RAIMUNDO FERREIRA
Colunista professor Raimundo escreve sobre Malazartes e o imaginário popular

MALAZARTES E O IMAGINÁRIO POPULAR
Segundo alguns adágios populares, quem fala demais deve ter sido vacinado com agulha de eletrola, tomado água de badalo de chocalho e, por conta disso, pode dar bom-dia a cavalo, narrar algumas histórias cabeludas e passar a perna em muita gente, conforme praticava o antigo e popular personagem da cultura portuguesa, que se tornou também personagem do imaginário popular brasileiro: o famoso Pedro Malazartes.
Esse cidadão é considerado, no imaginário popular, um símbolo da esperteza, da inteligência e da criatividade. Suas peripécias geralmente eram alicerçadas na mentira, utilizada para enganar as pessoas em proveito próprio. E, como todo bom anedoteiro, tinha suas boas tiradas filosóficas. Ele não deixava por menos. Uma de suas teorias era: “As coisas são assim porque é o melhor jeito delas serem.”
Na obra Auto da Compadecida, posteriormente transformada em filme, Ariano Suassuna recuperou e recriou esse espírito anedótico e essa maneira debochada de apresentar histórias, numa forma despretensiosa que lembra muito a tradição de Pedro Malazartes. Especialmente nos personagens João Grilo e Chicó, podemos observar essa característica: eles narram fatos sem pé nem cabeça e, quando alguém pergunta como aquilo aconteceu, simplesmente respondem: “Sei não, só sei que foi assim.”
Apenas para situar, de forma sintética, segundo alguns registros históricos e mitológicos, os pais de Pedro Malazartes faleceram e, na partilha dos bens, seus irmãos ficaram com todos os espólios. A ele couberam apenas um tacho velho e um ganso. Então, saiu pelo mundo. Em determinado momento, encontrou algumas crianças abandonadas, fez amizade com elas e seguiram juntos.
Para ganhar a vida, começou a espalhar a notícia de que seu tacho era mágico, capaz de cozinhar a comida sozinho, e que seu ganso era falante e fazia aparecer qualquer objeto. Acontece que nenhuma dessas promessas era verdadeira. O povo começou a persegui-lo, juntamente com a meninada, e o problema acabou chegando aos tribunais. Mas, como ele sempre foi muito astuto e presepeiro, conseguiu se livrar das acusações.
A saga continua e, conforme podemos constatar fazendo uma pequena pesquisa, são milhares de causos, muitos deles ainda contados e recontados nos dias atuais.
É o caso da conhecida sopa de pedra, em que Malazartes fez uma aposta de que conseguiria convencer uma senhora muito avarenta a lhe fornecer os ingredientes necessários para preparar uma sopa. Dessa forma, começou a ferver algumas pedras e, com muita conversa, convenceu a senhora a lhe conceder temperos e outros ingredientes. Ao final, retirou as pedras e serviu uma deliciosa sopa.
Outra anedota curiosa de sua aventura aconteceu quando, como sempre, ele se meteu em uma confusão e passou a ser perseguido por uma tropa policial. Durante a perseguição, quando o comandante menos esperava, encontrou Malazartes no meio de um campo aberto, como se estivesse se lamentando, falando sozinho e com as mãos para cima.
O comandante parou e perguntou:
— O que está fazendo?
Malazartes respondeu, sem dar muita atenção:
— Estou aqui me sentindo culpado. Eu vinha fugindo, com o sangue quente, quando encontrei um boi pastando. O pobre animal não tinha nada a ver com o meu problema. Dei-lhe um supapo com a força que Deus me deu, e ele subiu. Não estou nem vendo mais o boi e estou aqui esperando ele cair para eu aparar.
O comandante ficou observando, olhou para cima e pensou:
— Para a gente não ser desmoralizado por esse amarelo, é melhor retornar…
Entre tantas anedotas, existe uma versão interessante que, inclusive, foi retratada no cinema: a história de seu trato com o demônio, a quem ele denominava de padrinho. Segundo essa versão, Malazartes morreu, foi para o inferno, enganou seu padrinho e voltou à vida.
Essa alegoria de pessoas que morrem e retornam à vida está presente inclusive na filosofia, como no Mito de Er, narrado por Platão. Depois, dizem que o demônio veio à Terra, encontrou Malazartes e o levou novamente consigo. No entanto, relata a história que, mais uma vez, ele enganou seu padrinho e retornou à Terra. Dessa segunda vez, teria recebido os poderes de uma longa vida.
Quando seu maior amigo, Zeca, o encontra, fica abismado e pergunta o que havia acontecido. Malazartes começa então a relatar como havia enganado o “Coisa Ruim” outra vez.
Nesse momento, seu amigo indaga:
— Mas isso não estava escrito na trajetória da vida?
Malazartes, de forma filosófica, responde:
— Não existe nada escrito. A gente é que vai vivendo e escrevendo a história da vida.
Talvez seja justamente essa a maior contribuição simbólica de Pedro Malazartes ao imaginário popular: a ideia de que a vida não é necessariamente uma história pronta, escrita antecipadamente, mas uma narrativa que vamos construindo à medida que caminhamos.
E, como se diz no final das boas anedotas:
Quem não gostou, que conte outra…







