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Valterlucio Campelo

Coluna do Valterlucio Bessa Campelo: Sobre o boicote ao petismo e “fascistas” recuando

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Valterlucio Bessa Campelo

Há alguns anos, em minha dissertação no mestrado em Ambiente, Tecnologia e Sociedade, trabalhei com um indicador chamado DAP – Disposição a Pagar, que mede o valor máximo que uma pessoa aceita pagar por um bem ou serviço, considerando suas preferências, renda e percepção de benefícios. Tratei de produtos orgânicos em restaurantes. A pesquisa que fiz me veio à lembrança hoje, depois que vi uma série de posts e notícias relativas ao chamado “boicote aos petistas”. Não é a mesma coisa, mas está no mesmo campo de investigação, daí pensei um pouco a respeito.

Vejam bem. Assim como a DAP, a decisão de compra (vou chamar de DC) de algo em determinado estabelecimento comercial está sujeita a uma série de fatores, entre os quais destaco para este texto as influências sociais e culturais – família, grupos de referência, normas sociais e tendências.

Por exemplo: nos últimos anos, entrou com tudo na sociedade global o “consumo sustentável” que significa induzir a compra de produtos em estabelecimentos que respeitem o meio ambiente, o compromisso com a preservação, redução de emissões, poupança de energia e assim por diante. Por obvio, isso tem como consequência a redução do consumo dos produtos “insustentáveis”, o que levaria as empresas desobedientes a mudarem seu modo de produção. Não conheço vivalma que seja contra isso porque, embora seja um boicote sugerido massivamente pelo Estado, as razões são virtuosas.

Por que, então, isso não pegou na maioria das empresas? Ora, porque embora haja uma disposição ao consumo de produtos sustentáveis, entra no cálculo um fator mais importante para a maioria – o preço. Enquanto o preço dos produtos sustentáveis não se aproximarem ou igualarem os produtos convencionais, a maioria da população, com restrição de renda, fará a escolha mais racional que é gastar menos e ter a mesma satisfação imediata. Vale dizer, a DC esbarra na DAP. 

No final das contas, quem resolve é o consumidor, que tomará a decisão de consumo a partir da ponderação que faz dos vários fatores influenciadores na sua DAP e DC. Tá, mas o que isso tem a ver com o boicote ao petismo nas empresas?

Parece que tem bastante à medida que, numa sociedade polarizada, a preferência política soma-se às influências sociais e culturais entre os fatores de decisão de consumo e disposição a pagar. Pode-se dizer que o “nós contra eles” inaugurado por Lula da Silva há décadas, está chegando ao ponto por ele desejado. Parabéns!

Adianto que, da minha parte, o fator mais importante sempre será preço e qualidade. Para mim, a cara do vendedor só aparece quando os preços são iguais para o mesmo produto. Daí em diante, atendimento, proximidade de casa, limpeza do local etc. entram no radar, a preferência política nem estaria na lista. Desaconselho mesmo a quem quer que seja, deixar de comprar o mesmo produto por preço mais barato em função de preferência política, mas respeito.

De todo modo, é preciso examinar bem o assunto. Se formos buscar direitinho, acharemos na própria esquerda as razões para uma reação desse tipo. Imagine o seguinte: O rapaz acorda de manhã, vai na padaria, é gentilmente atendido pelo balconista, compra o pão quentinho, vai pra casa, toma o café, vai trabalhar na empresa do pai, rala o dia inteiro e à noite vai pra faculdade. Lá reencontra o balconista da padaria em meio à turba que fechou a faculdade com uma faixa e gritos esgoelados “recuem fascistas, recuem!”. O mesmo pode acontecer com uma jovem e sua manicure. Pergunto: Que razões teria o jovem para voltar àquela padaria? No outro dia pela manhã, ele se lembrará que há outra padaria mais adiante, onde o pão é tão fresquinho quanto aquele e pelo mesmo preço. Entre a padaria e a loja de roupas não há diferença. Boicote? Sim. Crime? Definitivamente, não.

Ahh, Valterlucio, o nazismo fez isso com os judeus. Não, não fez, bobinho. Fez pior, muito pior. Judaísmo não é uma opção política, é uma combinação de etnia, cultura, história compartilhada e religião. Embora não se configure racismo, o caso é equivalente a não comprar na padaria porque novo balconista é negro. Além disso, a perseguição aos judeus foi uma política de Estado. A rigor, o carimbo de insustentável em uma empresa ou uma lista de empresas não sustentáveis é mais parecido.

O que estamos assistindo do ponto de vista de órgãos judiciais e políticos oportunistas que tentam, inclusive no Acre, perseguir o consumidor por sua DC/DAP, é mais uma intromissão do Estado em assuntos que dizem respeito somente ao indivíduo. Como consumidor, o cidadão tem o direito de escolher por seus próprios critérios, gostos e preferências, o que, onde, como e por quanto comprar qualquer produto. O consumo é um ato de vontade personalíssimo, se a política entrou no seu sistema de avaliação, o problema é somente dele. Aliás, quando o ministro petista Fernando Haddad pregou o boicote ideológico (AQUI), não se viu essa cambada de bajuladores investir em defesa das empresas “inimigas”. Onde estavam os porraloucas mimizentos do MP?

Sim, isso intensifica a polarização. Mais do que a perseguição judicial aos adversários do regime? Mais do que a liberdade de ação que Lula da Silva teve para dar e prometer e acusar falsamente? Mais que a penumbra lógica sobre as eleições recentes? Seguramente, não. 

Se sou a favor da polarização? Não. Apenas não acho que ela seja causa de nada. Ela é consequência da eliminação gradual da liberdade do indivíduo. Cabe a quem a provocou recuar e recuperar a plenitude democrática. Infelizmente, como se viu nos últimos dias, inclusive após a eleição, com a perseguição ao candidato Flávio Bolsonaro, que teve que se exilar para não ser preso, os poderosos não estão com nenhuma vontade de aliviar a tensão. Estão preferindo dobrar a aposta. Amém. 

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor  PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

 

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