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RAIMUNDO FERREIRA

Coluna do professor e arquivista Raimundo Ferreira de Souza: Radicalismos vigente

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RADICALISMO VIGENTE

Conforme costumamos ouvir as pessoas afirmarem em relação a outras, algumas visões podem avaliar alguém como sendo enfadonho ou maçante. Nós mesmos corremos esse risco quando tratamos de assuntos que nos incomodam e que, no fundo, acabam nos instigando a ponto de trazê-los sempre ao debate.

É o caso da polarização ou do extremismo. Onde quer que eles interfiram nas análises, as temáticas acabam convergindo para um mesmo ponto e, consequentemente, o radicalismo se encarrega de conduzir opiniões e conclusões para um dos lados.

Agora mesmo, por conta das discussões em torno das mudanças de comando nas diversas esferas da administração pública, em cada debate envolvendo a política, a polarização, sustentada por paixões radicais, está presente, demarcando território.

Conforme sabemos, onde quer que existam o extremismo e o radicalismo, além de não haver racionalidade, também não haverá lucidez nas ideias, tampouco evolução ou aprendizado. Quando a paixão política se sobrepõe à razão, o adversário deixa de ser alguém com uma opinião diferente e passa a ser tratado como alguém que precisa ser combatido.

O filósofo contemporâneo Jürgen Habermas é uma das grandes referências quando se trata da defesa do diálogo e da democracia deliberativa. Segundo sua concepção, a democracia depende da ação comunicativa, do debate racional e da participação inclusiva. Do contrário, as discussões e os debates podem transformar-se em verdadeiros monólogos, impostos pelo radical mais exaltado.

E, caso alguém insista em trazer o assunto novamente para o campo da racionalidade, a própria dinâmica do extremismo poderá conduzir a discussão para o terreno da agressão, seja ela verbal ou pessoal. Quando a argumentação deixa de prevalecer, o ataque ao interlocutor passa a ocupar o lugar dos argumentos.

Além de Habermas, outros pensadores de diferentes épocas também fizeram importantes reflexões sobre os excessos do extremismo político e social. A democracia deliberativa, em particular, valoriza justamente a possibilidade de confrontar ideias por meio do diálogo, da argumentação e da disposição para ouvir o outro.

Essa é uma ideia com a qual concordamos plenamente: a polarização excessiva pode enfraquecer a esfera pública quando substitui o diálogo argumentativo pelo ataque pessoal, pela intolerância e pela recusa em ouvir opiniões divergentes.

Michael Sandel, por sua vez, associa parte da polarização contemporânea ao que denomina de “tirania do mérito”. Em sua análise, a divisão entre “vencedores” e “perdedores” produz ressentimentos e profundas frustrações sociais, contribuindo para alimentar conflitos e radicalizações políticas.

Byung-Chul Han também chama atenção para os efeitos da era digital. Segundo suas reflexões, especialmente nas redes sociais, a formação de bolhas pode contribuir para o isolamento de grupos em suas próprias convicções, dificultando o encontro com o pensamento diferente e transformando o debate público em um ambiente cada vez mais marcado pelo eco das próprias opiniões, pela intolerância e pelo radicalismo.

No final das contas, talvez o maior perigo do radicalismo não esteja apenas na defesa apaixonada de uma determinada ideia, mas na incapacidade de admitir que o outro também pode ter razões, argumentos e até mesmo alguma parcela de verdade.

Quando deixamos de ouvir para apenas responder, quando abandonamos a reflexão para defender posições previamente estabelecidas e quando transformamos divergências em inimizades, o debate deixa de ser um instrumento de construção coletiva e passa a ser apenas uma disputa para saber quem grita mais alto.

E uma sociedade que perde a capacidade de dialogar corre o risco de transformar a política, que deveria ser um espaço de convivência entre diferentes, em um permanente campo de batalha entre pensamentos que já não conseguem sequer se escutar.

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