Valterlucio Campelo
Jorge Viana anda negando fazer parte da polarização PT/PL, mas ele ‘é PT’ legítimo, escreve Valterlucio Campelo

Jorge é PT e o PT é Jorge
Valterlucio Bessa Campelo
Negar a própria ideologia é para um político como o marido trair a esposa e os filhos em um casamento, especialmente se essa ideologia o acompanha há décadas, como é o caso do pré-candidato Jorge Viana ao senado pelo Acre em 2026. Equivale a alguém perguntar ao sujeito se aquela senhora ali sentada é sua esposa e ele responder que não a conhece. Um comportamento inaceitável, repugnante.
No afã de conquistar uma cadeira para ajudar a sustentar o projeto socialista de Lula da Silva (é o único motivo pelo qual voltou ao Acre), em entrevista recente durante a Expo-Juruá, Jorge Viana disse textualmente que “não é candidato do PT, mas do Acre”. Uma fala salvacionista, presunçosa e arrogante que deveria causar a repulsa de toda a sua base na universidade, nos sindicatos etc., mas não causa porque esses setores se comportam como a esposa que apanha do marido e não tem coragem de ligar para a polícia. Aliás, um velho amigo socialista, professor de História da UFAC, que encontrei recentemente, me disse: “Jorge não serve, mas é o jeito votar nele”. O marido, digo, Jorge Viana, sabendo disso, espanca a esquerda sem culpa.
Os acreanos precisam saber (espero que a campanha dê conta disso), que a estratégia adotada por Jorge Viana até aqui é a essência da mentira, da empulhação. Veterano em campanhas, o petista nunca teve tanto compromisso com a ideologia quanto agora. O seu único objetivo é entregar ao Lula da Silva um voto encabrestado no Senado, nem que para tal precise trair, mentir e manipular o eleitor como está fazendo. Ele próprio declarou que não deixou a APEX para brincadeira. Não esqueçamos que o manual leninista da esquerda concede que toda mentira, fingimento, dissimulação e embuste são moralmente aceitáveis para a luta socialista.
Ao contrário do que ele finge por aí, a ideologia importa e muito e ele tem a dele – socialista, como estabelecido no programa do seu partido. Ela é que dá a coerência programática, pois o Senado lida com temas estruturais: nomeações para tribunais superiores, acordos internacionais, reformas constitucionais. Eleitores buscam saber qual visão de mundo orientará essas decisões, portanto, ao esconder seu ideário ele engana o eleitor.
A ideologia é que constrói uma identidade política clara, ou seja, em um ambiente polarizado, a ideologia ajuda o eleitor a situar rapidamente o candidato: progressista, conservador, liberal, nacionalista etc. Negar a própria ideologia é despolitizante, vai contra o primado da coerência que deve reger a relação do político com o eleitor.
A previsibilidade de voto do Senador é crucial para os eleitores e grupos organizados (setores econômicos, movimentos sociais, sindicatos, igrejas) querem saber como o senador tende a votar em pautas sensíveis. A ideologia é que garante isso.
Ao desenvolver uma campanha totalmente descaracterizada, cinzenta, tanto que todas as cores são permitidas menos a vermelha, a marquetagem do Jorge aposta na falta de memória do eleitor e na habilidade discursiva do candidato que passou a servir cafezinho a adversários, em um exercício de humildade que deve embrulhar seu estômago acostumado aos convescotes de Dubai. Já se vão meses de permanente e massiva exposição na mídia, com entrevistas sistemáticas e perguntas adocicadas, adequadas para a narrativa desideologizada. Em vários momentos faz questão de afirmar que não quer saber de ideologia, como se os eleitores fossem “os bestas daqui” a serem ludibriados.
No fundo, Jorge Viana quer e depende de quebrar a rejeição a si, à esquerda e ao seu partido. Dado a exercícios estatísticos, eu mesmo fiz diversas simulações com base nas pesquisas do Instituto DELTA para verificar as suas possibilidades de vitória, e posso afirmar que ela depende de quanta rejeição ele diminua no curso da campanha. Se conseguir efetivamente sair do lago vermelho onde sempre navegou, será difícil contê-lo. Ele sabe disso, seu partido entendeu isso, seus marqueteiros operam isso e o eleitor talvez não perceba isso. A não ser que…
A não ser que os seus adversários também se deem conta e, como diria Sun Tzu, concentrem seus esforços em atacar suas fraquezas. Com um campo político majoritário na base de dois terços, é bastante factível reposicionar os candidatos de direita, todos eles, se, ao invés de brigarem internamente, cuidarem de fortalecer a rejeição ao candidato petista. Se não o fizerem, ao invés de disputarem duas vagas, ficarão se esbofeteando por uma apenas. É preciso desmascarar o oponente, e razões não faltam.
Como o Senado cuida dos grandes temas nacionais, é necessário trazer esses assuntos ao debate. Não se trata de diminuir o ICMS do café como ele falsamente cogitou em discurso recente para uma plateia incauta em C. Sul, mas de diminuir a carga tributária nacional que bate recordes sob o governo que ele defende. Não se trata de acusar a fuga de acreanos para outros centros, mas de reconhecer que o fato, verdadeiro, diga-se, é devido ao travamento do desenvolvimento da Amazônia promovido pelo seu próprio governo.
Em algum momento o petista terá que ser chamado à responsabilidade. Vai ficar sambando sobre 20 anos de domínio do Acre? Esqueceu o fracasso da Florestania? Endossa a legislação mineral para a Amazônia? Alguém precisa lembrar. A quem se deve o aumento brutal da violência, senão à leniência esquerdista com o narcoterrorismo? Por que a classe média está diminuindo gravemente no Brasil? Vai continuar coonestando os escândalos de corrupção do governo Lula? E o desastre na educação e na saúde, ainda vão debitar ao Bolsonaro? A ideologia pela qual milita o candidato petista é âncora de todas essas mazelas.
Muitos outros exemplos eu poderia desenhar demonstrando que não é muito difícil erguer um muro discursivo para Jorge Viana e encerrá-lo em seus limites esquerdistas, basta querer e executar. Jorge é PT e o PT é Jorge. Isto posto e adotado pelos candidatos à direita seguramente fará funcionar a lógica – dois terços é mais que um terço sempre. Se não ocorrer é porque alguém não fez o dever de casa.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP












