CULTURA & ENTRETENIMENTO
Vale do Purus perde 83% da madeira e 21% do leite, mas mantém base produtiva para recuperação
ESTUDO DO FÓRUM EMPRESARIAL
A economia do Vale do Purus atravessa uma transformação marcada pela retração de atividades tradicionais, mas mantém uma base produtiva que pode sustentar uma nova fase de crescimento. Sena Madureira perdeu 83,2% da produção de madeira em tora em uma década, enquanto a produção de leite da microrregião caiu 20,8% desde 2020. Ao mesmo tempo, o território conserva indústrias, centenas de produtores rurais, um polo moveleiro e atividades em expansão.
O retrato aparece no estudo “Economia e vocações da Microrregião de Sena Madureira – Ativos, travas e caminhos de desenvolvimento no Vale do Purus”, elaborado pelo Fórum Empresarial, com apoio do Sebrae. O levantamento analisa Sena Madureira, Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus e aponta caminhos para recuperar cadeias já existentes, em vez de partir do pressuposto de que a região precisa construir novas atividades do zero.
Os três municípios somavam 64.189 habitantes em 2025, distribuídos por 40,5 mil quilômetros quadrados. A densidade é de apenas 1,58 habitante por quilômetro quadrado. Em 2023, último dado disponível para o Produto Interno Bruto municipal, a economia regional movimentou R$ 1,36 bilhão, equivalente a 5,2% do PIB acreano.
Sena Madureira funciona como centro econômico do território. O município concentra 68,6% da população e respondeu por 71,6% do PIB da microrregião. Manoel Urbano participou com 19,3% e Santa Rosa do Purus, com 9,1%.
Um dos exemplos mais claros da perda de escala está na madeira. Sena Madureira produziu 16,8 mil metros cúbicos de madeira em tora em 2024 e, mesmo depois da retração registrada na última década, permaneceu como o quarto maior produtor do Acre.
Manoel Urbano produziu outros 4,6 mil metros cúbicos e Santa Rosa do Purus, 1,55 mil. A microrregião, portanto, ainda possui produção significativa e tradição na atividade.
O que mudou foi o tamanho dessa cadeia. Entre 2014 e 2024, a produção de madeira em tora de Sena Madureira caiu 83,2%. A participação do Vale do Purus na produção estadual, que chegou a 30,7%, recuou para 10,5%.
A estrutura instalada, porém, continua existindo. O estudo identificou um polo industrial com 12 galpões construídos, aproximadamente 12 marcenarias e uma serraria em funcionamento. A madeira também foi citada pelos produtores como uma das principais vocações econômicas de Sena Madureira.
O diagnóstico chama atenção ainda para uma possibilidade pouco aproveitada: resíduos de madeira atualmente queimados poderiam ser utilizados como matéria-prima. Entre as dificuldades estão a informalidade no fornecimento, a distância do polo em relação ao modal fluvial utilizado para chegada das toras e a sazonalidade da atividade, mais intensa durante o verão.
O estudo ressalta que a redução registrada nas estatísticas não significa necessariamente desaparecimento equivalente da atividade. Mudanças no licenciamento e nas rotas de escoamento também podem influenciar os números. Por isso, os pesquisadores recomendam que a tendência seja analisada juntamente com licenças, contratos e capacidade industrial.
No leite, a situação também combina retração com uma estrutura produtiva ainda relevante.
Sena Madureira, Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus produziram juntos 2,54 milhões de litros em 2024, correspondentes a 6,8% da produção acreana. O volume ficou 20,8% abaixo do registrado em 2020.
Sena Madureira respondeu por 1,926 milhão de litros e ocupou a 12ª posição estadual. Em 2020, eram 2,598 milhões. Manoel Urbano produziu 476 mil litros em 2024 e Santa Rosa do Purus, 136 mil.
A dimensão social da cadeia é maior do que o volume de produção sugere. O Censo Agropecuário identificou 623 estabelecimentos leiteiros na microrregião. Desses, 517 pertenciam à agricultura familiar, o equivalente a 83%.
É justamente essa presença de pequenos produtores que leva o estudo a tratar a atividade como uma base econômica que pode ser reorganizada.
“É uma atividade que mantém o homem no campo, que dá uma sustentabilidade para a família, mas não tem ramal”, afirmou uma produtora e dirigente sindical ouvida pelos pesquisadores.
