a 49,10%. O Acre, portanto, ficou mais de 20 pontos percentuais distante do resultado nacional para cada lado.
Há alguns elementos que ajudam a compreender essa mudança, embora não seja possível atribuí-la a uma única causa. O avanço de forças políticas conservadoras no estado, o desgaste acumulado do PT depois de um longo período de domínio estadual e a crescente importância das pautas econômicas, ambientais, rurais e de valores contribuíram para modificar o ambiente político acreano.
Outro componente é religioso. Estudos nacionais sobre 2022 encontraram associação entre presença evangélica e maior votação em Bolsonaro, inclusive apontando Acre, Rondônia e Roraima entre os exemplos do Norte. Pesquisa acadêmica posterior também identificou que eleitores evangélicos expostos a mensagens de lideranças religiosas favoráveis a Bolsonaro apresentaram maior propensão a votar nele. Isso não explica sozinho o comportamento acreano, mas ajuda a compreender parte da consolidação conservadora observada nos últimos pleitos.
O mapa, portanto, esconde duas histórias diferentes dentro dos mesmos 67%. Entre 1989 e 2006, o Acre acertou o vencedor em cinco eleições presidenciais consecutivas. Nas quatro eleições seguintes, de 2010 a 2022, acertou apenas uma: Bolsonaro, em 2018.
É essa virada que torna 2026 especialmente interessante. Mais do que saber se o Acre historicamente “vota no vencedor”, a questão agora é outra: o estado continuará no padrão conservador que se consolidou nas últimas eleições presidenciais ou voltará a acompanhar a maioria nacional?












