ESPORTE
Jornalista esportivo conta um pouco da biografia de Toniquim

Conhecedor profundo da história do futebol acreano, o jornalista e historiador Manoel Façanha aproveitou o momento da inauguração do “Memorial Toniquim” para contar um pouco da história do ex-presidente da Federação de Futebol do Acre (FFAC), advogado Antonio Aquino Lopes (Toniquim). Façanha explicou que não foi tarefa nada fácil construir a história de um dos personagens mais emblemáticos do futebol acreano, isso justificado pela sua vivência ativa por quase seis décadas no mundo futebolistico. O jornalista explicou que dedicou horas de pesquisas para identificar contextos temporais, personagens, eventos e para construir em fotos e legendas parte da história do personagem. “Foi um trabalho árduo e realizado com muita responsabilidade para não cometermos equívocos”, disse o jornalista, afirmando ainda que foi um mergulho na história do personagem e de parte da memória do futebol acreano.
De origem nordestina e nascido no bairro da Sobral, Toniquim também foi atleta e treinador
De origem nordestina, o presidente Antônio Aquino Lopes era filho do soldado da borracha e comerciante potiguar Acelino Aquino e da senhora Araci Lopes Aquino. Toniquim nasceu em 1947, no Seringal Bagé, onde hoje está localizado o populoso bairro da Sobral. Segundo Façanha, o início da carreira futebolística do personagem, primeiramente, ocorreu como atleta em 1967, na base do Vasco da Gama-AC, transferindo-se de lá para a equipe amadora do São Raimundo e, posteriormente, para uma rápida passagem pelo Atlético Acreano, onde sequer chegou a estrear com a camisa celeste, até chegar ao clube do coração, o Amapá, agremiação fundada em 1969 e chamada carinhosamente no meio esportivo acreano de “Diabo Laranja”. No Amapá, além de ponteiro esquerdo e ainda assumir a função de treinador (um faz tudo) e dar os seus primeiros passos como dirigente esportivo, foi no próprio clube, inclusive, assumindo a presidência e encaminhando a participação da agremiação na elite do futebol acreano a partir de 1975.


O perfil de liderança de Toniquim, aos poucos, abriu novos horizontes na carreia como dirigente esportivo. Segundo Façanha, na temporada de 1981, ele assumiu o cargo de representante do Atlético Acreano nas reuniões ocorridas na então FAD, mas ficou apenas uma temporada, transferindo-se no ano seguinte para o Rio Branco. No “Mais Querido”, ele ocupou o cargo de diretor de futebol e ainda o de treinador interino durante a fase final do Campeonato Acreano de 1982, ano em que o arquirrival Juventus conquistou o tricampeonato estadual. Façanha lembrou ainda que no próprio Estrelão, num amistoso contra o Vasco da Gama-RJ, em junho de 1982, Toniquim já demostrava personalidade de líder destemido. Um fato curioso ocorreu momentos antes daquele jogo amistoso interestadual. O então volante Mário Sales negociava reajuste salarial com a diretoria estrelada, mas as negociações não avançavam e o atleta numa forma de reivindicar seus direitos resolveu “relaxar” durante os treinamentos. O técnico paraense Osvaldo Dahas, não contente com aquela situação, tratou de não escalar Mário Sales entre os titulares para o jogo amistoso contra o clube carioca, de Roberto Dinamite e Claudio Adão, optando pelo futebol do juvenil Mauricinho. No entanto, após as equipes entrarem em campo com uniformes de cores semelhantes (branca, o Rio Branco retornou para os vestiários e a camisa titular, não a branca, mas sim a vermelha, voltou ao corpo de Mário Sales pelas mãos de Toniquim, não de Dahas. Façanha concluiu afirmando que o Estrelão perdeu o jogo (1 a 0, gol de Claudio Adão), o treinador Osvaldo Dahas deixou o cargo (pediu demissão), mas o volante Mário Sales não somente seguiu no clube estrelado como foi escolhido como um dos melhores jogadores do Rio Branco naquela histórica partida. E, quanto ao Mauricinho, o jornalista afirmou que ele entrou no transcorrer do jogo na vaga do próprio Mário Sales.

