CULTURA & ENTRETENIMENTO
Acre tem quase 300 mil crianças e adolescentes e uma geração que crescerá entre a floresta, a tecnologia e os desafios do futuro

Neste Dia das Crianças, celebrado nesta segunda-feira (12), o Acre tem quase 300 mil razões para pensar no amanhã. São meninos e meninas que crescem entre cidades, rios, florestas e comunidades rurais, em um estado onde a infância ainda ocupa uma parcela expressiva da população. O futuro dessa geração começa a ser desenhado agora, nas escolas, nas condições de vida das famílias e nas oportunidades que encontrarão pela frente.
Segundo projeção populacional utilizada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Acre reúne 298.170 moradores de 0 a 19 anos em 2026. Desse total, 152.455 são do sexo masculino e 145.715 do feminino. O recorte inclui crianças e adolescentes, não apenas a população infantil com menos de 12 anos.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que o estado tenha 887.794 habitantes em 2026. Assim, aproximadamente um terço da população acreana está na faixa de até 19 anos.
Mas o Acre também está mudando de idade. Em 1980, crianças de até 14 anos representavam 47,5% dos habitantes. No Censo de 2022, essa participação havia caído para 26,6%. Em quatro décadas, o estado passou de uma população formada quase pela metade por crianças para uma estrutura etária mais adulta.
Essa transformação significa que as novas gerações crescerão em um Acre diferente daquele conhecido por seus pais e avós. Famílias menores, maior presença de idosos e novas demandas por educação, saúde e trabalho deverão influenciar as decisões públicas nas próximas décadas.
O primeiro grande desafio está na escola. Dados apresentados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostram que, em 2024, apenas 51% das crianças do 2º ano do ensino fundamental da rede municipal acreana estavam alfabetizadas.
Em outras palavras, praticamente metade ainda não havia alcançado o padrão de alfabetização esperado para essa etapa. O mesmo levantamento registrou abandono escolar de 1,7% entre os estudantes da rede pública do ensino fundamental em 2024.
Os números revelam que o futuro começa muito antes da escolha de uma profissão. Aprender a ler na idade adequada, permanecer na escola e concluir os estudos são condições decisivas para ampliar as possibilidades de vida.
O desafio ganha contornos particulares em um território de grandes distâncias. Para muitas crianças, chegar à sala de aula significa percorrer estradas de terra, navegar por rios ou enfrentar dificuldades de transporte durante determinados períodos do ano.
A conectividade acrescenta outra dimensão. A geração que hoje aprende as primeiras letras encontrará um mercado de trabalho cada vez mais influenciado pela inteligência artificial, pela automação e pelas tecnologias digitais.
Isso significa que a escola acreana precisará oferecer mais do que alfabetização tradicional. O domínio da leitura, da matemática, das ferramentas digitais e da capacidade de interpretar informações será cada vez mais importante.
O futuro também passa pela saúde e pelas condições de moradia. Água tratada, saneamento, alimentação adequada, vacinação e acompanhamento na primeira infância influenciam o desenvolvimento físico e intelectual das crianças.
O Unicef chama atenção para o fato de que a pobreza infantil não se resume à falta de dinheiro. Ela também aparece quando uma criança não dispõe de educação, informação, moradia adequada, água ou saneamento.
No Acre, as mudanças climáticas acrescentam uma preocupação especial. As crianças de hoje chegarão à vida adulta em um período no qual estiagens, enchentes, calor intenso e queimadas poderão exigir adaptações na rotina das cidades e das comunidades.
Ao mesmo tempo, essa geração poderá encontrar novas oportunidades na bioeconomia, na pesquisa científica, na produção sustentável e nas atividades relacionadas à conservação da Amazônia.
A floresta, que hoje faz parte da paisagem e da identidade de milhares de crianças acreanas, poderá ocupar um espaço ainda maior nas profissões do futuro, da biotecnologia ao manejo florestal, da pesquisa ambiental à inovação.
Há também uma transformação cultural em andamento. Crianças indígenas, ribeirinhas, urbanas e rurais crescem em realidades diferentes, mas compartilham o direito de aprender, brincar, desenvolver suas capacidades e participar da sociedade.
Em março de 2026, representantes dos 22 municípios acreanos participaram de uma mobilização do Unicef voltada ao fortalecimento da educação. A iniciativa integra o Selo Unicef 2025-2028, que acompanha políticas de proteção à infância e à adolescência.
O encontro reuniu 78 participantes e tratou de alfabetização, conectividade, permanência escolar e preparação para a transição entre os estudos e o mundo do trabalho.
A preocupação tem uma razão demográfica. As crianças que hoje estão nos primeiros anos escolares chegarão à juventude e à vida adulta entre as décadas de 2030 e 2040, período em que o Acre terá uma população proporcionalmente mais envelhecida.
Serão elas que ocuparão universidades, hospitais, empresas, propriedades rurais, laboratórios e repartições públicas. Também participarão das decisões sobre o uso da terra, a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico do estado.
O Dia das Crianças, portanto, permite olhar além dos brinquedos e das comemorações. Os quase 300 mil acreanos de até 19 anos representam uma geração que viverá mudanças demográficas, ambientais e tecnológicas profundas.
O que o futuro reserva para eles não está inteiramente escrito. Parte dessa história dependerá das escolhas feitas hoje, especialmente da capacidade de transformar o direito à educação, à saúde e à proteção em condições reais de vida.
No Acre de 2026, o amanhã já tem rosto, idade e endereço. Está nas escolas de Rio Branco, nas comunidades do Juruá, nos municípios do Alto Acre e nas localidades mais distantes da floresta. E começa, todos os dias, com uma criança descobrindo o mundo.












