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RAIMUNDO FERREIRA

Professor Raimundo Ferreira analisa o eleitor desavisado em sua coluna desta terça-feira

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ELEITOR DESAVISADOram

Pode parecer irracionalidade, desvio de personalidade, algum tipo de transtorno inexplicável, sintoma de loucura, completa anulação dos valores até então vigentes ou, ainda, um choque com outra realidade que invadiu a consciência de uma parcela da população.

A verdade é que, na visão e na intenção de quem internalizou e acredita na plataforma política de seu espectro ideológico, seja ele de direita ou de esquerda, o foco e a expectativa misturam fé com fanatismo. Isso não permite, sob hipótese alguma, admitir que as diretrizes de sua frente política ou de seu partido não sejam as melhores, tampouco aceitar que não representem a única opção capaz de resgatar as oportunidades perdidas, restabelecer a ordem e promover o tão esperado bem-estar para todos.

Por diversas vezes, já estivemos diante de situações dessa natureza, nas quais parcelas da população, movidas pela fé e pela expectativa de estarem defendendo a mudança necessária e suficiente para alcançar o bem comum, digladiam-se em campanhas políticas homéricas, até que, ao final, uma das partes saia vitoriosa.

Ou seja, poderíamos perfeitamente já ter alcançado o tão propalado desenvolvimento e progresso, tantas vezes anunciados durante as disputas eleitorais pela mudança de comando. No entanto, como todos sabemos, os benefícios e avanços defendidos nessas ocasiões ainda não nos colocaram na posição que o Brasil, considerando seu potencial em diversos setores, poderia ocupar no cenário sul-americano.

E cá estamos nós outra vez, sendo obrigados a digerir propagandas recheadas de promessas de que a mudança finalmente acontecerá e proporcionará benefícios a todos os setores da sociedade.

Em ambos os espectros políticos, a defesa de ideias, sustentada pela fé e pela esperança, continua alimentando confrontos nos meios de comunicação e nas praças públicas. Quanto ao entusiasmo, permanece intenso, talvez até mais aguerrido do que em tempos passados.

Vale ressaltar que, desta vez, a campanha conta com um ingrediente diferenciado: as redes sociais, que, utilizando-se dos recursos da inteligência artificial (IA), poderão auxiliar na elaboração de conteúdos aparentemente mais bem fundamentados e convincentes. Esses recursos, de certo modo, contribuem tanto para potencializar a divulgação de informações verdadeiras quanto para ampliar a disseminação de mentiras e distorções da realidade.

Ou seja, os conteúdos podem perfeitamente adquirir novas aparências, ser manipulados e apresentados de maneira convincente, criando versões que se distanciam dos fatos. Dessa forma, tornam-se instrumentos capazes de confundir e ludibriar os eleitores menos avisados, que, muitas vezes, acabam acreditando naquilo que melhor corresponde às suas convicções, sem se preocupar em verificar a veracidade das informações.

Afinal, em tempos de radicalismo e manipulação da informação, o maior perigo talvez não esteja apenas nas promessas de quem disputa o poder, mas também na disposição de quem vota em acreditar cegamente nelas, abdicando do senso crítico e da capacidade de questionar.

Porque, quando a fé política se sobrepõe à razão, o eleitor deixa de avaliar as propostas e passa a defender incondicionalmente aqueles que escolheu para representá-lo.

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