Primeira eleição vencida na FFAC foi por um voto
Toniquim durante as rodas de bate-papo com os amigos sempre deixava claro que era um ser humano que gostava de desafios. E gostava mesmo! No ano de 1983, a convite do presidente do então presidente da Federação Acreana de Desportos (FAD), o cronista esportivo Campos Pereira, resolveu aceitar o cargo de diretor do departamento técnico da entidade, uma das pastas mais importantes dentro de uma entidade futebolística. O aguçado conhecimento da legislação desportiva, associado ao trabalho sério, credenciou Toniquim a postular o cargo de presidente da mentora, numa candidatura “bancada” pelo presidente do Rio Branco FC, o agropecuarista Wilson Barbosa, que havia “rompido” com o dirigente Campos Pereira, isso devido a uma divergência de interpretação de regulamento – Campeonato Acreano de Juniores de 1982, onde o Rio Branco perdeu o título pelo fato de não comparecer ao jogo decisivo contra o Juventus, ocorrido no estádio Dom Giocondo, numa forma de protesto à decisão do presidente Campos Pereira.

Toniquim foi voto de Minerva na CBF e FFAC ganha sede própria

O historiador lembrou ainda que dois anos depois o próprio Toniquim se tornou a figura principal durante as eleições acirradíssimas à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De acordo com Façanha, o dirigente acreano foi voto de Minerva naquele pleito que apontou vitória do presidente Otávio Pinto Guimarães, em 1986, ao superar o candidato de situação Nélson Medrado Dias, por 13 a 12. O saldo do apoio político, do habilidoso negociador, veio dois anos depois com a inauguração da sede própria da Federação de Futebol do Acre (FFAC), localizada no bairro da Capoeira, com a presença do próprio presidente Otávio Pinto Guimarães.


Numa viagem na história administrativa da FFAC, Manoel Façanha explicou que, com a chegada de Toniquim à presidência, a entidade ganhou em vários aspectos organizacionais. E uma das principais metas do dirigente nos seus primeiros anos de administração era fazer com que a entidade viesse a ganhar legitimidade jurídica no Conselho Nacional de Desportos (CND) e ainda conduzir os clubes à profissionalização, algo ocorrido em 1989.
Da necessidade surgiu a ideia da construção do Tonicão

O jornalista esportivo seguiu sua narrativa dizendo que com a adesão dos clubes locais ao profissionalismo, a participação das equipes acreanas em competições nacionais passou a ser uma constante a cada ano. O lendário Stadium José de Melo passou a ser pequeno para receber a presença de grandes clubes nacionais como: Corinthians, São Paulo, Flamengo, Cruzeiro, Atlético-MG, Guarani-SP, Tolima-COL, Ceará-CE, Paysandu, Clube do Remo entre outras agremiações. Neste período eram constantes as reclamações da infraestrutura do José de Melo. Triste com as críticas ao único palco dos jogos oficiais no estado, Toniquim colocou na cabeça que era necessária a construção de um estádio para atender grandes jogos e buscou apoio na Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O então presidente Ricardo Teixeira recebeu a ideia de braços abertos e, aos poucos, foi alocando recursos para a compra da área e, posteriormente, das obras, isso no finalzinho da década de 1990 com o serviço já de terraplanagem da área de construção do estádio.

O jornalista Manoel Façanha afirmou que foi mais de uma década de obras para o primeiro jogo oficial ser realizado no estádio Florestão, isso em 2011. A respeito do nome da praça esportiva, o historiador explicou que após uma assembleia de clubes, houve a aprovação para a praça esportiva ser batizada com o nome de Antônio Aquino Lopes (Tonicão), mas, aos poucos, foi trocada por Florestão, nome que agradou o presidente Aquino Lopes. Neste espaço físico pisaram grandes nomes do futebol brasileiro como Neymar, Tiago Silva, PH Ganso, Ricardinho, Carlinhos, Lucas Leiva entre outros nomes, algo que orgulhava muito Toniquim.

