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CULTURA & ENTRETENIMENTO

Healthtechs ganham escala no Brasil com avanço da telemedicina e retomada dos investimentos

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O avanço da digitalização da saúde brasileira deixou de ser apenas uma tendência associada a startups e passou a integrar a estratégia de expansão do próprio sistema de saúde. De plataformas de telemedicina a soluções de inteligência artificial, prontuários eletrônicos, gestão de clínicas e interoperabilidade de dados, as healthtechs ampliam sua presença em um mercado no qual o acesso, a eficiência operacional e a integração de informações se tornaram desafios centrais.

O movimento também começa a aparecer nos números. Segundo o HealthTech Report Recap 2024, as startups de saúde da América Latina receberam US$ 253,7 milhões em investimentos em 2024, alta de 37,6% em relação aos US$ 184,3 milhões registrados em 2023. O Brasil concentrou 64,8% das healthtechs investidas na região, à frente de México, Argentina, Colômbia e Chile.

Apesar do aumento do capital, o mercado ficou mais seletivo. O ecossistema brasileiro também se beneficia da dimensão do próprio sistema de saúde. A necessidade de atender uma população extensa e distribuída de maneira desigual pelo território cria espaço para tecnologias capazes de reduzir deslocamentos, conectar especialistas a regiões remotas e automatizar etapas administrativas. É neste ambiente que a telessaúde ganhou escala.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, somente em 2024, foram realizados 2.526.196 serviços de telessaúde em todo o país, número 32,96% superior à meta estabelecida para o ano, de 1,9 milhão de atendimentos. O Sudeste respondeu por 830.039 serviços, seguido pelo Sul, com 681.578, e pelo Nordeste, com 607.009. A expansão continuou em 2025. De acordo com o Relatório Anual de Gestão do Ministério da Saúde, foram registrados 3.210.529 atendimentos de telemedicina no ano. Somados aos realizados em 2024, os serviços chegaram a 5.736.725 atendimentos no acumulado do período, superando em 36,59% a meta prevista de 4,2 milhões.

O dado ajuda a explicar por que a fronteira entre tecnologia e assistência médica está cada vez mais estreita. A transformação digital também avança na infraestrutura de dados. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde, foi criada para conectar sistemas de saúde de todo o país e permitir o compartilhamento padronizado e seguro de informações. A proposta é fazer com que dados clínicos acompanhem o paciente, independentemente do ponto da rede em que ele seja atendido.

Esse processo abre uma frente importante para as healthtechs, mais do que oferecer ferramentas isoladas, as empresas precisam desenvolver soluções capazes de conversar com diferentes sistemas, respeitar requisitos de segurança e privacidade e gerar ganhos mensuráveis para pacientes, profissionais e gestores.

Em 2025, o próprio Ministério da Saúde abriu chamamento para credenciar estabelecimentos privados de saúde interessados em oferecer serviços de telessaúde de forma complementar à rede pública. Outra iniciativa selecionou 36 projetos distribuídos por todas as regiões do país, envolvendo secretarias municipais e estaduais, instituições de ensino superior, hospitais e institutos.

Para Juan Ramos, CEO da CallMed, a aproximação entre empresas de tecnologia e o setor público pode ajudar a enfrentar gargalos históricos da assistência. “Telemedicina, interoperabilidade e novos modelos de atendimento mostram como a cooperação entre setor público e iniciativa privada pode ampliar a eficiência e democratizar o acesso à saúde no Brasil”, afirma o executivo.

Segundo Ramos, a tecnologia pode contribuir especialmente em um cenário marcado pela distribuição desigual de profissionais e pela necessidade de ampliar a capacidade assistencial. “A sustentabilidade do SUS depende cada vez mais da combinação entre gestão eficiente, tecnologia aplicada e cooperação institucional”.

A própria CallMed vem usando a telemedicina como eixo de expansão. A empresa acaba de iniciar uma operação nos Estados Unidos voltada à comunidade brasileira, com consultas por vídeo em português e um modelo que envolve médicos brasileiros e profissionais licenciados nos EUA para validaividade, qualificação profissional, interoperabilidade entre sistemas e proteção rigorosa de dados sensíveis.

Em agosto de 2026, o Conselho Nacional de Saúde aprovou por unanimidade a Política Nacional de Informação e Saúde Digital, que prevê, entre outros pontos, integração de dados clínicos, expansão da telessaúde e fortalecimento da Rede Nacional de Dados em Saúde.

O cenário combina, portanto, dois movimentos que antes caminhavam de forma mais separada, de um lado, investidores voltam a aportar capital em startups capazes de demonstrar escala e resultados; de outro, o poder público incorpora ferramentas digitais à estratégia de atendimento. Para as healthtechs, a oportunidade deixa de estar apenas em criar aplicativos ou plataformas e passa a envolver a construção de uma nova camada tecnológica para o sistema de saúde brasileiro.

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