Dia Mundial da Menopausa reforça a importância do acompanhamento profissional e cuidados individualizados para uma fase natural da vida feminina
Por muito tempo associada apenas ao fim da menstruação e às ondas de calor, a menopausa passou a ocupar um espaço mais amplo nas discussões sobre saúde da mulher. Celebrado em 18 de outubro, o Dia Mundial da Menopausa tem como objetivo ampliar a informação sobre essa fase e estimular o debate sobre qualidade de vida, bem-estar, prevenção e acesso ao cuidado adequado. A data também ajuda a combater a ideia de que sintomas como insônia, irritabilidade, ressecamento vaginal ou queda da libido precisam ser simplesmente suportados.
No Brasil, o assunto ganhou espaço também nas políticas públicas. Em abril deste ano, o Ministério da Saúde publicou uma Nota Técnica com orientações para organizar e qualificar o cuidado de mulheres na transição para a menopausa, na menopausa e na pós-menopausa dentro da Atenção Primária do SUS. Segundo o documento, projeções do IBGE indicam que o país terá aproximadamente 37 milhões de mulheres entre 40 e 65 anos até o final de 2026. A inclusão do tema em uma pesquisa nacional é considerada relevante porque permite conhecer melhor como as brasileiras vivenciam esta etapa. Até então, grande parte das informações disponíveis vinha de estudos específicos ou de levantamentos que não tinham a menopausa como foco principal.
Menopausa não é doença. É o nome dado à última menstruação, confirmada depois de 12 meses consecutivos sem menstruar. Já o climatério corresponde a uma fase mais extensa de transição, que pode começar anos antes. Neste período, a produção ovariana de hormônios, especialmente o estrogênio, sofre mudanças que podem provocar diferentes manifestações.
Ondas de calor, suor noturno, insônia, alterações de humor, ressecamento vaginal, redução da libido, dores musculares e articulares e mudanças na composição corporal estão entre os sintomas relatados. A intensidade varia bastante, algumas mulheres passam pela transição com poucos incômodos, enquanto outras apresentam sintomas capazes de interferir na rotina e na qualidade de vida. O Ministério da Saúde estima que entre 20% e 30% das mulheres tenham sintomas moderados ou graves durante a transição.
Quando os hormônios caem
As manifestações não são iguais para todas. Algumas mulheres atravessam a menopausa com poucos sintomas, enquanto outras apresentam um conjunto de alterações capazes de interferir diretamente na rotina profissional, nos relacionamentos e na qualidade de vida.
Natural, mas nem sempre simples
É aí que a terapia hormonal ganha protagonismo. A reposição pode utilizar estrogênio isoladamente ou combinado a um progestagênio, dependendo da presença do útero e das características clínicas da paciente. A terapia é considerada uma das opções mais eficazes para os sintomas vasomotores, como os fogachos, as famosas fortes ondas repentinas de calor, além de poder ter benefícios para sintomas geniturinários e saúde óssea em algumas mulheres. Mas não é uma recomendação automática para todas as mulheres que chegam à menopausa. Idade, tempo desde a menopausa, histórico familiar e pessoal, riscos cardiovasculares, doenças prévias e características dos sintomas precisam ser considerados.
Ciência contra generalizações
Para a especialista em saúde hormonal Izabelle Gindri, PhD em Engenharia Biomédica, farmacêutica e cientista, o debate precisa fugir tanto da banalização quanto da aversão às terapias hormonais. Gindri é cofundadora e CEO da bio meds Brasil, empresa que atua com tratamentos de reposição hormonal. Para ela, a terapia deve ser baseada em avaliação individual. “O foco deve estar na seleção adequada das pacientes, na qualificação dos profissionais e na utilização de protocolos respaldados por evidências científicas”.
Para a cientista, a menopausa não deve ser encarada como um colapso do organismo, mas como uma transição biológica capaz de produzir mudanças em diferentes sistemas. “Em alguns casos, os sintomas aparecem muito cedo. A insuficiência ovariana primária, por exemplo, ocorre antes dos 40 anos e pode ser confundida com outras condições. Cerca de 1% das mulheres desenvolvem a condição antes dos 40 anos, por isso é necessária uma investigação diante de alterações persistentes do ciclo menstrual”, aponta.
Curiosidades que ajudam a entender a fase
Uma das confusões mais comuns é tratar climatério e menopausa como sinônimos. Eles não são. A menopausa é um marco específico, a última menstruação, enquanto o climatério corresponde ao período de transição que pode se estender por anos.
Também não existe uma idade única para a menopausa. Embora ela geralmente aconteça entre os 45 e os 55 anos, há diferenças individuais e casos de menopausa precoce ou insuficiência ovariana antes dos 40. Para quem apresenta sintomas, a recomendação é procurar atendimento médico sem necessariamente esperar a menstruação desaparecer completamente.
“Mais do que discutir se a reposição hormonal é “boa” ou “ruim”, o cenário atual aponta para uma abordagem baseada no perfil de cada mulher. A terapia pode ser uma ferramenta importante para algumas pacientes, enquanto outras podem se beneficiar de tratamentos não hormonais e mudanças no estilo de vida”, diz a especialista Izabelle Gindri. O ponto central é evitar tanto a prescrição indiscriminada quanto o medo generalizado. A menopausa é uma etapa natural, mas seus sintomas merecem ser reconhecidos e tratados quando necessário.
Mais do que uma fase de transição, a menopausa é uma fase da vida que merece informação, acolhimento e cuidado. Ao romper o silêncio em torno do tema, o Dia Mundial da Menopausa contribui para que mulheres ganhem espaço para compreender o próprio corpo e fazer escolhas com mais autonomia. Porque falar sobre menopausa é também falar sobre saúde, dignidade e qualidade de vida.