Após intercorrência de saúde com a noiva, magistrada levou a cerimônia até a unidade de saúde para garantir o direito e concretizar o casamento
Histórias de amor costumam ser lembradas pelo vestido, pela cerimônia e pelos sorrisos compartilhados. Mas, às vezes, são as adversidades que revelam o verdadeiro significado de um compromisso.
Nesta quinta-feira, 30, no município de Rodrigues Alves, no Vale do Juruá, o tão esperado “sim” não aconteceu no palco do casamento coletivo do Projeto Cidadão para o casal Francisco Jader, 35 anos, e Francisca Mesquita, 39 anos.
A celebração para 91 casais, que foi realizada no estádio Pedro Santana, precisou ser transferida para os dois, para uma sala de emergência da unidade de saúde do município.
Nos últimos anos, a manicure tem enfrentado uma sequência de desafios que colocariam à prova qualquer pessoa. Sofreu um aborto espontâneo, passou por um quadro de eclâmpsia e, há oito meses, realiza tratamento oncológico. Ainda assim, alimentava o sonho de oficializar a união com Francisco Jader durante o tradicional casamento coletivo promovido pelo Poder Judiciário do Acre.
O casal, que já tem seis anos em união estável, chegou ao evento acompanhado da família. Além da expectativa pelo casamento, carregava também a esperança de melhorar a renda. Nesta semana, eles abririam um pequeno lanche no festival da cidade para conseguir um dinheiro extra. Porém, antes que a cerimônia fosse concluída, Francisca passou mal e precisou ser encaminhada à unidade de saúde do município.




O sonho parecia interrompido. Mas foi justamente nesse momento que o propósito do Projeto Cidadão mostrou sua essência.
Sensibilizada com a situação, após finalizar o casamento no estádio, a juíza de direito Mirella Ribeiro, titular da Comarca de Rodrigues Alves, dirigiu-se até a unidade de saúde para oficializar a união de Francisco de Francisca. Antes do ato, pediu autorização à equipe plantonista e fez questão de confirmar, diante da noiva e dos familiares, que a decisão de oficializar a união era livre e espontânea.
Com tudo preparado, a sala de emergência transformou-se, por alguns instantes, em um altar. Ao lado da mãe do noivo, da enfermeira Bianca Matos — que acompanhou a família desde o estádio onde acontecia o Projeto Cidadão até a unidade de saúde —, a magistrada conduziu a cerimônia que emocionou todos os presentes.
Bastante emocionada, Francisca agradeceu o gesto e confessou que jamais imaginou que se casaria daquela forma. O noivo também agradeceu a equipe pela sensibilidade com a situação.
Em resposta, a juíza Mirella Ribeiro a confortou, lembrando que essa é justamente a missão do Projeto Cidadão de aproximar a Justiça das pessoas, garantir direitos e tornar possíveis sonhos que, muitas vezes, parecem inalcançáveis.
“Não é porque o casal não estava lá, que não realizamos o casamento deles. Era o desejo da noiva [casar] e não custava nada irmos até ä unidade de saúde fazer o casamento dela. O Projeto Cidadão traz a concretização de sonhos para todo mundo. Até para mim, pois foi a primeira vez que realizei um casamento. Eles se habilitaram, levaram toda a documentação, então, isso significa que eles tinham um sonho. Não vai ser o local que vai impedir de concretizar esse sonho deles”, disse a magistrada destacando que o gesto simboliza o compromisso do Poder Judiciário do Acre com uma Justiça humanizada, capaz de enxergar as pessoas para além dos processos.
“O nosso Judiciário acreano compreende que cidadania também é acolhimento, sensibilidade e presença nos momentos em que ela é mais necessária. Ficamos muito felizes e realizados em poder proporcionar e concretizar esse sonho do casal”, finalizou.
O casamento coletivo do Projeto Cidadão em Rodrigues Alves reuniu 91 casais e encerrou mais uma edição da iniciativa, que há três décadas leva cidadania, dignidade e acesso a direitos às comunidades acreanas.
Fotos: Gleilson Miranda/Secom TJAC









