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A lendária balsa para Manacapuru já chegou ao Acre para levar os derrotados do segundo turno
A mais famosa embarcação do folclore político acreano está de volta. A lendária Balsa para Manacapuru, destinada aos candidatos derrotados nas eleições, já teria atracado no Porto da Gameleira, em Rio Branco, à espera dos passageiros do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Quem anuncia a chegada é o jornalista e humorista Antônio Klemer, que recuperou em vídeo uma história que atravessa gerações e se transformou numa das tradições mais conhecidas da política do Acre.
A narrativa ganhou popularidade pelas mãos do advogado, jornalista e cronista Aloísio Macedo Maia, que escrevia no jornal O Rio Branco. Foi ele quem transformou a viagem fluvial numa sátira eleitoral, reservando aos derrotados uma passagem sem volta imediata para Manacapuru, no Amazonas.
A tradição é geralmente associada à década de 1970, embora seus antecedentes sejam mais antigos. Um registro da Assembleia Legislativa do Acre, de 2005, atribui a popularização da expressão a Aloísio Maia ainda na década de 1960.
Em suas crônicas, Maia criou personagens que povoavam o imaginário de Rio Branco, entre eles Madame Janete, figura de uma narrativa fantástica que observava os acontecimentos da cidade. Mas nenhuma de suas invenções ganhou tanta projeção quanto a balsa dos derrotados.
A história mistura humor, política e costumes amazônicos. Segundo o historiador Marcos Vinícius Neves, a origem da metáfora está relacionada à expressão regional “descer de bubuia”, utilizada para descrever algo que segue rio abaixo, levado pela correnteza.
A imagem também remete aos tempos das revoltas autonomistas, em 1910 e 1912, quando a expulsão de autoridades em embarcações fazia parte das narrativas sobre punições políticas. Outra referência vem dos seringais, onde bonecos representando Judas eram colocados em balsas e lançados ao rio durante celebrações populares.
Na versão eleitoral, o embarque começa simbolicamente no Porto da Gameleira. A embarcação desce o rio Acre, alcança o Purus e segue em direção à região do Solimões, até Manacapuru. A viagem é lenta, penosa e acompanhada pelo famoso “choro do surubim”.
O peixe também integra a mitologia da balsa. O som emitido pelo surubim quando retirado da água foi incorporado à narrativa como representação do lamento dos candidatos que perderam a eleição.
Klemer recupera esse universo com humor. “Pegar a balsa é estar indo embora, foi derrotado, foi descartado”, explica o jornalista ao descrever o significado da viagem.
Na brincadeira, os passageiros mais frequentes já teriam apartamentos alugados e até estátuas em Manacapuru, resultado das sucessivas derrotas eleitorais. Os chorões, inconformados e candidatos que insistem em retornar às urnas ocupam lugar especial na embarcação.
A tradição também ganhou expressão nas artes gráficas. Durante décadas, chargistas acreanos desenharam os derrotados acomodados em balsas, com malas, semblantes abatidos e destino conhecido. Entre os artistas associados à continuidade dessa manifestação estão Dim Mendes, Maxtane Dias e Enilson Amorim.
Em 2026, a primeira leva de passageiros foi definida pelas urnas de 4 de outubro, quando candidatos ao Senado, à Câmara dos Deputados, à Assembleia Legislativa e ao governo ficaram fora das disputas ou não conquistaram mandato.
Agora, a embarcação reaparece na narrativa de Klemer para a etapa decisiva da eleição estadual. Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos) disputam o governo em 25 de outubro. Um deles será derrotado nas urnas e, pela tradição humorística, terá passagem reservada.
“Para a tristeza dos viajantes, a balsa que vai para Manacapuru já estacionou no Porto da Gameleira”, anuncia Klemer.
A embarcação é imaginária, mas sua presença na cultura política acreana atravessa mais de meio século. Mudaram os partidos, os candidatos, os meios de comunicação e até a maneira de fazer humor eleitoral. A balsa, porém, continua com o mesmo destino: Manacapuru, ao som do choro do surubim.