Conforme informação colhida pela reportagem, o patrimônio da Federação de Futebol do Acre (FFAC) está estimado no valor de RS 50 milhões (estádio e sede administrativa). Lembrando que, quando Aquino Lopes recebeu a entidade, não havia sede própria.

Várias copas do Mundo e chefe de delegação
De acordo com o jornalista Manoel Façanha, o papel de maior dirigente esportivo do Acre contribuiu decisivamente para que o presidente Toniquim ganhasse “asas” durante esses 41 anos de atividades como gestor esportivo. Neste período, o dirigente percorreu o planeta, ora como convidado de honra da CBF para assistir jogos da Copa do Mundo e entre outros torneios, ora como delegado da CBF em congressos esportivos, inclusive da FIFA, onde podemos citar os ocorridos nas cidades Marrakech-2005 e dois em Zurique-2015 e 2016. O primeiro com à eleição de Sepp Blatter e, um ano depois, na mesma cidade suíça, com a chegada do atual presidente Giovanni Vincenzo Infantino ao poder político da entidade), e ainda ora como chefe de delegação em torneios internacionais, num deles, em 2010, no Japão, quando a seleção brasileira conquistou, de forma invicta, a Copa Sendai Sub-19, em jogos disputados contra França, Japão e China.




Manoel Façanha comentou ainda que o presidente Toniquim e o saudoso cronista esportivo Armando Nogueira, natural de Xapuri e um dos criadores do Jornal Nacional, da Rede Globo, talvez sejam os dois acreanos que mais estiveram presentes em edições de copas do Mundo. O jornalista cobriu 15 copas. A primeira delas em 1954, na suíça. Por outro lado, o dirigente esportivo Toniquim, entre 1986 – 2022 (dez edições), marcou presença na maioria dos torneios, sendo que o primeiro deles nos EUA (1986) e a último no Catar(2022).

Aquino Lopes chegou a vice-presidente da CBF (2019 – 2025)
Na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Toniquim transitava muito bem, isso ainda influenciado pelo voto decisivo a favor de Otávio Pinto Guimarães e à boa relação com Ricardo Teixeira e com os demais presidentes de federações, tanto que desde 2019 ele chegou a responder como um dos vice-presidentes da entidade, num mandato que seria vencido onze meses depois do seu falecimento.

Na política foi candidato duas vezes, mas não foi eleito
Aquino Lopes foi filiado ao PDS, antigo Partido Democrático Social, que substituiu a velha Arena, e depois ao PFL. Foi candidato duas vezes a deputado (estadual e federal) na década de 1990. Logo depois, ele desistiu da política e afirmou, no livro “Brava Gente Acreana”, que sua desistência seria por entender que “o problema político é totalmente diferente do esportivo, apesar da divulgação e do espaço que se tem na mídia. “A política é um jogo muito diferente” (palavras dele).

Toniquim deixou amigos e um legado esportivo
Falecido no dia 16 de abril de 2025, aos 78 anos, o presidente Antônio Aquino Lopes colecionou muitos amigos, entre os quais podemos citar: Sebastião de Melo Alencar (ex-presidente do Rio Branco, José Eugênio de Leão Braga, o Macapá (presidente do Independência), José Chalub Leite (jornalista), Azeitona (ex-jogador e ex-dirigente do Amapá), Tadeu Belém (ex-volante), Illimani Suares (ex-goleiro), Francisco Dandão (jornalista), Ezequias (dirigente do Rio Branco) e o empresário Adem Araújo entre outros.



O dirigente esportivo, mesmo a véspera da sua morte, costumeiramente, aos domingos, no estádio Florestinha, jogava animadas peladas com os amigos do Jumbo. O churrasco e a cervejinha após a pelada impulsionavam por horas os debates sobre o futebol brasileiro.

Antônio Aquino Lopes (Toniquim) era casado com a professora universitária Roselia Lopes, tinha duas filhas (Sanny e Mariane) e uma neta (Lorena).
















