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Valterlucio Campelo

Espetáculo encenado no mesmo palco: A leitura do professor Raimundo sobre o cenário atual

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ESPETÁCULO ENCENADO NO MESMO PALCO

Ninguém deveria contestar, até porque os registros históricos estão à disposição para comprovar que, desde a descoberta do Brasil, passando pelo início da ocupação e pela formação da população que denominamos povo brasileiro, os administradores desta nação — inicialmente sob o Império Português e, posteriormente, sob o regime republicano, que perdura até os dias atuais — governaram e governam anunciando, especialmente em épocas de mudança de comando, que irão defender e administrar o país considerando todo o seu potencial, buscando implantar um ritmo de desenvolvimento capaz de fazê-lo avançar e retirá-lo do atraso, de forma que o povo seja beneficiado com a promoção do bem-estar e de uma vida melhor para todos.
No entanto, o que podemos constatar ao longo da história é que, na prática, esses governos têm se dedicado, quase que exclusivamente, a proteger e beneficiar o grupo de familiares, amigos e correligionários que os cerca. Para o povo, têm restado apenas as promessas. Ou seja, os governantes, muitas vezes, têm se comportado como se desprezassem a obrigação de governar em benefício do povo e do próprio país.
Segundo a análise da filósofa Lúcia Helena Galvão, escolher representantes e governantes envolve inúmeras dificuldades, até porque é praticamente impossível satisfazer e contemplar todas as expectativas, necessidades e anseios presentes na administração pública. Em meio a uma campanha para a mudança de comando, pode surgir um candidato com aptidão para construir casas populares; outro que se proponha a apoiar a agricultura familiar; outro que defenda a segurança pública; alguém que demonstre maior tendência a investir na área da saúde, entre tantas outras possibilidades.
Diante disso, as pessoas tendem a apoiar aquele candidato cuja proposta mais se aproxima de suas necessidades ou interesses. Entretanto, depois de eleito, esse governante será inevitavelmente cobrado para atuar com o mesmo empenho nas demais áreas. A partir daí, estará implantada a primeira frente de insatisfação e resistência ao seu governo.
Outra questão a ser considerada, por sinal muito presente em nossos dias, diz respeito ao problema da honestidade e da desonestidade durante as campanhas eleitorais. Imaginemos, por exemplo, dois candidatos: um honesto e outro desonesto. O honesto provavelmente se limitará a falar a verdade, procurando ser cauteloso naquilo que poderá efetivamente cumprir. Já o desonesto, ou inescrupuloso, tentará encantar o eleitor com fantasias, promessas grandiosas e, muitas vezes, mentiras.
Mesmo que, posteriormente, possa surgir algum arrependimento, nesse embate imediato pela conquista do voto o desonesto poderá levar vantagem. Afinal, se o candidato honesto disser durante a campanha que, caso seja eleito, o povo terá de enfrentar algumas dificuldades inicialmente para que, depois, a situação possa melhorar para todos, estará apresentando uma realidade que nem sempre é agradável de ouvir.
Por outro lado, aquele que prometer uma melhoria total e irrestrita, sem qualquer sacrifício por parte da população, certamente encontrará maior receptividade entre os eleitores. E é justamente nessa facilidade de acreditar no que se deseja ouvir que muitas vezes reside a força da promessa enganosa.
Infelizmente, cá estamos nós outra vez, diante da mesma cantilena, avaliando resultados previsíveis e assistindo a mais um espetáculo que tantas vezes já foi encenado sobre o mesmo palco. Mudam-se os personagens, renovam-se os discursos, multiplicam-se as promessas, mas, ao final, permanece a velha pergunta: até quando continuaremos acreditando naquilo que a própria história insiste em nos mostrar?

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