COLUNAS
EGOÍSMO NOS CONTOS MACHADIANOS
Um dos contos mais trágicos de Machado de Assis, “Pai contra Mãe”, fala da indiferença à dor do outro, ou seja, aborda o egoísmo em sua essência.
O conto começa apresentando Cândido Neves, um homem que não conseguia se adaptar a nenhum emprego. Tentou trabalhar no comércio, em uma fábrica e em outras atividades, mas não tinha habilidade, paciência nem comportamento adequado para conviver com os colegas de trabalho. Até que passou a trabalhar na captura de escravos foragidos, como uma espécie de capitão do mato. Como essa atividade lhe dava certa autoridade e não o obrigava a cumprir ordens nem a conviver diariamente com outras pessoas, começou a viver desses trabalhos eventuais.
Com o passar do tempo, conheceu uma moça muito bonita. Os dois começaram a namorar, mas a mãe de Cândido logo o advertiu de que a situação financeira já era difícil, até mesmo para a manutenção dos dois. Se ele colocasse mais uma boca para alimentar, tudo ficaria ainda mais complicado.
Cândido Neves, porém, não ouviu o conselho. Casou-se e, algum tempo depois, sua mulher engravidou. A criança nasceu, era um menino, e sua mãe novamente o advertiu: não havia condições de sustentar mais uma pessoa. Por isso, sugeriu que colocassem a criança na roda dos enjeitados.
Para quem não conhece, naquela época existia a chamada Roda dos Expostos, presente em instituições de caridade e orfanatos. Tratava-se de uma abertura na parede, com um mecanismo giratório no qual a pessoa colocava a criança do lado de fora e, ao girar a roda, ela era encaminhada para o lado de dentro da instituição. Dessa forma, a criança era acolhida como órfã e a pessoa que a entregava não era identificada.
A situação da família realmente ficou insustentável. A mãe de Cândido convenceu o filho a colocar o menino na roda. No entanto, Cândido Neves e sua mulher não aceitavam facilmente essa situação. Já estavam devendo a várias pessoas, enfrentavam dificuldades financeiras e estavam prestes a ser despejados da casa onde moravam.
Em meio ao desespero, Cândido viu um anúncio oferecendo cinco mil-réis pela captura de uma escrava que havia fugido de seu senhor. No dia seguinte, sua mulher deu a última mamada ao menino, e Cândido saiu de casa com a intenção de levá-lo à roda.
No caminho, porém, começou a seguir por um trajeto mais longo. Em uma das vielas, avistou a escrava que valia os cinco mil-réis. Surpreso, entrou em uma farmácia e pediu ao farmacêutico que segurasse a criança, dizendo que voltaria em seguida. O homem ficou surpreso, mas acabou aceitando.
Cândido Neves saiu correndo atrás da escrava. Chamou-a pelo nome e, quando ela se virou, ele imediatamente começou a amarrá-la e arrastá-la. Ela implorou que não fizesse aquilo, pois estava grávida e seu senhor poderia açoitá-la até a morte. Pediu que ele pensasse em tudo o que havia de sagrado. Mesmo assim, Cândido não se comoveu e a levou até o seu dono.
No momento da entrega, recebeu o dinheiro. A escrava, desesperada, jogou-se ao chão, contorcendo-se de dor, e acabou abortando a criança, que nasceu morta. Cândido, entretanto, não demonstrou compaixão. Depois de receber o pagamento, voltou à farmácia para buscar seu filho e levá-lo para casa.
No caminho de volta, pensava: “Nem todas as crianças vingam.” Ou seja, seu filho havia sido salvo, enquanto, na visão dele, o filho da escrava era apenas uma das crianças que não vingaram.
A mensagem transmitida pelo conto continua atual. Machado de Assis mostra como o egoísmo pode fazer com que uma pessoa se preocupe apenas com a própria sobrevivência e com a solução de seus problemas, tornando-se indiferente ao sofrimento dos outros. Cândido resolve seu problema e salva o próprio filho, mas isso acontece às custas da vida e do sofrimento de outra criança.
Essa situação pode ser relacionada aos dias atuais, quando, muitas vezes, as pessoas pensam apenas em resolver os próprios problemas, sem se importar com as consequências de suas atitudes para os outros. O sofrimento alheio deixa de ter importância quando entra em conflito com os interesses individuais.
Assim, “Pai contra Mãe” mostra que a indiferença diante da dor do outro é uma das formas mais profundas de egoísmo. Ao mesmo tempo, o conto nos leva a refletir sobre uma contradição: quando alguém age com indiferença diante dos problemas alheios, não pode esperar que os outros tenham compaixão diante de seus próprios problemas. A obra, portanto, apresenta uma crítica social muito forte e permanece atual justamente porque revela como, em situações de necessidade e desigualdade, a sobrevivência de uns pode acontecer às custas do sofrimento de outros.










