POLÍTICA
Artigo – 52% do eleitorado do Acre é formado por mulheres. E nenhuma foi eleita para a ALEAC – Isnailda Silva

Há números que, sozinhos, já nos fazem parar para pensar.
Nas eleições de 2026, o Acre chegou às urnas com cerca de 614 mil eleitores. Aproximadamente 317 mil são mulheres. Somos 52% do eleitorado acreano.
Somos maioria entre aqueles que escolhem quem vai nos representar.
Mas, a partir de 2027, nenhuma das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa do Acre será ocupada por uma mulher.
E o que isso significa? Se não há mulheres legislando, temas como: violência doméstica, feminicídio, educação infantil, enfrentamento à gravidez na adolescência, transporte escolar para meninas do campo e protocolos contra assédio nas escolas demoram mais para virar lei e orçamento. Ter “lugar de fala”, é ponto de partida para escuta. Os deputados eleitos têm toda legitimidade para legislar sobre direitos das mulheres, mas precisam começar a incluí-las mais em suas pautas, sejam elas negras, brancas, camponesas, indígenas, trans, professoras, alunas, mães atípicas…
A escolha das urnas precisa ser respeitada. Não se trata de questionar a legitimidade dos homens eleitos, tampouco de defender que uma mulher deva ser escolhida simplesmente por ser mulher.
Mas é impossível olhar para esse resultado e não fazer uma pergunta: como podemos ser maioria entre os eleitores e, ao mesmo tempo, não ter nenhuma mulher entre os 24 deputados estaduais eleitos?
Essa resposta não pode ser reduzida à velha frase de que “mulher não vota em mulher”. Considerando que elegemos uma Senadora, duas Deputadas Federais e colocamos a Chapa que compõem duas mulheres para disputa ao Governo para o segundo turno. O que seria uma forma de culpar a mulher.
Mulheres não pensam todas da mesma maneira. Temos histórias diferentes, prioridades diferentes e também escolhas políticas diferentes.
A questão, portanto, é mais ampla. Precisamos olhar para o caminho que existe entre uma mulher decidir ser candidata e, de fato, conseguir chegar a um espaço de poder.
Ser candidata não significa necessariamente ter estrutura, recursos, equipe, apoio partidário, visibilidade ou condições de fazer uma campanha competitiva.
A legislação avançou e criou mecanismos importantes para estimular a participação feminina. Mas sabemos que colocar mulheres na lista de candidaturas não basta.
É preciso formar lideranças. Dar espaço dentro dos partidos. Garantir condições de disputa. Incentivar novas mulheres a entrarem na política e, principalmente, criar um ambiente em que elas se sintam pertencentes a esses espaços.
Uma pesquisa realizada pela iniciativa Me Farei Ouvir, realizada em 2018 sobre o perfil da mulher na política mostrou que 40,6% das entrevistadas acreditavam não ter perfil para a política. Ao mesmo tempo, 98% entendiam que eram necessárias mais mulheres nos espaços de poder.
Essa contradição diz muito.
Queremos ver mais mulheres na política, mas ainda precisamos construir uma sociedade em que as próprias mulheres se reconheçam como capazes de ocupar esses lugares.
E isso começa muito antes de uma eleição.
Começa quando uma menina aprende que pode liderar. Quando uma jovem entende que sua voz importa. Quando uma mulher participa de uma associação, de um conselho, de um movimento social, de uma instituição ou de um partido e percebe que também pode contribuir para as decisões que afetam sua comunidade.
A política não começa na urna.
Uma liderança é construída muito antes dela.
Também precisamos falar de SORORIDADE, mas sem romantizá-la. Não significa votar em uma mulher simplesmente porque ela é mulher. Significa compreender que podemos discordar politicamente e, ainda assim, reconhecer que mulheres precisam ter as mesmas oportunidades de ocupar espaços de decisão.
O resultado desta eleição torna essa discussão ainda mais necessária.
Não estamos falando de uma ou duas cadeiras.
Estamos falando de zero mulheres em uma Assembleia de 24 deputados.
E isso acontece em um estado onde as mulheres representam mais da metade do eleitorado.
Por isso, talvez seja mais importante perguntar o que aconteceu antes do voto.
Quantas mulheres chegaram efetivamente à disputa? Quantas tiveram estrutura? Quantas tiveram recursos? Quantas receberam apoio de seus partidos? Quantas conseguiram construir uma trajetória política capaz de colocá-las em condições reais de vitória?
E, principalmente: o que estamos fazendo hoje para formar as mulheres que ocuparão esses espaços amanhã?
Não precisamos de mulheres na política apenas para cumprir uma estatística.
Precisamos de mulheres preparadas, conscientes, livres para defender suas ideias e projetos e capazes de ocupar espaços de decisão.
Os homens eleitos para a Assembleia também podem — e devem — defender os direitos das mulheres. A defesa de uma sociedade mais justa não é responsabilidade exclusiva das mulheres.
Mas a ausência completa de mulheres naquele espaço revela que ainda temos um longo caminho pela frente.
Porque democracia também é representatividade.
Quando mais da metade dos eleitores é mulher, mas nenhuma mulher ocupa uma das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa, temos, no mínimo, uma realidade que merece ser discutida.
Não para encontrar culpados.
Mas para entender o que precisamos mudar.
E essa mudança não pode começar apenas quando chegar a próxima eleição.
Ela precisa começar agora!
Bacharel em Direito, especialista em direitos das mulheres e políticas públicas de gênero, com atuação na gestão de políticas sociais.










