SAÚDE
SAMU completa 22 anos como a linha de frente que corre contra o tempo para salvar vidas no Acre

Há sons que anunciam perigo. Outros anunciam a esperança.
No Acre, há 22 anos, o toque de um telefone e o som de uma sirene passaram a representar mais do que uma emergência. Tornaram-se, para milhares de famílias, a possibilidade de ganhar alguns minutos — e, em situações extremas, alguns minutos podem significar a diferença entre a vida e a morte.
É nessa corrida contra o relógio que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) construiu sua história no Acre. Criado oficialmente em 31 de agosto de 2004, o serviço nasceu pequeno, com apenas uma ambulância de suporte básico e outra de suporte avançado. Duas viaturas para enfrentar as distâncias de um Estado marcado por rios, estradas longas, comunidades isoladas e desafios geográficos que, muitas vezes, transformam o atendimento médico em uma verdadeira operação de resgate.
Duas décadas depois, a realidade é outra. O SAMU se expandiu, ampliou equipes, renovou sua frota, incorporou tecnologia e passou a contar inclusive com atendimento aeromédico em parceria com a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). A estrutura permitiu levar atendimento especializado a regiões onde o tempo de deslocamento terrestre pode representar um obstáculo quase tão grande quanto a própria emergência.
Em mais de duas décadas, o serviço ultrapassou a marca de 110 mil atendimentos de urgência, segundo registros oficiais.
Mas números, embora importantes para dimensionar uma política pública, não conseguem contar tudo.
Por trás de cada ocorrência existe uma história. Uma pessoa caída no asfalto. Uma família desesperada. Uma criança com dificuldade para respirar. Uma gestante em trabalho de parto. Um paciente vítima de AVC ou infarto. Um acidente às margens de uma rodovia. Em algum ponto do Acre, quase sempre existe alguém esperando ouvir uma frase simples: “A equipe do SAMU está chegando”.
E é justamente nesse intervalo entre o chamado e a chegada da ambulância que o trabalho da equipe começa.

O SAMU não começa quando a ambulância deixa a base. Ele começa quando o telefone toca. Do outro lado da linha está a regulação médica, responsável por ouvir, avaliar e definir a resposta adequada para cada situação. É uma engrenagem silenciosa, muitas vezes invisível para quem espera na rua, mas fundamental para que o atendimento aconteça de maneira rápida e segura.
É nesse universo que está a médica reguladora Dulce Gomes. Há 14 anos, ela integra o SAMU e, desde abril deste ano, assumiu a coordenação geral do serviço.
A experiência acumulada ao longo de mais de uma década permite a ela conhecer o SAMU não apenas pela perspectiva da gestão, mas também pela rotina de quem atende ocorrências, orienta equipes e acompanha, de dentro da estrutura, a evolução do serviço.

Para Dulce, os 22 anos representam uma trajetória construída por profissionais que aprenderam a trabalhar onde não existe espaço para hesitação.
O serviço funciona 24 horas por dia, ininterruptamente, com escuta médica e equipes de suporte básico e avançado preparadas para diferentes tipos de agravos. A missão é prestar atendimento pré-hospitalar móvel e reduzir os danos provocados por situações clínicas, traumáticas, psiquiátricas e pediátricas.
O que começou com duas ambulâncias tornou-se uma rede que alcança diferentes regiões do Estado e incorpora recursos tecnológicos, novas viaturas e estratégias para vencer as distâncias amazônicas.
No Acre, salvar uma vida muitas vezes significa vencer a geografia. O mapa impõe dificuldades que não aparecem em grandes centros urbanos. Há comunidades distantes, rios, estradas que podem se tornar difíceis em determinados períodos do ano e municípios separados por centenas de quilômetros.
Foi nesse cenário que o serviço aeromédico ganhou importância estratégica.
Em parceria com a Segurança Pública, equipes do SAMU passaram a utilizar aeronaves para alcançar áreas de difícil acesso e realizar transferências de pacientes em situações de maior complexidade. A integração entre saúde e segurança encurtou distâncias que, pela estrada, poderiam consumir horas.
A lógica é simples, embora a execução seja complexa: quando o paciente não pode esperar, o atendimento precisa encontrar um caminho.
Foi também com essa perspectiva que o Estado reforçou recentemente a frota do SAMU. Em junho, foram entregues 15 novas ambulâncias destinadas ao serviço, ampliando a capacidade de resposta da rede de urgência. Na ocasião, o secretário de Estado de Saúde, José Bestene, resumiu o sentido da renovação da frota: “É a saúde mais perto do cidadão que se acidenta. Isso vai poder salvar muitas pessoas.”
Bestene também destacou que os veículos foram equipados para atender diferentes tipos de pacientes e situações de emergência.
A declaração traduz uma das principais características do SAMU: sua função não é apenas transportar pacientes. É chegar antes, estabilizar, cuidar e, quando necessário, manter a vida durante o percurso até a unidade hospitalar.
Em uma emergência, o tempo não é apenas uma medida. É um adversário.
Cada minuto pode representar uma chance a mais para um coração voltar a bater, para um cérebro sofrer menos danos ou para uma vítima de trauma chegar viva ao hospital. Por isso, a evolução do SAMU também passa pela tecnologia.
Ao longo dos anos, o serviço incorporou ferramentas digitais e modernizou seus sistemas de comunicação. Em 2020, por exemplo, investimentos em equipamentos digitais permitiram ampliar a capacidade de atendimento simultâneo das chamadas em Rio Branco.
A modernização também chegou às ambulâncias e à estrutura operacional. A renovação da frota passou a ser uma das estratégias para reduzir o tempo de resposta e oferecer melhores condições às equipes que trabalham na linha de frente.
22 anos de histórias que não cabem nas estatísticas
Há uma tentação comum quando se fala de saúde pública: transformar tudo em números. São ambulâncias, municípios atendidos, quilômetros percorridos e milhares de ocorrências registradas. Mas o SAMU é feito de histórias que não cabem em planilhas. É o socorrista que chega primeiro a um acidente. É o médico que, ainda na central, tenta compreender a gravidade de uma ocorrência a partir da voz aflita de quem pede ajuda.
É o condutor que conhece caminhos e atalhos. É o enfermeiro que estabiliza uma vítima dentro de uma ambulância em movimento. É a equipe que atravessa a madrugada para chegar a uma comunidade distante. É a aeronave que decola quando a estrada já não é uma opção. E é, sobretudo, a família que vê a ambulância chegar e percebe que, finalmente, a ajuda está ali.
O crescimento não apagou a essência do serviço. Pelo contrário. A missão continua a mesma: atender quem precisa, quando precisa e onde estiver. Em Rio Branco, assim como nos demais municípios acreanos, a sirene de uma ambulância já faz parte da paisagem urbana. Nas rodovias, seu som anuncia que uma equipe está a caminho. Nos bairros, pode significar que uma família acaba de pedir socorro. Para quem está dentro da ambulância, entretanto, aquela sirene representa algo maior. Representa urgência. Representa responsabilidade. Representa esperança.