A proposta apresentada pelo diagnóstico é testar uma rede de resfriamento do leite com pontos nas entradas dos ramais. A produção seria concentrada nesses locais para posterior coleta pelo laticínio. Antes de ampliar o modelo, seriam medidos volume por rota, qualidade, perdas e custos.
A logística aparece como a questão central para transformar potencial em produção.
Dos 731 quilômetros da BR-364 avaliados pelo Índice de Condição de Manutenção do DNIT entre setembro de 2024 e agosto de 2025, 420 quilômetros, ou 57,5%, estavam classificados, em média, como ruins ou péssimos.
No trecho inicial a partir de Rio Branco, a proporção era de 23,3%. Na aproximação de Sena Madureira, subia para 27,3%. Entre Sena Madureira e Manoel Urbano, chegava a 64%.
No trecho correspondente ao eixo Manoel Urbano–Feijó, 100% dos quilômetros monitorados estavam nas faixas ruim ou péssima.
Esse retrato é anterior aos investimentos mais recentes. O próprio estudo registra que, em abril de 2026, o Ministério dos Transportes anunciou R$ 875 milhões para rodovias federais no Acre. Desse montante, R$ 720 milhões foram destinados à reconstrução de 97,8 quilômetros da BR-364 entre Sena Madureira e o Rio Macapá.
Nos ramais, o desafio é semelhante. Durante a pesquisa de campo, um empresário relatou que a malha de Sena Madureira teria crescido de aproximadamente 1,7 mil quilômetros em 2017 para mais de 4 mil quilômetros, sem aumento equivalente da capacidade de manutenção.
“Hoje os ramais, eu posso falar pra você, é nota mínima. Eu gastei 10 horas pra chegar em Feijó. Aí depois eu gastei mais quase 3 horas pra chegar em Tarauacá, um pedacinho de nada”, relatou.
Outra fala colhida no Sindicato Rural resume a importância atribuída à infraestrutura pelos próprios produtores.
“Tudo isso aqui que nós vamos falar de produção, se não tiver ramal… Pouco resolve nós ficar levantando potenciais, porque potenciais tem. Tudo é potencial. Nós temos muita gente aqui pra trabalhar e querem trabalhar”, afirmou uma produtora e dirigente sindical.
Os indicadores de desenvolvimento ajudam a explicar por que infraestrutura e produção aparecem interligadas. No Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal de 2023, Sena Madureira marcou 0,3309 e ficou na 14ª posição no Acre. Manoel Urbano registrou 0,3062 e ficou na 16ª.
Santa Rosa do Purus apresentou índice de 0,1806, o menor resultado entre os 22 municípios acreanos e o 5.546º entre 5.570 municípios brasileiros. Rio Branco, usado como referência pelo estudo, registrou 0,6732.
Há ainda atividades que podem ser mais bem dimensionadas. A pecuária de corte foi apontada pelos produtores como a principal vocação de Sena Madureira, mas não recebeu um capítulo específico no Mapa de Potencialidades utilizado como base para o estudo.
O cacau também apresenta uma situação particular. Manoel Urbano integra a Rota do Cacau estadual e Sena Madureira aparece entre os municípios com ocorrência de cacau nativo identificada em estudo de prospecção. Apesar disso, nenhum dos três municípios registrou produção de cacau na Produção Agrícola Municipal entre 2010 e 2025.
O turismo é outra atividade ainda sem diagnóstico suficiente no levantamento. O estudo não identificou inventário, avaliação de demanda ou escuta comunitária que permita medir o potencial turístico dos três municípios.
O conjunto dos números mostra, portanto, uma região que perdeu produção em cadeias importantes, mas não perdeu sua base econômica. Sena Madureira continua entre os maiores produtores estaduais de madeira, possui polo industrial instalado e concentra mais de 70% da economia regional. A cadeia leiteira ainda reúne 623 estabelecimentos, 83% deles familiares.
A estratégia apontada pelo estudo é aproveitar essa estrutura para recuperar escala e agregar valor. Melhorar ramais e a BR-364, organizar produtores, ampliar assistência técnica, aproveitar resíduos da madeira e testar uma rede de resfriamento para o leite aparecem como caminhos para fazer atividades já existentes voltarem a ganhar força no Vale do Purus.









